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Floresta de Bolso. Foto: Marina Caetano.

Justiça climática se cultiva em comunidade

Sendo paulistana, a ecoansiedade me aflige diariamente e talvez você sinta o mesmo. Os desastres climáticos estão cada vez mais previsíveis e os impactos mais universais. Porém, podemos sentí-los de formas e intensidades diferentes.

Falemos da minha cidade natal. Desconsiderando as zonas periféricas permeadas por grandes reservas e áreas de agricultura familiar, como Marsilac e Jaraguá, a central é mais densamente arborizada nos bairros ricos. Em 2021, por exemplo, o distrito do Morumbi, na zona sul, teve, em média, 15% de cobertura verde por setor censitário, enquanto o distrito da Penha, zona leste, registrou em média 6%. Considerando a densidade demográfica, a conta piora: enquanto Morumbi acumulou 3.797 habitantes por km² em 2022, a Penha chegou a 11.619 habitantes por km² no mesmo ano.

As contribuições da natureza, como sombreamento, regulação térmica, áreas de lazer e convívio comunitário e disponibilidade hídrica são muito mais diluídas na Penha e em outros distritos de paisagem semelhante. Enquanto isso, os eventos extremos de calor, frio e chuva se intensificam justamente nesses territórios.

A concentração de riquezas e de áreas verdes está diretamente associada ao racismo ambiental. Esse termo escancara o mau ordenamento urbano como política excludente e racista, que pretere ações de adaptação e mitigação climática em zonas pobres e as desconecta de outras políticas inclusivas, como as habitacionais e de mobilidade. Vivemos uma “dupla-fratura da modernidade”, como sugere o pensador Malcom Ferdinand. Há, na sociedade, uma fratura ambiental que separa o ser humano da natureza e uma fratura colonial que separa os humanos e os espaços geográficos da Terra entre colonizadores e colonizados, brancos e não-brancos.

Porém, as desigualdades ambientais não resultam apenas da exposição desigual a riscos e benefícios, mas também de processos institucionais que moldam quem participa e quem tem acesso ao poder decisório. Por isso, mesmo nos desenhos de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) para o enfrentamento às mudanças do clima, a justiça ambiental deve prevalecer como critério fundamental, e não apenas como consequência almejada.

Dado o (enorme) problema estrutural, como podemos tornar as cidades mais resilientes às mudanças do clima, sem abandonar as dimensões social e racial do debate?

Essa é uma questão complexa de se resolver, mas talvez o primeiro passo seja reconhecer que somos parte dos biomas que habitamos. Quando penso em caminhos técnicos de SbN que ajudem a alcançar tal senso de pertencimento, vejo que a restauração ecológica merece destaque. Isso porque ela demanda engajamento coletivo para seu próprio sucesso, desde a implementação até o monitoramento.

 Para restaurar uma zona urbana, podemos, por exemplo, investir no método Miyawaki. A proposta é adensar ao máximo áreas vazias com espécies nativas, permitindo que o espaço se auto sustente mais rápido por meio das interações ecológicas estimuladas. A taxa de sobrevivência dos indivíduos plantados pelo método pode chegar a 79%, contra 47% nos plantios convencionais.

E quando aplicamos essa técnica em espaços marginalizados, aliada ao envolvimento comunitário? Criamos movimentos revolucionários.

Ao incluir a população local como parte desse processo, diversas oportunidades sociais são geradas para além da sensibilização ambiental, como geração de renda local, resgate de saberes tradicionais, segurança hídrica e alimentar e revitalização de áreas abandonadas.

Floresta de Bolso. Foto: Marina Caetano.
Floresta de Bolso. Foto: Marina Caetano.

Dois exemplos na Grande São Paulo, que têm como premissa o método Miyawaki e a participação comunitária, são marcantes para mim. As Florestas de Bolso, do botânico Ricardo Cardin, colocam grande parte da “esteira” nas mãos da própria comunidade — a abertura dos sulcos, a escolha das espécies, o plantio e a irrigação. Esse é também o caso das mini-florestas da ONG Formigas de Embaúba, que são plantadas em CEUs (Centros Educacionais Unificados) e contribuem para uma ecologização pedagógica do ensino público.

Iniciativas como essas mostram que os cidadãos são capazes de direcionar políticas públicas em seus territórios, por vezes historicamente invisibilizados, através de sua própria mobilização. As redes de cooperação são tão importantes para a resiliência social e ecológica quanto as infraestruturas.

Agora, espero que você concorde comigo: não há preservação ambiental nem resiliência climática sem justiça social, e não há justiça social sem reparação e protagonismo popular.

Referências:

BUTFOY, Louise. Testing the Miyawaki Method in Our Urban Greenspaces. Natural England Blog, [S. l.], 19 set. 2024. Disponível em: https://naturalengland.blog.gov.uk/2024/09/19/testing-the-miyawaki-method-in-our-urban-greenspaces/. Acesso em: Jul. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Panorama Censo 2022: São Paulo (SP). Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/sao-paulo/pesquisa/10101/0. Acesso em: 01 jul. 2026.

PLATAFORMA URBVERDE. In: UrbVerde: dados gratuitos para cidades mais verdes e inclusivas. São Carlos, 2023. Disponível em: https://urbverde.iau.usp.br/. Acesso em: 1 jul. 2026.

SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Mapeamento digital da cobertura vegetal do município de São Paulo: relatório final / Coordenação: Vivian Prado de Oliveira. São Paulo: SVMA, 2020. 112 p. ISBN 978-65-87274-01-0. Disponível em: Relatório do mapeamento da Cobertura Vegetal de São Paulo. Acesso em: 1 jul. 2026. [1]

O papel das áreas protegidas no enfrentamento da crise climática

Em 25 anos de atuação vimos na prática que crise climática e crise de biodiversidade precisam ser enfrentadas juntas. É o que diz também uma nota técnica divulgada pela UNFCC em parceria com a IUCN e a WCPA, em 2023. São faces da mesma urgência e, além de financiamentos climáticos e ambição política, dependem da manutenção e da ampliação das áreas protegidas existentes ao redor do mundo. 

