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Caatinga: vocação para a energia renovável

Caatinga: vocação para a energia renovável 

O Ekos Brasil entrevistou o engenheiro florestal e coordenador geral da Associação Plantas do Nordeste, Frans Pareyn, sobre os desafios e os potenciais da Caatinga para o desenvolvimento sustentável do Brasil. Leia na íntegra. 

Ekos Brasil – Frans, como vai a nossa Caatinga? 

Nossa Caatinga tem em torno de 84 milhões de hectares. Com a ajuda de uma ferramenta, observamos que em 1985, a Caatinga tinha 68% de cobertura original. Em 2018/19 esse número baixou para 59%

Isso significa que a Caatinga perdeu cobertura? Sim, perdeu. Mas quando olhamos de perto, a maior perda aconteceu antes dos anos 2000. A partir de então, a perda foi pequena e praticamente ficou em um equilíbrio, na faixa dos 60%. 

Isso dá uma certa tranquilidade. Significa que minimamente a Caatinga vem sendo mantida. Mas significa que não há desmatamento? Não. O desmatamento acontece sim. Mas nesse caso, o bioma é diferente dos outros

A perda e a recuperação ficam espalhadas dentro do bioma. Temos um mosaico de áreas de perdas e ganhos. Mas a cobertura (paisagem) mais ou menos se mantém. Isso é bem diferente de Cerrado e Amazônia, onde há uma perda diferente da floresta. 

Ekos Brasil – E por que isso acontece? 

Isso é um reflexo dos sistemas tradicionais de produção dentro bioma como a agricultura de pequena escala, a exploração da vegetação para abrir áreas agrícolas, usar num determinado período e depois deixar de novo para a recuperação florestal. 

A vegetação da Caatinga, por exemplo, tem tido uma importância grande na pecuária extensiva, pois oferece forragem nativa para os animais domésticos. Então, nem em fazendas grandes o pessoal desmata tudo, porque a própria Caatinga tem esse suporte forrageiro, dá essa contribuição para essa atividade tradicional. 

Isso é totalmente diferente do Cerrado e da Amazônia. 

E isso também significa que não podemos tratar o Bioma Caatinga como os outros. As políticas públicas deveriam estar adequadas para esse sistema produtivo. Mas ao longo da história, vimos que ela é usada para áreas agropecuárias e madeira, dois motivos principais pra exploração sua exploração. 

Paisagem da Caatinga na Paraíba/Wikipedia

Ekos Brasil – Esse tipo de exploração é o maior desafio da Caatinga hoje? 

Essa é a grande questão. Paralelamente aos cerca de 7,3 milhões de hectares de Caatinga protegidos em Unidades de Conservação, que representam apenas 8,08% da área original do bioma original, em diferentes graus de proteção, temos uma população relativamente grande no semiárido e que diariamente pressiona os recursos naturais existentes. 

Uma das atividades principais para essa população é a extração de lenha/madeira. Porém, a vegetação não tem muita vocação para madeira, porque são árvores menores. Mas tem uma vocação para biomassa de energia, então serve muito bem para produção de energia. 

Recentemente fizemos um estudo e vimos que, atualmente, o setor industrial e comercial da região do bioma demanda anualmente em torno de 7 milhões de toneladas de matéria seca, isso para atender a energia calorífica em processos industriais como cerâmicas, padarias, casas de gesso, etc. Praticamente todas as indústrias do Nordeste funcionam com biomassa (lenha). 

E quem cozinha com lenha e carvão também precisa dessa mesma quantidade, cerca de 7 milhões de toneladas de matéria seca. Porém, no caso domiciliar acontece a catação de madeira morta na floresta, ao menos na zona rural. Enquanto o setor industrial desmata para atender fornos e caldeiras. 

Ekos Brasil – E na sua opinião, como essa demanda pode ser atendida de forma sustentável? 

Por um lado, temos várias fontes de biomassa para energia, além da lenha: algaroba, poda de caju, poda de frutífera, bambu, eucalipto, etc, para atender essa demanda energética. Todos esses juntos, hoje representam 5,5 mi de toneladas. 

Ou seja, ainda temos um déficit (em relação às 7 milhões de toneladas de demanda) que é abastecido por lenha da Caatinga

Isso não seria um problema se o déficit fosse abastecido pela madeira proveniente dos planos de manejo, mas todos os levantamentos que temos, inclusive de 2018, vimos que os planos de manejo representam apenas 300 mil hectares.

As áreas manejadas são uma fonte de renda, garantem conservação da biodiversidade e abastecem a demanda por energia, que precisa ser atendida e que a outra alternativa seria o uso de combustíveis fósseis. 

Se quisermos nos adequar às preocupações atuais em termos ambientais, isso significa conservar a biodiversidade, conservar o ecossistema e evitar a emissão de Gases de Efeito Estufa. Por isso, a produção sustentável de energia renovável é a melhor opção. 

E a Caatinga se adequa muito bem. Ela tem capacidade de produzir! Já conhecemos com bastante segurança o grau de produtividade que existe em suas diversas regiões e há um sistema de manejo que garante sua sustentabilidade a longo prazo. 

Por exemplo, imagine que eu, Frans, tenho uma cerâmica que precisa de lenha todo mês para produzir telha e tijolo. Tenho várias alternativas para energia. Se for fogo a lenha, posso usar lenha nativa ou biomassa. Só que boa parte da lenha que compro vem de fonte não identificada, ilegal. O que posso fazer? 

Conheço uma fazenda localizada na Caatinga, mas que faz plano de manejo, ou seja, contratou um engenheiro florestal que estimou qual a produção possível de madeira de acordo com um ciclo de corte, submeteu o plano ao órgão ambiental que anualmente vai emitir uma autorização para exploração da área de caatinga. E aí essa lenha é vendida legalmente para qualquer demanda. E eu posso comprar. Então, a minha cerâmica não emite Gases de Efeito Estufa porque comprei madeira de manejo sustentável. No nosso entender o balanço é neutro. Vou emitir, mas esse carbono é paulatinamente reincorporado na floresta que está crescendo. Isso é uma opção fantástica para contribuir no balanço das emissões. 

Usar a energia renovável da Caatinga é uma fonte de renda local. É um sistema barato e faz bem pra economia local. Tem um apelo social e econômico para geração de renda e emprego. Especialmente em uma região que carece de oportunidades produtivas. Por isso, defendemos muito o manejo florestal da Caatinga. O manejo pode ser integrado com a pecuária, desde que se respeite as quantidades de carga, com a apicultura, etc. Não tem muito conflito de interesse. 

No entanto, de 2015 a 2018 (último dado disponível) tivemos uma queda absoluta: tivemos menos área manejada em 2018 do que em 2015, ou seja, menos oferta de lenha manejada, enquanto a demanda aumentou. Isso é catastrófico, temos mais lenha ilegal, sem controle, sem garantia de evitar emissões GEE.

De acordo com nossas estimativas, precisaríamos ter 1,5 milhões de hectares manejados, aí sim teríamos uma situação ambientalmente correta. 

Algaroba na Caatinga | Foto: Glauco Umbelino/Wikipedia

Ekos Brasil – E por que não temos mais manejo sustentável na Caatinga? 

Em termos de legislação, para que não houvesse nenhum aproveitamento ilícito da Caatinga, os órgãos ambientais se tornaram muito exigentes, o que é bom, mas pouco eficiente. Se há intenção em fazer um plano de manejo, a pessoa desiste no meio do caminho. Não existe uma política de incentivo ao plano de manejo. E na maioria dos casos se diz apenas o que não pode. Não é desenhado para ser algo atrativo. 

Não reclamo dos órgãos ambientais. Mas o fazendeiro, por exemplo, pensa 3 vezes antes de entrar com uma solicitação para plano de manejo. 