Atualmente, apenas cerca de 17% das terras e 8% dos oceanos estão sob alguma forma de proteção. Há um esforço conjunto, expresso pela adoção do Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, para que a proteção atinja metas de 30% até 2030. Porém, fechar essa lacuna exigirá um esforço sem precedentes de governos, comunidades e organizações da sociedade civil.

O Brasil, com sua megadiversidade e extensão territorial, tem um papel central nessa agenda. Alguns dados recentes são positivos: entre 2022 e 2025, o desmatamento na Amazônia caiu 50%, evitando a emissão de 733,9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Em 2025, o INPE registrou quedas de 11,08% no desmatamento na Amazônia e 11,49% no Cerrado em relação ao período anterior, a terceira menor taxa histórica desde 1988. 

Essa correlação nos mostra que a proteção da natureza é uma das estratégias mais eficazes disponíveis para mitigar as mudanças climáticas e garantir a resiliência dos ecossistemas naturais. 

Áreas Protegidas como reservatórios de carbono

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Dados da Nature (2023) estimam um estoque total de carbono acima do solo em áreas protegidas de 61,43 Gt (± 0,31), equivalente a 26% de todo o carbono lenhoso terrestre mapeado. E, ainda, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em seu 6º Relatório de Avaliação, concluiu que a proteção de ecossistemas naturais oferece o maior potencial de mitigação dentre todas as ações no setor de uso da terra, com altas sinergias para a conservação da biodiversidade.

Ou seja, ecossistemas naturais íntegros são imensos reservatórios de carbono. A biodiversidade conservada nesses ambientes é um mecanismo ativo da regulação climática. Ecossistemas ricos em espécies são mais resilientes a eventos extremos, mais eficientes na ciclagem de nutrientes e mais capazes de se adaptar a perturbações. 

Já a  perda de biodiversidade, por outro lado, enfraquece a capacidade dos ecossistemas de absorver carbono e de amortecer os impactos do clima. Um planeta mais quente, com habitats fragmentados, acelera a extinção de espécies e cria um ciclo vicioso entre colapso ecológico e desestabilização climática.

A importância das parcerias com a Sociedade Civil

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A criação de áreas protegidas é apenas um primeiro passo. Proteger, de fato, exige gestão continuada, monitoramento, presença territorial e envolvimento das comunidades locais. É nesse aspecto que organizações da sociedade civil (OSCs) desempenham um papel importante.

No Vale do Peruaçu, por exemplo, atuamos em Acordo de Cooperação com o ICMBio para apoiar a gestão e a manutenção do PARNA e da APA Cavernas do Peruaçu. Ser ponte  entre o poder público, comunidades, institutos de pesquisa e setor privado tem demonstrado resultados efetivos como melhorias na infraestrutura, monitoramento ambiental, programas de prevenção de incêndios, governança participativa, conhecimento científico aplicado, restauração florestal, e mais. 

Todos esses exemplos auxiliam na perpetuação e ampliação das áreas protegidas e, como vimos, contribui com uma das estratégias mais eficazes para a mitigação das mudanças climáticas. 

*Texto elaborado com auxílio de IA. Revisão: Cibele Lana 

Fontes:

Um olhar atento ao ‘Agro Pop’

Você já deve ter visto na TV aquelas imagens impressionantes de máquinas gigantes, tecnologia de ponta e o famoso slogan que virou quase um mantra nacional: ‘o agro é pop’. Essa propaganda constante criou no imaginário brasileiro uma espécie de verdade absoluta de que o agronegócio é tudo e que é um benefício universal.

Mas será que é bem assim?

O foco no marketing pode esconder um ‘Agro’ com muitas camadas e contradições, que precisamos analisar com mais atenção para entender o futuro (e o presente) do nosso país.

Primeiro, é importante saber que o ‘agro’ de hoje vai muito além da porteira da fazenda. O agronegócio moderno é um sistema complexo que une agricultura, indústria e, o mais importante, o mercado financeiro. O que muita gente não imagina, mas é crucial para entender o cenário, é que esse modelo é dominado por grandes empresas transnacionais que negociam commodities em várias áreas da economia.

A ‘financeirização’ do setor significa que o agronegócio deixou de ser apenas a produção de alimentos e passou a ser um braço do capital financeiro. Nesse esquema, grandes corporações controlam todas as etapas: desde as sementes, insumos e máquinas, até o armazenamento, a venda e a distribuição. Ao transformar alimentos e matérias-primas em produtos padronizados que podem ser negociados em mercados nacionais e internacionais, o setor é guiado não só pela produção, mas muito mais pela busca por valorização financeira.

Nesse jogo, o alimento é visto unicamente como uma commodity. Isso quer dizer que o que é produzido atende aos interesses do mercado, ou seja, das grandes empresas transnacionais que ditam os rumos da produção e distribuição global. Não é à toa que as principais culturas produzidas no Brasil são soja, açúcar (etanol), milho, café, carne bovina. Arroz e feijão, que são a base da mesa do brasileiro, ficam de fora.

Essa transformação da agricultura em um negócio financeiro acontece de várias formas: empresas do agronegócio abrindo capital na Bolsa de Valores, a criação de instrumentos financeiros para o setor (como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio – CRAs e os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais – Fiagros), e o surgimento de imobiliárias rurais.

É fundamental destacar que, enquanto o agronegócio brasileiro bate recordes de exportação, o país ainda convive com o paradoxo da fome. Mesmo com uma redução na insegurança alimentar grave (de 4,1% para 3,2% entre 2023 e 2024), cerca de 18,9 milhões de famílias ainda sofrem com algum nível de insegurança alimentar, segundo dados oficiais. Isso acontece porque o modelo atual foca na produção de commodities para exportação (como ração animal e biocombustíveis), e não em ‘comida de verdade’ para a população. O resultado é um ‘deserto verde’ de monoculturas que não alimenta quem vive aqui.

Mas afinal, o que caracteriza o modelo do Agronegócio?