Se eu fosse um órgão ambiental, receberia e já iria perguntar o que ele precisa. É muito melhor do que qualquer desmatamento descontrolado. 

E o principal motivo de isso não avançar é a mentalidade, a opinião generalizada que se implementou que o uso de floresta é algo ruim porque temos uma pressão de desmatamento. Também sou contra o desmatamento, mas do uso sustentável da floresta não posso ser. É possível um uso adequado, racional, evitando perda de cobertura, de serviço ecossistêmico, mas possibilitando proveito econômico. 

E não vejo isso acontecer sem políticas públicas. 

Infelizmente quem faz certo e quem faz errado é tratado igual pela lei. E se eu faço certo, custa mais caro. 

 

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Bioeconomia

As tendências e os desafios da Bioeconomia no Brasil e no mundo

As tendências e os desafios da Bioeconomia no Brasil e no mundo

Diante das várias crises que vivemos no momento – crise climática, de perda da biodiversidade e de poluição dos mares, por exemplo, – é cada vez mais comum ouvirmos a palavra bioeconomia como algo que pode nos tirar deste quadro preocupante. Esta palavra vem associada à ideia de algo novo, de uma economia nova, que seja capaz de desenvolver e introduzir nos processos produtivos uma nova lógica que associa o uso dos recursos naturais e o conhecimento. Essa nova economia também busca se aproximar das demandas de consumo de uma sociedade cada vez mais exigente em relação aos cuidados com o meio ambiente. 

A definição de bioeconomia possui certa flexibilidade porque seu desenvolvimento depende dos recursos naturais disponíveis em cada região ou país. De acordo o Global Bioeconomy Summit 2018, bioeconomia é “a produção, utilização e conservação de recursos biológicos, incluindo conhecimentos, ciência, tecnologia e inovação relacionados, para fornecer informações, produtos, processos e serviços em todos os setores econômicos, visando a uma economia sustentável”. A principal lógica da bioeconomia é encontrar novos usos para produtos de origem biológica. Porém, ainda que este conceito possa agregar especificidades relativas ao local e recursos naturais associados à bioeconomia, falta uma abordagem explicita sobre o papel da conservação das florestas tropicais neste contexto.

Mesmo que este conceito pareça novo para alguns, ele foi cunhado nos anos 70 pelo economista e matemático romeno Nicholas Georgescu-Roegen. Naquela oportunidade, Georgescu-Roeggen, vislumbrava ser possível o desenvolvimento de uma economia dentro dos parâmetros da natureza. Para ele, as pessoas não precisariam depender exclusivamente dos combustíveis fosseis uma vez que plantas e microrganismos poderiam produzir quaisquer materiais.  

Hoje, vários países do mundo têm incorporado a bioeconomia em suas estratégias de desenvolvimento dado seu potencial econômico aliado à sustentabilidade, e às demandas dos consumidores. Trabalho publicado pela OCDE indica que até 2030, a contribuição global da biotecnologia alcançará mais de US$ 1 trilhão distribuídos entre os setores de saúde, produção primária e industrial. 

Na União Europeia, inciativas inovadoras relacionadas à bioeconomia ganharam espaço já nos anos 2000. Na oportunidade, o bloco europeu já apostava na exploração dos recursos biológicos antevendo a solução de problemas ambientais, o que culminou com o lançamento, em 2012, de sua Estratégia Regional de Bioeconomia, atualizada em 2018. Países como a Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Finlândia, Suécia e outros, possuem Planos Nacionais de Bioeconomia. Os Estados Unidos são outro expoente desta tendência. 

Dados da Comissão Europeia apontam que setores ligados à Bioeconomia nesta região movimentam 2,3 trilhões de euros/ano e geram 18 milhões de empregos (ou 8,3% do mercado), enquanto a contribuição para o PIB europeu é de 620 bilhões de euros (4% do PIB regional). 

Um reforço importante para o avanço da bioeconomia vem da iniciativa “European Green Deal” que reposiciona a relação do bloco com outros países com os quais têm relações comerciais. Esta iniciativa prevê medidas para proteção de florestas tropicais, incentivando a aquisição e consumo de commodities provenientes de cadeias de abastecimento livres de desmatamento. 

Este movimento já traz reflexos para o Brasil. Está em discussão no Parlamento Europeu projeto de lei para responsabilizar civil e penalmente empresas importadoras de commodities de áreas desmatadas. A demonstração prática recente desta iniciativa se deu em junho de 2020, quando 29 instituições financeiras, entre fundos de pensão e bancos que juntos somam quase US$ 3,75 trilhões sob sua gestão, enviaram carta ao governo brasileiro, demonstrando preocupação com o desmonte das políticas ambientais e o avanço significativo do desmatamento. 

E no Brasil?

Possuidor de um território com mais de 8,5 milhões de km2, onde se inserem sete biomas (incluindo o mar) que abrigam 20% do número total de espécies existentes (116 mil espécies de animais e 55 mil espécies de plantas) e onde está a maior floresta tropical do planeta, o Brasil desponta como um país de enorme potencial para o desenvolvimento da bioeconomia. Por estas características também se vislumbram novos ganhos para a economia, para o desenvolvimento científico, a conservação da biodiversidade e valorização dos conhecimentos tradicionais. O pesquisador José Vitor Bomtempo Martins, Coordenador do Grupo de estudos em Bioeconomia da UFRJ estimou que a bioeconomia representava U$ 286 bilhões no Brasil em 2016, ou perto de 14% do PIB

Além dos recursos naturais favoráveis ao desenvolvimento da bioeconomia, o Brasil também possui outros atributos importantes como a presença de uma agricultura desenvolvida, um grande potencial para gerar energia eólica e solar e experiências bem sucedida em biocombustíveis. Estes setores já mostram resultados interessantes e alguns exemplos correntes como os abaixo listados: 

 

  • Cana-de–açúcar o etanol (inclusive de 2a geração E2G – mais eficiente e com menos emissões de C), energia térmica (o bagaço já contribui com 8% da matriz energética brasileira), e o esqualeno que é um antioxidante e é utilizado como óleo hidratante; 

 

  • Florestas plantadas a lignina pode substituir o benzeno e estireno (fosseis) na produção de plástico, para a fabricação de copos, embalagens e brinquedos, por exemplo; A nanocelulose (extraída das fibras da madeira) confere leveza e grande resistência mecânica podendo ser aplicada na construção civil, automotiva, aeroespacial, farmacêutica e alimentícia. A chamada “Madeira engenheirada” pode sustentar colunas de lajes na construção civil.

 

  • Combustíveis – Biogás  já existem 3 termelétricas no Brasil que utilizam o lixo para a produção de gás em SP, BA e RS. Também pode servir como combustível para caminhões (biometano) e para a siderurgia. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), 18% dos combustíveis consumidos no país são renováveis. Um passo importante na descarbonização do setor de transportes e a geração de créditos de carbono (CBIOs) é o RenovaBio, que visa incentivar a produção destes tipos de biocombustíveis. 

 

  • Cosméticos vários produtos já estão no mercado, sendo este um dos setores da indústria com grande potencial de desenvolvimento de novos produtos na lógica da Bioeconomia.

 

Mas, é necessário que o país invista em outros setores para o pleno desenvolvimento da bioeconomia, que possam incluir outros atributos da nossa biodiversidade. A floresta em pé́, por exemplo, tem um valor que ainda desconhecemos por completo. Além dos serviços ecossistêmicos prestados ao planeta, como captação de CO2, manutenção do regime de chuvas, conservação da biodiversidade, entre tantos outros benefícios, há incontáveis potencialidades que podem se transformam em riquezas, sem agressão à natureza. 