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Do ponto de vista da produção e tecnologia, o agronegócio se caracteriza pelo monocultivo em larga escala e pelo uso intenso do ‘pacote tecnológico’ da chamada Revolução Verde: sementes transgênicas, máquinas pesadas e muitos agrotóxicos.

Outra marca importante do agronegócio é a concentração de terras: conforme dados do Censo Agropecuário (2017), 0,3% dos maiores imóveis rurais ocupam 25% de toda a terra agrícola. Outras análises apontam que cerca de 1% dos estabelecimentos ocupavam metade da área produtiva do país, enquanto os 77% menores imóveis ocupam outros 25% do território.

O agronegócio também está ligado à mecanização intensificada, que acaba gerando menos empregos e aumentando os conflitos por terra nas fronteiras agrícolas.

Por outro lado, a agricultura familiar é a maior empregadora no campo, responsável por 67% da mão de obra rural no Brasil. Ela se diferencia do agronegócio por focar na diversidade de culturas. A agricultura familiar produz a maior parte dos alimentos básicos para o consumo interno, como mandioca (80%), feijão, arroz e hortaliças.

Enquanto o agronegócio pode criar ‘desertos verdes’, a agricultura familiar mantém o campo vivo e prioriza a soberania alimentar e o sustento das famílias e comunidades locais. É uma estratégia de vida e economia para as famílias rurais, onde o trabalho é feito principalmente pelos próprios membros da família. Além de ser vista como essencial para proteger o meio ambiente e as fontes de água.

A Terra como ativo financeiro: especulação e acumulação via Espoliação

O lucro de um modelo de negócio no qual a terra é vista como ativo financeiro muitas vezes vem de um processo no qual o geógrafo David Harvey chama de “acumulação via espoliação”. Isso significa que a riqueza é gerada não pela produção sustentável, mas pela exploração intensa e pela pilhagem de recursos naturais (água, solo, florestas) dessa terra. A corrida global por terras, conhecida como land grabbing, que se intensificou depois da crise financeira de 2008, é um exemplo claro disso. O Brasil é um alvo preferencial por ter muitas terras e preços relativamente baixos em suas fronteiras agrícolas, destaque para áreas na Amazônia e no Cerrado, como o MATOPIBA, por exemplo.

Nesse modelo de agronegócio, a terra é tratada como uma reserva de valor. Isso quer dizer que grandes empresas transnacionais e fundos de investimento compram vastas áreas não só para plantar, mas para imobilizar capital e garantir segurança financeira diante da escassez global de terras cultiváveis.

Claramente esse modelo entra em choque com as comunidades locais, pois exige a expulsão de comunidades camponesas, indígenas e quilombolas de suas terras tradicionais para dar lugar a grandes monoculturas.

Um pacto de poder bancado pelo Estado

Essa financeirização da terra não aconteceria sem uma forte parceria entre o grande capital do agronegócio, o sistema de crédito e o próprio Estado.

O Estado brasileiro é o principal fiador desse modelo, injetando bilhões de reais em recursos públicos (como o Plano Safra) e perdoando dívidas e crimes ambientais da agricultura empresarial. No Plano Safra 2024/2025, cerca de 84% dos recursos para crédito rural foram para o agronegócio.

Através de leis e da atuação de parlamentares, são criadas regras que facilitam a regularização de terras griladas e diminuem a proteção de territórios indígenas e ambientais, tudo para favorecer o mercado de terras.

A Agricultura Familiar, que muitas vezes é deixada de fora das políticas públicas ou recebe muito menos recursos (apenas cerca de 16% do Plano Safra via PRONAF). As demandas da agricultura familiar são frequentemente barradas pelos interesses do agronegócio no Legislativo, especialmente quando o assunto é reforma agrária e demarcação de terras.

É importante deixar claro que o ‘sucesso’ do agronegócio brasileiro não é um processo ‘natural’ ou de ‘aptidão’, mas sim de um robusto projeto de uma antiga elite oligárquica rural (sim, lembra deles? Do século XVI, XVII), aliado ao Estado e ao mercado financeiro. 

Diante desse cenário,  qual modelo de campo e de país queremos construir?

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A verdadeira alternativa sustentável não virá de uma ‘maquiagem verde’ do agronegócio. A resposta deve passar, necessariamente, por fortalecer alternativas já existentes. A agroecologia e a agricultura familiar apontam caminhos mais equilibrados, que conciliam produção de alimentos, conservação ambiental e justiça social.

Essas abordagens são os caminhos que realmente garantem a soberania alimentar, preservam a biodiversidade e mantêm as comunidades vivas em seus territórios. Elas propõem um modelo de sociedade focado na vida, na saúde e no bem-estar de todos, e não apenas no lucro financeiro.

A ideia deste artigo foi jogar luz sobre as camadas menos “pop” do agronegócio. Mas esse é só um recorte. Há muitos outros pontos que merecem atenção: os impactos das monoculturas, o uso intensivo de agrotóxicos e seus efeitos sobre a biodiversidade, a pressão sobre os recursos hídricos, as mudanças no uso do solo, os impactos da pecuária e o avanço do desmatamento. É um tema cheio de desdobramentos e que certamente ainda rende muitos outros artigos por aqui.

Desconstruir a ideia simplificada do “Agro Pop” não significa negar a importância do setor agrícola, mas sim abrir espaço para uma visão mais crítica e, principalmente, mais propositiva.

Porque, no fim das contas, falar de agricultura é falar de futuro, de território e de vida!

Referências bibliográficas:

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE REFORMA AGRÁRIA (ABRA). Agronegócio e Realidade Agrária no Brasil. Edição Especial. São Paulo: ABRA, jul. 2013. 113 p.

BRASIL. Secretaria de Comunicação Social. Brasil volta ao menor patamar de fome da história. Brasília: SECOM, out. 2025. Disponível em: https://www.gov.br. Acesso em: 1 maio 2026.

BRASIL DE FATO. Governo lança Plano Safra para o agronegócio e a agricultura familiar nesta quarta-feira. 3 jul. 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br. Acesso em: 1 maio 2026.

BORSATTO, Ricardo Serra et al. Problemas agrários do litoral paranaense: abordagem histórica. Scientia Agraria, Curitiba, v. 8, n. 4, p. 421-429, 2007.

GRACIANO, Monyele Camargo et al. A força da Bancada do Boi: a Frente Parlamentar da Agropecuária na definição da política fundiária. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, v. 31, e015, p. 1-20, 2023. DOI: 10.1590/1678-98732331e015.

GUIMARÃES, Juca. Maior concentração de terras revelada pelo Censo Agropecuário incentiva desmatamento e conflitos. Repórter Brasil, 19 nov. 2019. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br. Acesso em: 1 de maio de 2026.

HEINRICH BÖLL STIFTUNG. O aumento da concentração de terras agravará a crise ambiental no país, alertam especialistas. Rio de Janeiro: Heinrich Böll Stiftung Brasil, 2021. Disponível em: https://br.boell.org. Acesso em: 1 de maio de 2026.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Agropecuário 2017: resultados definitivos. Rio de Janeiro: IBGE, 2019.

OGLIARI, Aline. Questão agrária e o poder hegemônico do agronegócio. In: SEMINÁRIO NACIONAL SERVIÇO SOCIAL, TRABALHO E POLÍTICA SOCIAL (SENASS), 5., 2024, Florianópolis. Anais […]. Florianópolis: UFSC, 2024.

PESSOA, Vanira Matos; RIGOTTO, Raquel Maria. Agronegócio: geração de desigualdades sociais, impactos no modo de vida e novas necessidades de saúde nos trabalhadores rurais. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 21, n. 3, p. 565-578, jul./set. 2012.

Ekos Brasil assume primeiro projeto de restauração do FINACLIMA-SP

O Assentamento Gov. André Franco Montoro, localizado em Marabá Paulista (Pontal do Paranapanema), é o primeiro território beneficiado pelo FINACLIMA-SP. Serão 110 hectares restaurados nas Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente na região, no bioma Mata Atlântica. 

Nossa proposta venceu o edital e já está em execução. A prioridade, agora, consiste em firmar e mapear parcerias locais para o fortalecimento da cadeia produtiva da restauração.

Além da restauração das áreas naturais, o projeto já iniciou com ampla participação da comunidade e lideranças locais. Os agentes de restauração serão contratados por meio da cooperativa da própria comunidade para atuar em diferentes fases de implementação e monitoramento, resultando em maior geração de renda no local e formação técnica e prática para os trabalhadores.

A primeira visita aconteceu em meados de abril, juntamente com o FUNBIO – Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, a Itesp –  Fundação Instituto de Teras, e a SEMIL – Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo.

Criado pelo Governo do Estado de São Paulo, o Finaclima é um mecanismo de financiamento climático que direciona investimentos privados a projetos ambientais e climáticos.

Promover a restauração ecológica no Pontal do Paranapanema, território marcado por um dos mais intensos históricos de grilagem e desmatamento do estado de São Paulo, será, sem dúvida, muito significativo para o Ekos Brasil!

Execução: Ekos Brasil

Gestão: Funbio

Coordenação: SEMIL

Financiamento: FinaClima

Parceiro: Itesp

Canga, água e comunidades: a tríplice da biodiversidade no Vale do Peixe Bravo

O Vale do Peixe Bravo, no norte de Minas Gerais, recebe esse nome em referência ao rio que nasce no lado leste da Cadeia do Espinhaço. A região abriga uma paisagem exuberante, ainda pouco alterada, e chama a atenção pela presença das cangas ferruginosas, que se estendem por cerca de 500 km². Essas características conferem ao território um valor inestimável para a conservação ambiental e cultural.

Desde 2023, o Instituto Ekos Brasil atua na região viabilizando a conservação do Vale do Peixe Bravo e, em 2025, conduzimos um amplo trabalho de campo com especialistas em arqueologia, geologia, fauna e flora, além de estudos fundiários e análises socioeconômicas e físicas. Esse esforço embasa a proposta de criação de uma Área de Proteção Ambiental e um Monumento Natural na região. Tal proposta já foi finalizada e está pronta para ser encaminhada aos órgãos competentes.

A singularidade das cangas

A criação de uma Unidade de Conservação é prioritária para a proteção das cangas, conhecidas pelos moradores locais como “mocororô”. Essas formações recobrem os ecossistemas ferruginosos da região e são compostas por uma matriz de granulometria fina, cujo arcabouço inclui hematita, goethita, itabirito e quartzo, conforme descrito no livro O Vale do Rio Peixe Bravo: Ilhas de Ferro no Sertão Mineiro, do Instituto Prístino.

O pesquisador Flávio Carmo explica que as cangas são como “chapas de ferro”, extremamente duras, compostas praticamente por óxidos de ferro, mas que abrigam uma das comunidades de plantas mais diversas e raras do Brasil.

“Mas por que as cangas do Peixe Bravo são ainda mais singulares do que as outras do Brasil? Porque, além de tudo isso, elas estão no semiárido, onde não há água superficial. Então, a comunidade de plantas que está lá, além de ser adaptada ao substrato, também precisa se adaptar a meses sem água”.

Flávio Carmo

Um rio volumoso no Peixe Bravo

o volume e a qualidade da água do Rio Peixe Bravo chamam a atenção de quem conhece a região. O pesquisador explica que isso se deve ao modo de vida das diversas comunidades tradicionais, que preservam as águas, e também ao fato de o rio nascer dentro de uma Unidade de Conservação que protege maciços blocos de quartzito, capazes de fazer água infiltrar e abastecer os aquíferos. 

“Alguns quilômetros depois do nascimento do Peixe Bravo, entram em cena as rochas ferruginosas, que têm uma propriedade excepcional de recarga, no caso, as cangas. São couraças muito porosas e também bastante fraturadas. Quando chove nas áreas de canga, boa parte da água penetra e atinge os aquíferos ferruginosos. Isso ajuda a manter o aporte de água, tanto em quantidade quanto em qualidade”, detalha. 