Bioeconomia e Biodiversidade da Amazônia  

Atualmente, em alguns círculos de discussões (técnico-político-filosófico e de desenvolvimento sustentável), o bioma amazônico, onde habitam 25 milhões de pessoas, parece o lócus privilegiado para o desenvolvimento da bioeconomia. Manter este bioma conservado é, portanto, manter uma vantagem comparativa única para o Brasil. Mas, a forma de transformar esta vantagem em ativos econômicos ainda demandará tempo. 

Entende-se que o desenvolvimento econômico, que tem na inovação em bioeconomia sua lógica, terá que transformar as formas correntes de cadeias de valor e mercados de produtos. É preciso ter como pano de fundo a conservação da biodiversidade, evitando sua simplificação ao mesmo tempo que se deve promover a expansão dos territórios conservados. Em igual medida, é imprescindível focar na melhoria do bem-estar das populações que vivem na floresta e dela retiram sua sobrevivência material, cultural e espiritual. A bioeconomia precisa ser ambientalmente comprometida, equitativa e socialmente inclusiva

Para que este foco da Bioeconomia seja alcançado, é importante distingui-lo do viés conceitual utilizado nas economias industrializadas, baseado principalmente na substituição de materiais e combustíveis fósseis, promoção do setor agrícola, e de energias alternativas, que focam na redução de emissões de gases de efeito estufa. Isto se mostra particularmente relevante para que as políticas públicas por vir, evitem fortalecer atividades que levem ao desmatamento e concentração de riqueza e renda. 

Gargalos

Para que o potencial da Bioeconomia se materialize, alguns gargalos devem ser enfrentados, tanto aqueles de caráter geral, quanto os específicos para a região amazônica e outros biomas.

De forma geral, os problemas apontados são: falta de mão de obra qualificada; coordenação política; inexistência de um Plano Nacional de Bioeconomia – existindo apenas ações voltadas a setores específicos com visão incompleta e fragmentada; excesso de burocracia que estende sobremaneira o tempo para a realização de pesquisas, e falta de sinergia entre iniciativa privada, governo e academia.

Já no tocante à região amazônica, somados aos gargalos gerais há limitações aos produtos florestais extrativos, decorrentes das suas próprias características assim como da própria região: alta perecibilidade dos produtos, dificuldades logísticas, instabilidades na produção (volume, qualidade, etc.), mercado pouco organizado e baixa tecnologia. Estas características reforçam a presença de atravessadores, dificultando o estabelecimento de canais diretos com os produtores, o que por vezes afasta potenciais compradores e desincentiva a melhoria da própria cadeia produtiva. 

Portanto, para que nosso potencial natural possa aumentar os ganhos com a bioeconomia, há que se olhar com cuidado para o potencial e capacidade de cada setor, de forma que sejam respeitados e incentivados o cuidado com nossos biomas e sua biodiversidade e que sejam respeitados os direitos e conhecimentos das populações tradicionais.  

Por Maria Cecilia Wey de Brito, Instituto Ekos Brasil.

 

Fontes 

Especial Guia Exame de Sustentabilidade   – a Economia do Futuro (13/11/2019)

Instituto Escolhas e IRICE (Instituto de Relações Internacionais & Comércio Exterior). Agenda para o destravamento da Bioeconomia. 2019

Instituto Escolhas – Revista – Interesse Nacional – ano 13 Edição especial 01 – Bioeconomia – Ago 2020

Revista Página 22 News – Amazônia Legal em Dados | Bioeconomia | ESG e exploração | Mulheres e Clima (fevereiro de 2021)

 

 

 

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E do ESG: checklist para a excelência da sua empresa em sustentabilidade

E do ESG: checklist para a excelência da sua empresa em sustentabilidade

O mercado financeiro já entendeu que a valorização das empresas está intrinsecamente ligada ao seu comprometimento com o meio ambiente, com a comunidade ao seu entorno e com práticas éticas e justas de governança, dentro e fora dos seus limites. De fato, a sigla ESG (Environmental, Social, Governance) ganhou a mídia, os fundos de investimento e é a mais nova “sensação” no mercado, com publicidade em TV aberta e mobiliário urbano pelas grandes cidades.

Se alguns acreditam que “chegou a nossa hora” de ver o jogo virar em favor da sustentabilidade, outros acham que é “conversa fiada”. Não, não é e não deve ser.

Se você também acredita nisso, mas não sabe por onde começar com a sua organização, a seguir sugerimos algumas linhas de ação para começar a refletir sobre sua estratégia de sustentabilidade pela parte ambiental. Para elaborar essas sugestões, tivemos como base a metodologia de avaliação de impacto das empresas  proposta pelo Sistema B.

Por onde começar?

Instalações

Um bom começo é avaliar se as estruturas físicas da sua organização podem ser, totalmente ou em parte, substituídas por escritórios virtuais ou espaços compartilhados de trabalho. Algumas operações são inevitavelmente dependentes de uma estrutura física, mas quem sabe, outras não, auxiliando significativamente na redução do impacto ambiental.

Além disso, se a sua empresa já mantém instalações virtuais, uma boa prática é estruturar uma política formal para incentivar a reciclagem, a eficiência energética, o descarte correto de resíduos eletrônicos, e inclusive indicar fornecedores que possuem selos ou operações comprovadamente sustentáveis.

✅ A organização pode ter (ou ter mais) escritórios virtuais ou espaços compartilhados de trabalho?

✅ Temos uma política formal de instrução sobre práticas sustentáveis em escritórios virtuais?

Energia

Monitorar o consumo de energia da sua organização é sem dúvida primordial para dar início a um novo modelo de comportamento e de operações. Para tanto, é possível contar com consultorias especializadas que quantificam e avaliam o consumo de energia e também podem indicar metas de redução de acordo com cada realidade.

Em alguns contextos, às vezes é possível usar fontes de energia limpa ou renovável, em outros casos, é possível comprar energia renovável (de forma indireta) de uma fonte externa.

✅ Monitoramos e gerenciamos o consumo de energia da organização?

✅ Contamos com fontes renováveis ou limpas de energia para nossas operações?

✅ Temos metas de redução de energia?

✅ Nossos colaboradores entendem os impactos associados a energia que consumimos e a importância do uso racional de energia?

Emissões de Gases de Efeito Estufa

O avanço da agenda sobre as Mudanças Climáticas e a popularização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ajudaram muitas organizações a iniciar a gestão corporativa das suas emissões de gases de efeito estufa. Isso incluiu evoluir do inventário de emissões e uma primeira contabilidade de carbono, para uma ação estratégica alinhada com uma economia de baixo carbono.

O caminho ainda se inicia com o inventário, mas inclui a adoção de ferramentas, metas concretas, investimentos em mitigação das mudanças climáticas e, inclusive, influência positiva no mercado por ações sustentáveis, o que reflete uma verdadeira mudança de cultura.

Sobre esse ponto, não podemos deixar de mencionar o programa Compromisso com o Clima que conecta organizações interessadas em compensar suas emissões de Gases de Efeito Estufa com projetos socioambientais de impacto positivo. Em três anos de existência, o programa conta com oito apoiadoras institucionais, 15 projetos e já deixou de emitir 2,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente verificadas, contribuindo significativamente para que as organizações apoiadoras alcancem suas metas de redução e compensação de emissões.

✅ Temos inventário de emissões de gases de efeito estufa?

✅ Temos metas de redução, compensação e eliminação de emissões de GEE?

✅ Temos a mitigação das mudanças climáticas contemplada no planejamento financeiro da empresa e fazemos investimentos em sustentabilidade?

✅ Entendemos o quanto nosso negócio está exposto aos riscos físicos, regulatórios e de mercado que estão associados às mudanças climáticas?

✅ Somos capazes de influenciar o mercado com nossa postura e cultura sustentáveis?

Água

Monitorar e registrar o consumo de água também é o passo inicial para estabelecer metas de redução na sua organização. Num primeiro momento, as metas podem ser baseadas no consumo anual anterior, mas com uma campanha e linhas de ação claras e simples, as metas podem ser mais ousadas a cada ano de acordo com o consumo sustentável da bacia hidrográfica da sua região. As ações também podem incluir sistemas para reuso e tratamento da água para diferentes operações.

✅ Monitoramos o consumo de água?

✅ Temos metas de redução para o consumo de água?

✅ Sabemos de onde vem a água que consumimos e quais os principais desafios locais para a segurança hídrica?

[su_highlight]Leia também: Gestão das emissões de carbono: três empresas e suas ações por uma agenda climática positiva.[/su_highlight]

Resíduos

Outra linha de ação ambiental é o cuidado, o monitoramento e a gestão dos resíduos, sejam eles perigosos (pilhas, baterias, tinta, equipamentos eletrônicos, etc) ou não.

A sua organização pode contribuir com a reciclagem e a coleta municipal de resíduos, mas pode também fazer muito mais, como contratar um fornecedor com certificação de descarte responsável, além de incluir a economia circular em seu processo de produção, disponibilizando ou doando resíduos sólidos para a operação de outras organizações.

O Brasil, inclusive, possui uma Política Nacional de Resíduos Sólidos e exige transparência na gestão dos resíduos. Assim como nas emissões, também é possível estabelecer metas de resíduo zero.

✅ Fazemos a gestão de resíduos?

✅ Estamos atendendo a Política Nacional de Resíduos Sólidos?

✅ Temos metas de redução de resíduos ou de produção mais limpa?

✅ Tratamos e descartamos adequadamente os resíduos perigosos?

Se pareceu muita coisa, pode acreditar, é apenas o começo. Até porque apesar dessas linhas de ação serem muito importantes, elas podem e devem fazer parte de uma estratégia bem estruturada de sustentabilidade que envolva também a comunidade, os clientes, fornecedores e a governança da organização como um todo.


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“Os índios não irão desaparecer, serão minorias, mas estarão presentes e obtendo dessa nação seus direitos” 

Em conversa informal com os colaboradores do Instituto Ekos Brasil, o indigenista Sydney Possuelo, fala sobre as perspectivas e os desafios atuais – alguns não tão atuais assim – dos povos indígenas. 

“Muitas vezes nós, estando abrigados nas nossas cidades e construções, neste nicho que criamos, esquecemos que os indígenas também são nossos irmãos,  que precisamos também assistir a eles”. Essas palavras de alerta são de Sydney Possuelo, brasileiro indigenista, sertanista, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) e considerado a maior autoridade com relação aos povos indígenas isolados do país. 

Sua história com a causa começa cedo. Desde pequeno se apaixonou pela aventura, pela natureza. A pesca, caça, a história do Brasil e propriamente a questão indígena, especialmente voltada aos povos isolados, guerreiros e valentes, sempre lhe chamaram muito atenção. “Acredito que há certas características que nos ajudam a seguir no nosso destino”, declara. 

Foi ainda muito jovem que procurou os irmãos Villas-Bôas, os sertanistas mais famosos do país. “Eu percebi que era isso que eu buscava. Então, segui este destino que eu havia escolhido”. 

O sonho na prática

Naquela época, não havia escritórios da FUNAI. Como seu zelo maior sempre foi sob a luta dos Direitos Humanos, Possuelo trabalhou muito perto de comunidades indígenas isoladas, para defendê-las e apoiá-las. 

De acordo com ele, as histórias vividas na mata são infinitas. E são fortes e sofridas, da maneira como realmente é a vida dos indígenas, que necessitam lutar por suas vidas, por seus direitos básicos e por suas terras cotidianamente. “Eu, sozinho, junto dos Caiapós principalmente, enfrentei problemas de saúde, epidemias, situações que foram muito, muito difíceis”, relembra.

Descreve que uma vez estava no posto e foi chamado com pressa por dois jovens que carregavam uma mulher em uma rede. “Quando eu abri a rede,  ela estava dando à luz e tinha apenas uma mãozinha saindo da mulher. Fomos então para o ambulatório e tentamos pensar em como faríamos para tirar a criança dali. Pensamos em empurrar o braço para dentro e tentamos encaixar a cabeça da criança no local exato de parir. Eu estava ali de calção e o suor caía em cima da barriga da mãe. Já tinha colocado soro e penicilina para ela, que já estava muito fraca. Já era tarde demais para o bebê. Descobrimos horas depois que ele já estava morto há dois dias”, narra o indigenista.

“Depois foi a segunda parte”, recupera da memória. Pegaram um pequeno avião para levar a mãe ao hospital em Goiânia, mas nenhum aceitava tratá-la. Por fim, entrou no hospital, repousou a mulher em uma maca e disse que não sairia dali até que ela fosse atendida. 

“Não é uma história bonita, mas que reflete a vida, as angústias, tristezas, dores, ferimentos dos indígenas. Suas histórias com os brancos não são belas. Até hoje essas relações são muito difíceis”, evidencia.

Guerras sob a mata

Apesar de governantes brasileiros já terem assinado diferentes tratados internacionais visando a conservação do meio ambiente e da cultura dos povos indígenas, são poucos os que de fato são colocados em prática. Isso porque a prioridade do Estado é aplicar o regimento interno, que muitas das vezes vai contra os princípios sustentáveis.

O sertanista é decisivo ao dizer que o Estado brasileiro nunca protegeu os povos indígenas e nunca teve uma ação de defendê-los. Segundo ele, houve governos que cuidaram menos ou mais dessas ações, entretanto, “o eterno conflito dos que disputavam a terra ainda existe”.

“Devemos entregar os direitos que são deles. Nós devemos olhar com o coração, pois o governo não tem nenhuma decência com os povos e penso que, trazendo tudo isso para os dias atuais, vemos que o tempo não é favorável aos indígenas. Vemos que há um sentimento nacional embutido de que índio é atraso, é sujo, contra o desenvolvimento, contra o progresso”, discorre Possuelo. 

E completa: “Eu diria que nunca na história do Brasil nós vivemos um momento tão perigoso para os povos indígenas”.

A história é viva, assim como a cultura

A guerra contra as comunidades indígenas não é formal ou declarada. Aprende-se na escola sobre a chegada dos europeus às Américas e sobre a perversidade das ações dirigidas aos que habitavam esta terra. “Sempre houve uma luta por direitos e por terras dos dois lados. A luta dos brancos foi mais no início, inventando normas, carimbos.  Chegamos aqui e dissemos ‘olha, você que está aqui há mil anos, não é mais dono desta terra’, porque o índio não tinha as coisas que nós inventamos. Não tinha carimbo, não tinha papel. Não precisa ser jurista para saber que isso está errado”, conta. 

Se o arcabouço social e jurídico não favorece sua cultura, as comunidades precisam lutar por seus direitos. Graças a chegada da internet nas aldeias, principalmente os jovens têm tomado o seu devido espaço nas redes sociais, como influenciadores digitais que divulgam informações sobre sua cultura e seu cotidiano; além de ocupar espaços nas universidades, nos congressos e, principalmente, na raiz do problema: na política.

Mas Possuelo acredita que além de pressionarmos ou cobrarmos pelos  povos indígenas, a grande mudança tem que partir da população branca. Ele defende que os índios isolados têm o direito de permanecerem afastados da civilização – se assim o quiserem – para “não viverem as nossas angústias”.

“No final de todas as contas, o que estamos fazendo das nossas vidas? Estamos buscando ser felizes. Neste sentido, eles são muito melhores do que nós. Não existe essa vaidade absurda. Há pessoas que acham que isso é atraso, mas não existem sociedades ultrapassadas. Existem sociedades que seguem caminhos diferentes de nós, eles vivem no conforto, não acumulam nada, porque acreditam que a natureza que foi generosa para seus avós e bisavós vai continuar a ser generosa com eles”, diz. 