Peixe Bravo: uma região de muitos interesses

O elevado valor comercial desses recursos naturais, especialmente das cangas, no entanto, gera conflitos entre moradores, associações, organizações de conservação, governos e empresas mineradoras.

“A alta heterogeneidade ambiental (déficit hídrico, temperaturas elevadas do ar e da superfície do solo, e os fatores edáficos) é quem condiciona a especificidade desse sistema. O geossistema ferruginoso prospectado abriga 361 espécies de plantas vasculares, 21 delas ameaçadas de extinção, e um potencial faunístico ainda pouco explorado. Canga, água e comunidade é a tríplice que mais representa a biodiversidade do Peixe Bravo”, afirma Marina Pedroso, assistente ambiental do Instituto Ekos Brasil.

Além das cangas, o Vale do Peixe Bravo guarda outra singularidade: a região concentra a maior quantidade de paleotocas por hectare do Brasil — tocas escavadas pela megafauna pré-histórica — e em geossistema ferruginoso do mundo, com 21 registros, além de cerca de 40 cavernas.

“Percebe-se que o Vale do Peixe Bravo concentra diversas áreas de relevante interesse para a conservação. Entretanto, não há nenhuma área protegida, ou seja, nenhuma unidade de conservação, que representa, neste caso, a principal política de preservação, manutenção e uso sustentável do patrimônio ambiental brasileiro”.

Flávio Carmo.

Mobilização da população local

Após a fase de estudos, o projeto avança agora para ações de comunicação e mobilização da população local, em parceria com o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas. Foram realizados diagnósticos para mapear lacunas, percepções ambientais e possíveis soluções para demandas socioambientais e educacionais.

“Outra ação importante neste período foi a formação de 16 jovens locais em comunicação popular. A iniciativa fortalece a própria comunidade na disseminação de informações confiáveis e na capacidade de reagir ao lobby das mineradoras”, explica Pedroso.

Como resultado, os jovens criaram um coletivo e passaram a administrar a página no Instagram Vale do Peixe Bravo (@valedopeixebravo).

Em meio às pressões econômicas e às disputas pelo uso do território, o Vale do Peixe Bravo se destaca como um exemplo emblemático dos desafios e das oportunidades da conservação no Brasil. A articulação entre ciência, comunidades locais e organizações socioambientais mostra que é possível construir caminhos para proteger ecossistemas únicos, ao mesmo tempo em que se fortalece o protagonismo local e se amplia o debate sobre o futuro sustentável da região.

Fontes: https://institutopristino.org.br/wp-content/uploads/2020/04/Vale-do-Rio-Peixe-Bravo_WEB-VF.pdf

O Rio Peixe Bravo e Sua Bacia Hidrográfica – Estratégias de Proteção. São Paulo: Instituto Ekos Brasil, 2026

Entrevista com o pesquisador Flávio Carmo.

Vamos falar sobre harmonização regulatória em Gerenciamento de Áreas Contaminadas?

A planta da sua empresa em São Paulo recebeu uma notificação do órgão ambiental exigindo a investigação e potencial remediação de uma contaminação detectada no local, já afetando negativamente um corpo hídrico próximo à área da empresa. 

Você, preocupado em solucionar a questão o quanto antes e evitar custos ainda mais altos à empresa, recorre ao seu colega da filial em Lima, também gestor ambiental e experiente em desafios envolvendo áreas contaminadas. 

Porém, uma surpresa: as exigências legais, padrões de qualidade do solo e prazos que a empresa deve cumprir em Lima são consideravelmente diferentes daquelas apontadas pelo órgão ambiental em São Paulo. E, mais surpreendente ainda, podem diferir também das exigências aplicadas à filial na Bahia, especialmente quanto aos procedimentos, ao nível de detalhamento técnico e à forma de atuação do órgão ambiental, apesar de ambas estarem localizadas no Brasil.

Assim, você percebe que, ainda que a experiência e apontamentos de seus pares sejam extremamente bem-vindos, eles não serão suficientes para solucionar todos os seus problemas. E pior: a sua experiência, no futuro, não poderá resultar em um protocolo unificado da empresa para a América Latina, já que não há uma harmonização regulatória formal na região, apesar da existência de princípios técnicos comuns.

Indústrias dos mais diversos setores produtivos com presença em diferentes estados brasileiros e/ou países da América Latina sofrem desse mal – como não há uma regulamentação e normativas em comum, o trabalho dos gestores ambientais e das equipes de meio ambiente da empresa deve ser direcionado e específico ao estado ou região na qual a planta está localizada. 

Isso significa trabalho redobrado, triplicado ou mesmo multiplicado pelo número de plantas e regiões cobertas pela empresa. E na prática, isso se reflete em custo.

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A falta de uma harmonização regulatória também afeta negativamente os órgãos reguladores. Em algumas regiões, especialmente onde o tema ainda está em consolidação institucional, pode haver limitações em termos de treinamentos e ferramentas específicas para que os agentes ambientais possam executar suas atividades de forma consistente e eficiente. 

Além disso, quando faltam valores orientadores de concentrações de contaminantes voltados especificamente para a região na qual a área de estudo está inserida, se torna necessário o uso de referências estrangeiras: as tabelas orientando o padrão de qualidade do solo desenvolvidas pela EPA (Environmental Protection Agency), dos Estados Unidos, por exemplo, ainda são frequentemente adotadas para diferentes áreas na América Latina. 

Essa e diversas outras referências internacionais são excelentes tecnicamente, sem dúvidas, mas podem desconsiderar especificidades hidrogeológicas e pedológicas da região (ou seja: a referência desenvolvida para os Estados Unidos pode fazer muito sentido para os Estados Unidos, mas se encaixa 100% nas realidades e biomas dos países latino-americanos?).