Saúde e longa vida aos povos indígenas

Sem dúvidas, Sydney Possuelo é um  exemplo de persistência, luta, empatia, humildade e consciência. “Os índios não desapareceram, seja há 30 ou 300 mil anos. E não vão desaparecer. Serão cada vez mais incorporados. Se os isolados precisam de proteção, os que estão em contato conosco precisam de nós, de saúde, de educação. O futuro precisa de nós, pois isso tudo é reflexo das nossas ações. Os índios não irão desaparecer, serão minoria, mas estarão presentes e obtendo dessa nação seus direitos. Saúde e longa vida aos povos indígenas”, conclui.

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áreas contaminadas

O que são áreas contaminadas e suas ocorrência no Brasil

O que são áreas contaminadas e sua ocorrência no Brasil

 

Por Luciana Ferreira e Yasmin Mascarenhas.

Áreas contaminadas são locais onde foi comprovada a presença de poluição ou contaminação causada por substância(s) ou resíduo(s) introduzido(s) à área de forma planejada, acidental ou até mesmo natural, indicando risco potencial ao equilíbrio ambiental e/ou à saúde humana. A contaminação também causa, por muitas vezes, restrições ao uso do solo e consequentes danos ao patrimônio público e privado, desvalorizando propriedades e afetando o planejamento regional e urbano (CETESB, 2001; INEA, s.d.).

A preocupação pública com danos ambientais traduzida em legislações, multas e taxas voltadas à sua mitigação é hoje bastante conhecida e discutida em diversos setores, especialmente nas indústrias, mas sua aplicação é consideravelmente recente: foi apenas a partir dos anos 70 que esta começou a aflorar, inicialmente em países desenvolvidos (ABDI, 2012). A revolução industrial brasileira, iniciada na segunda metade do século XIX e intensificada a partir dos anos 30 (SANTANA, 2016), gerou um aumento exponencial e gradual de áreas industriais espalhadas por todo o país, sem que houvesse à época um conhecimento aprofundado dos riscos associados à contaminantes utilizados e gerados nestas áreas. Assim, são vários os locais onde são encontrados, por exemplo, tanques subterrâneos contendo grandes quantidades de compostos perigosos, sem que tenha havido um cuidado específico contra vazamentos quando foram estabelecidos. São também comuns depósitos de resíduos abandonados, tubulações de compostos químicos com rachaduras e vazamentos e antigas áreas de despejos de resíduos sem tratamento prévio.

Foi o surgimento de casos emblemáticos, amplamente divulgados na mídia por sua capacidade de geração de riscos à saúde pública, que levou a população e os órgãos públicos a refletir sobre as consequências negativas de danos ambientais, gerando então todo um arcabouço legal voltado ao gerenciamento de áreas contaminadas, que vem se ampliando e tornando-se mais abrangente ao longo dos anos. No Brasil, é possível citar como importante ponto de partida o caso do complexo industrial das Indústrias Reunidas Matarazzo, localizado em São Caetano do Sul, no estado de São Paulo, desativado a partir de 1975 como consequência do reconhecimento do poder público dos riscos de exposição da população à compostos como ácido sulfúrico, ácido clorídrico e hexaclorociclohexano. Foi atribuída como causa da grave contaminação local a má gestão dos resíduos produzidos no complexo (IPT, 2016).

A lei CONAMA nº 420, de 2009 (MMA, 2009), recomenda que os órgãos ambientais competentes informem à população, por meio da internet, quais as áreas contaminadas identificadas em sua região de competência e suas principais características. Alguns órgãos, como a CETESB (SP) e o INEA (RJ) contam com cadastros estaduais digitais abertos à população. Porém, ainda são poucas as áreas cadastradas no Brasil, frente ao montante total previsto por profissionais da área e autoridades. Além disso, em 2012, a ABDI apontou em seu Relatório de Acompanhamento Setorial – Competitividade do Setor de Bens e Serviços Ambientais que são estimados que apenas 10% a 15% das áreas contaminadas identificadas foram remediadas, o que mostra o tamanho do desafio que o setor ainda tem pela frente. 

Em muitas regiões, os dados fornecidos à população sobre áreas contaminadas, suas características e ações voltadas ao seu gerenciamento são bastante precários ou inexistentes. O Panorama GAC – Mapeamento da Cadeia de Gerenciamento de Áreas Contaminadas, publicado em 2016 em uma parceria entre IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo), CETESB e AESAS (Associação das Empresas de Consultoria e Engenharia Ambiental), mostrou que nos estados do Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal, não haviam em 2015 dados disponibilizados acerca da identificação das áreas contaminadas presentes no estado, bem como outros dados advindos dessas áreas, tais como suas atividades poluidoras, características das fontes de contaminantes, classificação das áreas, uso atual e meios afetados pelos contaminantes. Sem informações quanto aos locais contaminados e sua natureza, a aplicação da legislação ambiental é falha, abrindo precedentes para a exposição da população à riscos advindos dessa contaminação.

Um bom exemplo de filme que ilustra de forma bem clara como assuntos como esse são de extrema importância e impacto é o “Erin Brockovick – Uma Mulher de Talento”. Este filme retrata a história de Erin (Julia Roberts), mãe de três filhos que vai trabalhar em um escritório de advocacia sem nenhum conhecimento na área e, se envolve em um caso de uma cidade em que a água subterrânea está sendo contaminada por atividades de uma indústria, e causando doenças graves em seus habitantes. No decorrer da história ela luta junto ao escritório e a população envolvida para conseguir 333 milhões de dólares de indenização da Pacific Gas and Electric Company (PG&E). A história desse filme é verídica e aconteceu nos Estados Unidos, foi um dos maiores casos que já ocorreram no país sobre áreas contaminadas. 

Portanto, áreas contaminadas existem em diversas regiões do Brasil e mundo, exigindo atenção, cuidados e monitoramento extremos para que não ocorram riscos à saúde pública e nem ao meio ambiente e, junto a isso, um meio de comunicação e informação eficiente diante a população, ou seja, se a área contaminada tiver os controles e cuidados necessários, a chance de fornecer algum risco é mínima.

 

Bibliografia

 

MMA. RESOLUÇÃO Nº 420, DE 28 DE DEZEMBRO DE 2009. [ONLINE] Disponível em: http://www2.mma.gov.br/port/conama/legiabre.cfm?codlegi=620. Acesso em 14 de abril de 2021.

CETESB, GTZ. Manual de gerenciamento de áreas contaminadas. 2ª edição. São Paulo: CETESB, 2001.

Portal INEA. Availação de Áreas Contaminadas. [ONLINE] Disponível em: http://www.inea.rj.gov.br/Portal/Agendas/LicenciamentoAmbiental/Licenciamento-saiba-mais/GestaodeRiscoAmbientalTec/AvaliacaodeAreasContaminadas/index.htm%26lang=PT-BR. Acesso em 14 de abril de 2021.

IPT. Panorama GAC: Mapeamento da Cadeia de Gerenciamento de Áreas Contaminadas. Organização Cláudia Echevenguá Teixeira, Flávia Gutierrez Motta, Sandra Lúcia de Moraes. Livro eletrônico. 1ª edição. São Paulo : IPT, 2016.

ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial). Relatório de Acompanhamento Setorial – Competitividade do Setor de Bens e Serviços Ambientais. Setembro, 2012. 

SANTANA, D.S. Revolução Industrial Brasileira: Análise Econômica no Período de 1930 a 1956. Monografia apresentada como pré-requisito para conclusão do Curso de Ciências Econômicas do Departamento de Economia da Universidade Federal de Roraima. Boa Vista, 2016.

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Custo Social do Carbono

Por que o Custo Social do Carbono é importante?

Por que o Custo Social do Carbono é importante?

Em fevereiro deste ano, o governo americano anunciou um novo valor para o Custo Social do Carbono: US$ 51 por tonelada de CO2 equivalente emitida, cerca de sete vezes mais que aquele praticado pela administração de Donald Trump.

A medida, de fato, acompanha a uma série de ações de responsabilidade que vêm sendo implementadas pelo governo Biden-Harris, como o retorno dos Estados Unidos ao Acordo de Paris, um plano de infraestrutura com fortes incentivos às energias renováveis e o recente convite à líderes de quarenta nações para a realização de um evento internacional sobre a crise climática.

 

Mas, afinal, o que é o Custo Social do Carbono?

Diferente de um imposto ou taxa sobre o carbono, o Custo Social do Carbono é uma quantificação financeira do impacto de se emitir gases de efeito estufa na atmosfera. Este custo incorpora consequências como perdas na agricultura e impactos de eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes com o aquecimento global.

O CSC é um parâmetro que auxilia na tomada de decisões do governo federal americano. Junto com o projeto de construção de uma nova ferrovia, por exemplo, também é apresentado o Custo Social do Carbono relativo às emissões associadas à implementação daquele projeto. Quanto maior o valor, maiores as chances do projeto ser considerado inviável para o governo.

Como consequência, projetos e tecnologias de alta emissão, como por exemplo aqueles que dependem de combustíveis fósseis, tornam-se menos atraentes, impactando todo o mercado em um ciclo virtuoso.

O parâmetro ainda carece de progressos. Muitos especialistas questionam o fato do CSC não incorporar em seus critérios os efeitos das mudanças climáticas sobre a desigualdade social e a redução das florestas tropicais.

 

E por que o Custo Social do Carbono é tão importante?

Quando o governo americano atribui um valor cada vez mais alto às emissões de carbono, isso significa que está enviando um claro sinal para o mercado de que as políticas ambientais e macroeconômicas estão alinhadas com a urgência climática e com os objetivos do Acordo de Paris.

A medida também se une as demais de precificação de carbono, como o sistema cap and trade e com taxação de impostos sobre as emissões. Todas essas, assim como o CSC acabam por internalizar o custo das mudanças climáticas na economia, além de impactar de forma especial os setores privados mais poluentes, como a aviação civil e a indústria. De fato, esses mecanismos já estão presentes ou em consideração em 61 jurisdições, responsáveis por 22% das emissões globais.

 

E o Brasil?

O Brasil ainda não possui um sistema de precificação de carbono, mas as perspectivas para regulação do tema são positivas. O Governo Federal vem conduzindo um trabalho que deve levar a criação de um instrumento de mercado que precifique as emissões de GEE de determinados setores.

Além disso, o setor privado, organizados pelo CEBDS, vem se posicionando de forma favorável a mecanismos de precificação de carbono que fomentem uma transição para a economia de baixo carbono, de forma a favorecer a competitividade das empresas brasileiras.

 

 

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mercado voluntário de carbono

Por que o mercado voluntário de carbono valorizou e o que o Brasil tem a ganhar com isso.

Por que o mercado voluntário de carbono valorizou e o que o Brasil tem a ganhar com isso

Pode parecer até contraditório, mas a verdade é que enquanto a crise pandêmica enfraqueceu economias ao redor do mundo, ela acabou por valorizar um outro mercado, o mercado voluntário de carbono, com reflexos positivos inclusive no Brasil. 

Isso aconteceu em grande parte porque a pandemia evidenciou a estreita ligação existente entre ambiente e economias, não obstante o mercado financeiro já estivesse pressionando as empresas a encarar as mudanças climáticas como riscos sistêmicos aos negócios, com capacidade de impactar recursos, receitas e mercado consumidor.  

De fato, por dois anos consecutivos, Larry Fink, CEO da Black Rock, uma das maiores gestoras de fundos de investimento do mundo, enviou sua tradicional carta ao mercado, no início de 2020 e no início deste ano, alertando as lideranças corporativas sobre a certeira desvalorização de empresas sem comprometimento com as mudanças climáticas.

“A pandemia materializou aqueles riscos ambientais que poucos prestavam atenção antes e colocou a mudança do clima como o próximo grande risco. E o setor financeiro teve um papel importante, com mais ações de responsabilidade sendo exigidas tanto por bancos quanto por fundos de investimento do mercado financeiro”, destaca Thiago Othero, coordenador técnico do Instituto Ekos Brasil e especialista em gestão de carbono.

Essa mudança de percepção levou a uma verdadeira corrida por parte das organizações privadas por práticas denominadas ESG (da sigla Ambiental, Social e Governança, em inglês), impulsionando a eliminação e neutralização das suas emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) como parte da estratégia de valorização de mercado. A compensação de emissões a partir da compra de créditos de carbono foi um dos mecanismos escolhidos em larga escala por essas organizações, por sua eficiência, resultado em curto prazo e cobenefícios socioambientais.

Tal corrida gerou uma grande demanda pelos créditos disponíveis, o que ocasionou a um aumento de preço bastante significativo no último período.

De acordo com o relatório State of Voluntary Carbon Markets 2020, o preço médio dos créditos associados à iniciativas Nature Based-Solutions e Natural Climate Solutions, por exemplo, tiveram um aumento de 30%. Além disso, o valor de mercado de créditos gerados por iniciativas de Uso do Solo, Agricultura e Floresta, como é o caso de projetos REDD, foi duas vezes maior do que aqueles gerados por iniciativas de Energia Renovável. 

O que temos a ganhar?

Primeiro é preciso compreender que os créditos de carbono são gerados a partir de projetos ou iniciativas que comprovaram e certificaram sua redução de emissões de GEE. Em geral, trata-se de projetos de geração de energia renovável, substituição de combustível fóssil, manutenção de áreas de floresta em contextos de desmatamento, dentre outros. Ao vender esses créditos de carbono, tais iniciativas são recompensadas com recursos dos compradores, sendo esses recursos reinvestidos na comunidade e na economia local.

Por isso, levando em consideração de que o Brasil é, sem dúvidas, um dos países com maior potencial para o desenvolvimento de tais projetos, por sua rica biodiversidade, áreas conservadas, potencial para energia renovável, para citar apenas alguns, a valorização do mercado de carbono é uma porta larga para a entrada de investimento estrangeiro e, até mesmo nacional, aplicados no fortalecimento de economias locais, conservação ambiental e iniciativas produtivas sustentáveis.

O Programa Compromisso com o Clima contempla uma gama desses projetos geradores de créditos de carbono. Um exemplo é a Cerâmica CGM no nordeste do Brasil que substituiu a lenha nativa do Cerrado em seus fornos por biomassa renovável. A redução das emissões levou à geração de créditos de carbono no mercado voluntário. Os recursos obtidos com a venda são reinvestidos na comunidade em ações educativas, esportivas e ambientais, além de inclusivas, com a contratação de mulheres e deficientes. Outro exemplo é o projeto de REDD+ Manoa, desenvolvido pela Biofílica em parceria com o Grupo Triângulo. Este projeto conserva uma área de mais de 74 mil hectares no município de Cujubim, estado de Rondônia. A área, além de abrigar uma rica biodiversidade, tem papel de corredor ecológico, interligando unidades de conservação próximas.  

Ao aderir ao Compromisso com o Clima a sua empresa pode compensar emissões com projetos como esses de forma simples, segura e eficiente.