Indo ainda mais a fundo (e talvez em um âmbito mais utópico), há também a falta de bases de dados unificadas que apoiem a troca de experiências inter-regional. Imagina que incrível: percebendo desafios similares enfrentados pelo órgão ambiental colombiano, agentes técnicos de Minas Gerais contatam os responsáveis pelo monitoramento e acompanhamento dessa(s) área(s) na Colômbia para entender quais técnicas foram utilizadas e quais foram as lições aprendidas envolvidas naquela área, tornando assim todo o processo mais eficiente. 

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Mais importante ainda: uma base de dados unificada e consistentemente atualizada também apoiaria tomadas de decisões dos governos federais, direcionando investimentos e políticas públicas para as áreas do país que mais contam com desafios envolvendo áreas contaminadas. Hoje, no Brasil, por exemplo, a maior parte das áreas contaminadas registradas encontram-se no estado de São Paulo – mas será que é porque o estado realmente enfrenta um maior desafio envolvendo essas áreas, ou por que talvez haja muita subnotificação em outros estados?

Não podemos, é claro, subestimar os desafios envolvendo uma padronização na legislação ou mesmo a unificação de bases de dados para áreas contaminadas. Muitos órgãos ambientais sofrem com a falta de recursos financeiros, de um número adequado de servidores, de treinamento direcionado ou mesmo uma soma de todos esses fatores. Além disso, há desafios e entraves políticos envolvidos nesse processo, o que por si só pode impedir o avanço de uma proposta dessa natureza.

Ainda assim, é válido questionarmos onde podemos começar a melhorar esse cenário. Ao invés de pensarmos em todos os impeditivos que potencialmente incidiriam sobre o objetivo maior (uma unificação regional de bases de dados para a América Latina, legislações estaduais e federais padronizadas que facilitem a troca de experiências ainda respeitando as particularidades de cada local, e referências adequadas às características de cada região), podemos entender o que leva à ausência de um melhor mapeamento de áreas contaminadas em cada região, e o que é necessário para superar essas barreiras. Podemos pressionar governos (federais, estaduais e até mesmo municipais) a priorizar a pauta ambiental, envolvendo também, é claro, a saúde e qualidade do solo e águas subterrâneas, potencializando investimentos e melhorando a governança nesse âmbito. Podemos proporcionar mais trocas de experiências e informações entre órgãos ambientais de diferentes localidades da América Latina, acelerando assim o crescimento do setor.

Uma harmonização regulatória e padronização de bases de dados não vai acontecer “do dia para a noite”; sobre isso, não há dúvidas. Porém, esse é um tema que pode e deve ser cada vez mais debatido no setor do Gerenciamento de Áreas Contaminadas, e que merece uma atenção especial de todos os atores envolvidos no setor.

O futuro da conservação é participativo

Por Jéssica Fernandes*

Falar de conservação ambiental hoje, para mim, é falar de pessoas.

Ao longo da minha trajetória trabalhando diretamente com Unidades de Conservação, especialmente no território do Vale do Peruaçu, essa percepção fica cada vez mais evidente : não existe conservação ambiental sem participação e protagonismo local.

Em regiões com áreas protegidas, a conservação não acontece apenas dentro dos limites definidos por decretos de criação. Ela acontece nas comunidades, por meio dos seus modos de vida e  das relações construídas com o território ao longo de gerações.

Comunidades tradicionais, povos originários, agricultores familiares, extrativistas e moradores do entorno são detentores de conhecimentos tradicionais ancestrais e percebem mudanças antes mesmo dos dados oficiais. Não temo em dizer que são, muitas vezes, os verdadeiros protetores desses territórios frente às ameaças e pressões econômicas.

Mais do que tratar essas populações como beneficiárias, é preciso trazê-las para o centro da discussão, envolvê-las e empoderá-las como protagonistas que são. É nessa interseccionalidade que a conservação deixa de ser apenas proteção de áreas e passa a ser também valorização de modos de vida.

Mas, reconhecer esse protagonismo exige uma mudança de paradigma. Afinal,não é mais aceitável criar políticas ou projetos sem o envolvimento das comunidades e sem escutar suas vozes. É aqui que a articulação entre diferentes atores deixa de ser um detalhe e passa a ser uma estratégia central para o sucesso da conservação.

Posso adicionar que  falar de conservação da biodiversidade, é falar também de geração de renda. Não existe conservação sem condições dignas de vida considerando, principalmente, os efeitos das mudanças do clima que atingem as populações mais vulnerabilizadas.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, mais de 2 bilhões de pessoas no mundo dependem diretamente de recursos naturais para sua subsistência. No Brasil, cadeias ligadas à sociobiodiversidade, como extrativismo, agricultura familiar e restauração ecológica têm enorme potencial de geração de renda, mas ainda enfrentam desafios relacionados ao acesso a mercado, financiamento e assistência técnica. Se essas cadeias não considerarem quem está na ponta, no chão, elas simplesmente não se sustentam.

E isso não significa reduzir a conservação a uma lógica puramente econômica. Pelo contrário, é reconhecer o papel dessas pessoas no processo de convivência com as áreas naturais, inclusive, com fontes de renda alternativas a ações degradatórias. Cadeias bem estruturadas, que valorizam produtos da sociobiodiversidade, serviços ambientais, turismo de base comunitária e iniciativas de restauração, têm grande potencial de alinhar conservação e desenvolvimento local.

Ao passo que avançamos em compromissos globais como o Acordo de Paris, ou o  Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, entendemos também que o grande desafio agora está na forma como isso se materializa no território. Porque existe um desalinhamento evidente: as metas são globais, mas a execução é local e, na maioria das vezes, sem financiamento suficiente.

Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) demonstram que o mundo enfrenta um déficit anual de cerca de US$ 700 bilhões para a conservação da biodiversidade. E, quando os recursos existem, nem sempre chegam na ponta de forma justa ou estruturante.

O que significa que não adianta desenhar mecanismos financeiros sofisticados, como mercados de carbono ou grandes programas de restauração, sem reconhecer quem planta, protege, monitora, maneja e vive nessas áreas. Sem esse vínculo, a conservação passa a ser mais um processo excludente, cujos louros acabam destinados às grandes organizações, com seus “grandes feitos” realizados. 