 


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água subterrânea

O uso de água subterrânea e a crise hídrica na Região Metropolitana de São Paulo

O Uso de Água Subterrânea e a Crise Hídrica na Região Metropolitana de São Paulo

Por Sander Eskes e Reginaldo Bertolo

A estiagem ocorrida no estado de São Paulo entre os anos de 2014 e 2015, que provocou historicamente a pior crise hídrica conhecida, pode ser interpretada como efeito das mudanças climáticas em curso. Segundo pesquisas, tais crises hídricas podem se repetir no futuro, dado que a expectativa é de que haja um aumento na frequência, duração e intensidade de eventos climáticos extremos. De acordo com os estudos apresentados nos Planos de Bacia Hidrográfica, as perspectivas futuras para a melhoria da segurança hídrica na bacia do Alto Tietê envolvem a adoção, de forma combinada, de várias medidas:

  • A diminuição das perdas de água tratada da rede pública;
  • A diminuição do consumo (ou o aumento da eficiência do uso da água por parte da população);
  • O aumento da taxa de tratamento de esgoto, seguida da utilização desta água tratada para fins não potáveis;
  • O aumento da captação e uso da água da chuva; e
  • O uso da água subterrânea, que já é historicamente bastante intenso na RMSP, e que garante boa parte da segurança hídrica atualmente.

Estudos do CEPAS|USP, e outros centros de pesquisa, apontam para um uso bastante significativo dos aquíferos da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). São aproximadamente 14 mil poços em operação. A água é utilizada praticamente pela iniciativa privada especialmente em indústrias, condomínios e clubes, sendo poucos os poços destinados para fins de abastecimento público. Em geral, a água subterrânea desses poços apresentam-se com boa qualidade, inclusive para fins potáveis. As vazões individuais dos poços são relativamente baixas, de cerca de 8 m3/h, mas a somatória das vazões individuais representam um valor significativo, estimado em cerca de 10 m3/s, representando 15% da demanda por água em toda a RMSP.

Avalia-se que a água subterrânea representa um recurso imprescindível, pois, na sua falta, o próprio sistema público não conseguiria atender a esta vazão caso os usuários dos poços resolvessem utilizar-se da água fornecida pela concessionária. Porém, há problemas na gestão deste recurso hídrico. Estima-se que cerca de dois terços dos poços sejam irregulares. Outros problemas são a superexplotação e poluição da água subterrânea em alguns setores da região urbana. Neste mapa da RMSP, as áreas em amarelo representam a mancha urbana e os pontos representam um poço outorgado. As áreas de maior adensamento podem representar regiões onde a extração da água é maior que a recarga dos aquíferos, levando-os localmente à exaustão. As áreas em cor laranja representam zonas predominantemente industriais, locais esses também de intenso uso da água por poços. E são essas as áreas onde há uma maior probabilidade de haver áreas contaminadas que comprometem a qualidade da água dos aquíferos.

aquífero

 

Um exemplo é a região do Jurubatuba (em vermelho no mapa), antiga região industrial densamente urbanizada na Zona Sul da Capital, e que apresenta um histórico de contaminação da água subterrânea em diversas profundidades, inclusive a que é extraída pelos poços profundos. A origem da contaminação, especialmente por solventes organoclorados, se deve à ação pretérita de vários atores.

A determinação dos responsáveis pela contaminação do aquífero gera uma situação de insegurança jurídica para os responsáveis legais das áreas contaminadas conhecidas no local. Algumas perguntas que indicam a dificuldade no gerenciamento desta demanda são: Quais seriam os limites de responsabilidade de cada ator? Como diferenciar a identidade das plumas de contaminação em profundidade? Todas as áreas fontes e todos os responsáveis pela contaminação foram identificados?

Um fato, entretanto, é que há usuários de poços na região e arredores, cuja água não passa por monitoramento sistemático de vários compostos químicos poluentes, o que pode levar a saúde do usuário a uma situação de exposição a riscos.

Avalia-se, portanto, a necessidade de se realizar um projeto com as seguintes finalidades:

  • Conhecer melhor a dinâmica dos aquíferos;
  • Recuperar gradativamente a qualidade regional da água subterrânea;
  • Aumentar a disponibilidade de água subterrânea na região; e
  • Diminuir o risco de exposição dos usuários à água subterrânea contaminada.

O Instituto Ekos Brasil está propondo a realização do Programa Regional de Manejo da Qualidade da Água Subterrânea em Jurubatuba, SP, para a otimização da remediação das áreas contaminadas, juntamente com o manejo sustentável do aquífero profundo nesta área de Jurubatuba. Esta proposta está progredindo junto às autoridades competentes do estado e do município do São Paulo.

Prevê-se que este Programa será financiado temporariamente por meio de um fundo privado regional, com mecanismos que permitam a aplicação de contribuições financeiras das partes interessadas por período limitado, oferecendo segurança jurídica para os atuais responsáveis legais por áreas contaminadas. Como benefícios do Programa, avalia-se que a água subterrânea dos aquíferos terá a sua qualidade sendo gradativamente recuperada, ao mesmo tempo em que é utilizada para diversos usos, e com os seus usuários protegidos das situações de riscos.

Várias regiões similares à do Jurubatuba ocorrem na RMSP, mas com pouco conhecimento ainda disponível. Este projeto na região do Jurubatuba pode ser considerado um piloto, com objeto e tempo limitados. A partir de seu êxito, o mesmo conceito poderá ser aplicado em outras partes da RMSP e no país. Assim, avalia-se que este projeto pode contribuir para oferecer a proteção, a segurança e a reutilização das águas subterrâneas urbanas como uma reserva estratégica ou emergencial, o que certamente concorrerá para a atenuação de outras possíveis crises hídricas futuras. No conjunto, tais ações de gestão ambiental representam atributos de uma sociedade atenta à utilização e proteção de seus recursos naturais.

 

*Sander Eskes Ekos Brasil |

*Reginaldo Bertolo – CEPAS|USP – Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas

 

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Johanna Döbereiner

[Especial Dia Mundial da Agricultura] Johanna Döbereiner: a mulher que transformou a agricultura brasileira. 

Especial Dia Mundial da Agricultura Johanna Döbereiner: a mulher que transformou a agricultura brasileira. 

A paixão pela ciência era tamanha que mesmo em seus últimos anos de vida, já acometida pelo Alzheimer, pedia à família que a levasse até o laboratório, onde se sentava à mesa, conversava e olhava para o céu. Johanna Döbereiner viveu 75 anos e podemos dizer que se dedicou à pesquisa em todos eles.

Indicada ao prêmio Nobel de Química em 1997, um feito para poucos, Johanna é reconhecida nacional e internacionalmente por suas descobertas que revolucionaram a agricultura.

Ao escolher a direção contrária na qual caminhava a pesquisa nos Estados Unidos, a cientista tcheco-brasileira estudou o uso de microorganismos na fixação de nitrogênio em culturas tropicais como a soja, técnica que ficou conhecida como Fixação Biológica de Nitrogênio.

“Tudo começou quando ela percebeu que havia gramas mais verdes que outras. Foi analisar e descobriu que essas mais verdes tinham bactérias fixadoras de nitrogênio vivendo em simbiose em suas raízes. Basicamente, ela descobriu que essas bactérias fixam nitrogênio e isso elimina o uso do adubo químico, aquele que vem do petróleo e que na época era importado do exterior”, conta Christian Döbereiner, filho de Johanna e  Conselheiro do Ekos Brasil, em entrevista exclusiva para o nosso site.

A descoberta alavancou a produtividade brasileira na agricultura e permitiu que o país eliminasse o uso de adubos químicos, levando à uma economia anual de mais de US$ 2 bilhões e à uma técnica que não gera passivos ambientais. Até hoje a soja e outras culturas são plantadas com essa bactéria e dispensa o uso de adubos químicos.

Resistente e persistente

O sucesso de Johanna, na visão de seu filho, foi fruto de muito trabalho e muita persistência.

Nascida em Aussig, na antiga Tchecoslováquia, sua família foi perseguida durante a Segunda Guerra Mundial, tendo que deixar o país com a roupa do corpo. Sua mãe, Margarethe Kubelka, morreu em um campo de concentração, o pai e o irmão saíram do país e Johanna viveu com os avós por alguns anos na Alemanha. Foi lá que trabalhou como operária rural, em contato direto com a terra e com a vida no campo.

Em 1950, já casada com Jürgen Döbereiner e formada em Agronomia, decidiu migrar para o Brasil, onde o pai já se encontrava. “O pai dela, que era químico e estava no Brasil, disse que a pior coisa que poderia acontecer com ela no Brasil era um coco cair na sua cabeça”, lembra Christian, bem humorado.

A cientista amou esse país, escolheu se naturalizar brasileira e foi aqui que desenvolveu toda a sua carreira, negando muitos convites para exercer sua profissão no exterior.

Começou a trabalhar no Laboratório de Microbiologia de Solos do Ministério da Agricultura, à época, depois foi pesquisadora assistente do CNPq e pesquisadora conferencista. Foi ainda vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências e liderou a pesquisa da Embrapa Agrobiologia. Johanna foi autora de mais de 500 papers e recebeu dezenas de premiações, incluindo a já mencionada nomeação ao Prêmio Nobel de Química.

[su_quote]“O que a ajudou a vencer foi a persistência. Esses experimentos duravam 24h. Trabalhou demais. Além disso, não se preocupava consigo mesma. Tinha preocupação com a pesquisa e em desenvolver pessoas”, contou Christian.[/su_quote]

Além da persistência, a história de Johanna demonstra que ela foi também muito resistente. Após fugir da guerra em um continente devastado, foi cientista, mãe e mulher em uma época pouco favorável ao seu gênero. Precisou lutar por seu espaço, correr atrás de recursos para suas pesquisas, mostrar que era competente. “Minha mãe foi um ícone no tempo dela. Inspirou a família, os colegas, inspirou também a gente (os filhos). Ela e meu pai nos ensinaram a fazer o que gostamos, a fazer a coisa certa”, completou Christian.

Johanna viveu boa parte da sua vida em Seropédica, no interior do Rio de Janeiro. Não obstante sua importância nas ciências, permaneceu com uma vida simples, sempre ligada ao campo e ao lado do marido, dos filhos e netos. Faleceu aos 75 anos, em outubro de 2000.

O Instituto Ekos Brasil reconhece e homenageia essa grande mulher.

Leia também: “A ciência é sim uma atividade para as mulheres”

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mudanças climáticas

“Saímos da seção de meio ambiente para a de economia. E isso mudou a importância do debate.”

“Saímos da seção de meio ambiente para a de economia. E isso mudou a importância do debate.”

Importante plataforma dedicada a traduzir a ciência climática e tentar elevar o debate sobre o tema, o ClimaInfo é, sem dúvidas, uma iniciativa de importância nacional para a formação de uma consciência sobre mudanças climáticas, seja para a sociedade civil, seja para as instituições públicas ou privadas.

Délcio Rodrigues é o diretor executivo do Instituto ClimaInfo e foi nosso convidado para uma entrevista exclusiva sobre o Dia Nacional de Conscientização sobre Mudanças Climáticas.

Confira na íntegra.

 

EKOS BRASIL – O ClimaInfo vem atuando há bastante tempo para promover um debate qualificado em relação a temas relacionados às mudanças climáticas, energia, uso da terra e políticas públicas. Você acredita que, de modo geral, o debate sobre esses temas tem se tornado mais frequente e mais qualificado? 

Délcio Rodrigues – O debate teve uma evolução, embora, a coisa complique quando nos referimos a um debate qualificado. 

Um dos motores dessa discussão mais presente é o próprio negacionismo climático. Todos nos lembramos sobre o que foi feito contra o INPE nesta gestão, com o questionamento dos dados sobre emissões e desmatamento. Acontece que esse negacionismo também empurrou a imprensa a discutir esse negacionismo. Por isso, tivemos um outro nível de debate, talvez não de qualidade, mas de exposição do debate.  

Ano passado, na questão específica da Amazônia por exemplo, o mainstream da economia entrou no debate. Vimos ex-ministros e presidentes do Banco Central propondo uma nova política. Vimos investidores internacionais pressionando o Brasil. Vimos os CEOs do Itaú, do Santander e Bradesco na mesma direção. E tivemos uma elevação da pauta ambiente/clima: saímos da seção de meio ambiente para a de economia. E isso mudou a importância do debate. 

Hoje você vê um dos pré-candidatos falando da agenda climática como decisiva para (a eleição) de 2022. Tem mais informação, tem relevância do desmatamento da Amazônia para o comércio internacional brasileiro e tem também coisas acontecendo no plano do desenvolvimento tecnológico. 

EKOS BRASIL – Uma pesquisa recente mostrou que o brasileiro apresenta um bom grau de preocupação em relação às mudanças climáticas. Inclusive, mais de 70%, indicaram que as mudanças climáticas podem causar muitos prejuízos para suas famílias. Você acha que o brasileiro tem demonstrado preocupação e atitudes efetivas em relação ao tema no seu dia a dia?

A informação que temos dessa pesquisa diz que as pessoas respondem afirmativamente essas questões. O negacionismo do clima é baixo aqui, menor que nos EUA, por exemplo. 

O que isso significa na prática, não sei. Temos um país muito pobre e que não pode se dar o luxo em optar por um produto mais caro, mas ambientalmente sustentável. Uma decisão difícil pra quem come “arroz com macarrão”. 

No dia a dia, na decisão de compra ou mesmo no voto essa percepção ainda não se materializa em ações muito concretas. As pessoas não votam em um vereador porque  ele faz um discurso climático, ou muito poucos votam.  

Essas decisões também vão depender de uma melhor distribuição de renda. Vejo a desigualdade como uma das dificuldades de ter envolvimento com essas questões. 

EKOS BRASIL – O que é necessário para que tomadores de decisão, públicos e privados, atuem de forma mais efetiva sobre os desafios que as mudanças climáticas trazem para o Brasil nos próximos anos?

No geral, empresas tomam decisões em função de lucro, pressão do mercado consumidor e pressões dos acionistas. 

Gente que investe pensando no longo prazo, pode estar sim preocupada com os riscos que essas empresas estão expostas, não só pela questão climática, mas pelas regras, normas e leis de um quadro geral que está se avizinhando.

E é aí que eu acho que o acordo de Paris seja relevante. Por mais que tenha se mostrado fraco, há 197 países do mundo assinando aquilo. E embora esses objetivos não sejam vinculantes, eles são medidos, reportados, avaliados, e isso gera um quadro novo e complexo. 

Alguns setores da economia global são profundamente influenciados pelo Acordo de Paris. Quem? A indústria de energia, por exemplo. Não chegamos no momento de turning point, mas já temos taxas maiores de crescimento no investimento em renováveis versus fóssil. Há uma curva que está se descolando. 

Outro setor é o automobilístico. Todas as metas do setor são de eletrificação e a briga está tão grande que as empresas estão quebrando. É um sinal muito forte de que tem que mudar. 

E vemos pressão de acionistas, consumidores e da própria regulação para mudar. 

EKOS BRASIL – Qual o fato mais positivo que você observou nos últimos meses em relação ao combate às mudanças climáticas? 

Sou otimista quando vejo tudo o que eu falei: Acordo de Paris,Pari, reações ao negacionismo, mudanças no setor de energia e automobilístico.  

O meu pessimismo é sobre a questão do tempo.

Vai dar tempo? 

Vai dar tempo de mudar o curso desse gigantesco transatlântico que é a economia global na direção da mudança dos dois graus do clima? Não vai dar. 

Há uma inércia. A economia precisa virar o leme com vários anos de antecedência.

Por isso, acho que vamos passar dos dois graus e acredito que muitos países vão sofrer demais. Teremos consequências muito sérias e tenho dúvidas de em que nível isso vai afetar a segurança global. Vejo um tensionamento político por conta de migrações, perda de território e crises de segurança alimentar. 

Torço para que os movimentos positivos segurem pelo menos perto de dois graus. Aí só o futuro pra dizer mesmo. 

 

 

 

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