Nesse cenário, reconheço que as organizações da sociedade civil assumem um papel estratégico. Elas são capazes de atuar como pontes entre políticas, financiamento e território, conectam pessoas, fortalecem capacidades locais e viabilizam a implementação de iniciativas conjuntas que  fazem sentido na prática.

Reconheço também que essa atuação precisa ser cuidadosa e constantemente revisitada, para ampliar o protagonismo local e não o substituir.

Na prática, a conservação não é só sobre proteger nossa biodiversidade ou os serviços ecossistêmicos, é sobre relações, entre as instituições, políticas, estratégias e principalmente, entre as pessoas e os territórios.

Afinal, o futuro da conservação é pessoal, coletivo e é participativo.

*Jéssica Fernandes é Coordenadora do Programa Peruaçu no Instituto Ekos Brasil, bióloga e possui mais de uma década de experiência em projetos e programas socioambientais de conservação da biodiversidade em Unidades de Conservação brasileiras. 

Criação da RDS Córregos dos Vales no Norte de Minas marca vitória histórica dos povos geraizeiros

O Instituto Ekos Brasil celebra a assinatura do decreto de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Córregos dos Vales do Norte de Minas. Essa é a consolidação de uma conquista histórica dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado, os quais acompanhamos há tantos anos. A assinatura aconteceu no dia 22 de março, durante a COP 15, em Campo Grande (MS).

Com área de 40.834 hectares, a unidade abrange os municípios de Riacho dos Machados e Serranópolis de Minas, em região estratégica da Serra do Espinhaço, marcada por nascentes, veredas e alta relevância ecológica para a segurança hídrica e conservação da sociobiodiversidade.

Há décadas, as comunidades geraizeiras resistem à grilagem, à monocultura do eucalipto e à pressão minerária, defendendo um modo de vida baseado na agricultura familiar, no extrativismo e no uso sustentável do território.

Cabe ressaltar, que a conquista resulta de uma ampla articulação entre o Movimento Geraizeiro e uma rede sociotécnica formada por organizações como CAA-NM, Articulação Rosalino Gomes, STR de Riacho dos Machados, NIISA/Unimontes, Instituto Ekos Brasil, ICMBio, Rede Cerrado, ISPN, CNPCT, CEPCT-MG e CPT, além do apoio de parlamentares e do Ministério do Meio Ambiente.

“A atuação do Instituto Ekos neste processo está ancorada em uma trajetória de mais de 25 anos dedicados à conservação da natureza e ao fortalecimento da gestão de áreas protegidas, especialmente no norte de Minas Gerais. Nossa atuação se deu durante as mobilizações mais recentes, especialmente com apoio nas consultas públicas, etapa fundamental para viabilizar a concretização da proposta”.

Ressaltou Camila Dinat, gerente técnica e de novos negócios no Ekos Brasil.

Mais do que uma unidade de conservação, a RDS Córregos dos Vales representa segurança territorial, proteção ambiental, reconhecimento dos povos tradicionais e cuidado com o nosso Cerrado.

Gestão de Unidades de Conservação para 2026: pilares de sustentabilidade e inovação

Criadas no âmbito da Constituição de 1988 e da Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), as Unidades de Conservação (UCs) são consideradas o principal instrumento de conservação da biodiversidade no país, responsáveis por proteger ecossistemas em diferentes biomas brasileiros. Desde a criação do sistema no ano 2000, o número de UCs no país dobrou e a área total referente foi ampliada em mais de 300%, consolidando a estratégia como um dos pilares da política ambiental brasileira.

Porém, acreditamos que, apesar de muito importante, não basta apenas ampliar o número de UCs. Uma boa gestão também garante o engajamento e a geração de renda das comunidades ao entorno e o enfrentamento de ameaças e desafios como sustentabilidade financeira e mudanças climáticas. 

O Instituto Ekos Brasil acumula experiência de pelo menos uma década em parcerias para gestão e uso público de Unidades de Conservação. Seja na elaboração e revisão de Planos de Manejo, em propostas de criação de novas unidades de conservação, ou nas parcerias firmadas com a APA e o PARNA Cavernas do Peruaçu Peruaçu, ou no Parque Estadual do Rio Doce, nossa atuação desencadeou resultados consistentes ao longo dos últimos anos. 

A partir dessa experiência, compartilhamos a seguir alguns indicativos a serem observados na gestão de Unidades de Conservação. 

Parcerias Público-Privadas para gestão de UCs

Um dos caminhos mais promissores para ampliar a capacidade de gestão das UCs é o estabelecimento de instrumentos de cooperação entre órgãos públicos e organizações da sociedade civil e/ou empresas. Dentre esses instrumentos, temos as Autorizações, as Permissões, as Concessões, o Termo de Colaboração, o Termo de Fomento, o Termo de Parceria e o Acordo de Cooperação. 

Entre esses mecanismos estão os Acordos de Cooperação, termos que permitem que instituições especializadas apoiem atividades como planejamento estratégico, monitoramento ambiental, elaboração de planos de manejo, manutenção de instalações e atrativos para uso público e implementação de projetos socioambientais. São arranjos onde não há repasse de recurso entre as instituições e que têm se mostrado estratégicos para suprir lacunas operacionais, ampliar recursos técnicos e fortalecer a governança das unidades.

Além de ampliar a capacidade institucional, esses acordos permitem também a implementação de modelos de gestão colaborativa, nos quais diferentes atores compartilham responsabilidades e conhecimento para garantir a conservação e o uso sustentável dos territórios protegidos.

O Instituto Ekos Brasil possui o Acordo de Cooperação com o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade) voltado ao apoio à gestão da APA e do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e possui também o Termo de Parceria com o IEF (Instituto Estadual de Florestas, órgão gestor das UCs de Minas Gerais) voltado às ações de consolidação do Parque Estadual do Rio Doce. Essas duas parcerias têm como uma de suas áreas temáticas o Uso Público, mas também tratam de outros temas importantes para as UCs.

Comunicação efetiva entre gestores públicos e organizações parceiras

Ao longo da nossa experiência, entendemos que outro elemento central para o futuro da gestão das UCs é a construção de canais permanentes de comunicação entre gestores públicos e as instituições parceiras.

Mais do que executar atividades pontuais, os parceiros institucionais passam a participar de processos estratégicos, contribuindo para o planejamento de longo prazo das unidades e para a definição de prioridades de conservação.

“Esses canais abertos de comunicação e um alinhamento harmonioso entre órgão público e organização parceira permite integrar à gestão da UC diferentes perspectivas, sejam elas técnicas, sociais ou econômicas. Já vimos, na prática, como esse alinhamento fortalece a governança e torna mais eficiente a tomada de decisão para as políticas de conservação”.

Ressalta Jéssica Fernandes, coordenadora do Programa Peruaçu.

Participação social como eixo estruturante

A participação das comunidades locais é considerada um dos fundamentos da gestão moderna de áreas protegidas. No Brasil, essa participação ocorre principalmente por meio dos Conselhos Gestores das Unidades de Conservação, previstos no SNUC.

Esses conselhos reúnem representantes do poder público, organizações da sociedade civil, povos e comunidades tradicionais e usuários do território, funcionando como espaços de diálogo e por vezes, de deliberação sobre a gestão das unidades.

Segundo dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), cerca de 88% das unidades federais já possuem Conselhos Gestores formalizados, evidenciando o avanço da governança participativa na conservação brasileira.

“Entendemos que trazer a comunidade para os espaços de decisão não é uma questão de boa vontade. É parte essencial e inegociável para uma gestão eficiente e efetiva de uma Unidade de Conservação. Já vivemos situações em que a comunidade era contra o estabelecimento da UC por pensar que atrapalharia seus modos de vida. Quando elas se aproximam do espaço de decisão e se engajam, compreendem como uma área protegida tem enorme potencial de geração de renda e de, por exemplo, proteção à sua própria ancestralidade. Hoje, essa mesma comunidade tem o maior orgulho de sobreviver com a conservação da natureza” completa Fernandes. 

Parcerias com empresas para financiamento da conservação

Foto: Canva Pro.

Outro componente essencial da agenda de inovação na gestão das UCs é a articulação com o setor privado. 

Empresas podem contribuir por meio de diferentes instrumentos, como apoio técnico, financiamento de projetos, desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis e investimentos por meio de  compensações ambientais. 

Essas parcerias permitem ampliar os recursos disponíveis para conservação e fomentar iniciativas de bioeconomia, turismo sustentável,  valorização de produtos locais, e claro, a conservação da biodiversidade.

Educação ambiental e cultura de conservação

Ainda como parte da nossa experiência em acordos de Cooperação e Termos de Parceria em Unidades de Conservação, não podemos deixar de mencionar a importância de ações de educação ambiental como um pilar muito concreto para o sucesso da gestão de uma UC. 

“Programas educativos para visitantes, escolas e comunidades ajudam a ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade local e incentivam comportamentos responsáveis em relação ao meio ambiente. Isso gera e perpetua uma cultura de conservação, evitando conflitos futuros no território  possibilitando o apoio da comunidade à manutenção da UC”.

Ressalta Fernandes. 

Inteligência Artificial pela conservação da biodiversidade

Por fim, não podemos deixar de mencionar a aplicação promissora da Inteligência Artificial como instrumento aliado à gestão das UCs. 

Cresce o número de ferramentas para monitoramento ambiental dos territórios das áreas protegidas, permitindo maior controle sobre avanço de ameaças e acompanhamento dos status de conservação das espécies do bioma local. 

“E a nossa expectativa é que ferramentas administrativas, financeiras, de controle de visitantes, sensores para monitoramento e manutenção de trilhas, etc, sejam cada vez mais eficientes, baratas e utilizadas em larga escala nas UCs”, finaliza Fernandes.  

A gestão de Unidades de Conservação caminha, portanto, para um modelo cada vez mais colaborativo, participativo e orientado por educação e inovação. 

Mais do que preservar paisagens naturais, as UCs tornam-se espaços de experimentação de novos modelos de governança socioambiental, pactuando um agir coletivo pela conservação da biodiversidade.

Leia mais: 

O Programa Peruaçu. 

Sustentabilidade Financeira no Peruaçu 

Uma década do Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC) – e o nosso case de sucesso no Peruaçu

Ekos e IEF adotam protocolo de monitoramento da biodiversidade no PERD aos moldes do Programa Monitora do ICMBio

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*Este texto contou com o auxílio de Inteligência Artificial para maior fluidez e organização das informações. 

Programa Compromisso com o Clima apresenta novidades para 2026

O Programa Compromisso com o Clima apresenta uma nova identidade visual e um escopo ampliado do programa para 2026. A atualização preserva sua essência, ancorada no rigor técnico e conexão entre empresas e projetos, ao mesmo tempo em que o reposiciona como um hub de conhecimento em mudanças climáticas, com espaços de diálogo, formação e articulação.

Como um programa do Instituto Ekos Brasil, a nova logomarca conversa com a identidade da organização. Os três “Cs” do Compromisso com o Clima se transformam em um símbolo versátil, capaz de assumir diferentes interpretações que refletem a essência do programa. 

Por exemplo, na forma original, o agrupamento “CCC” remete ao próprio nome do programa, de uma maneira direta e fácil de lembrar. Quando dispostos de maneira horizontal, os “Cs” se conectam para formar uma ponte, representando a união entre proponentes de projetos e empresas financiadoras. Já em uma terceira configuração, a composição remete à molécula de CO₂, evocando de forma sutil e simbólica o tema central que move o programa: o compromisso com a ação climática.

“O Compromisso com o Clima está sempre em movimento: as formas mudam, as conexões se renovam, mas o propósito permanece. Nenhuma empresa sozinha mudará a trajetória climática. Por isso, além de conectar projetos, vamos promover grupos de trabalho e espaços de diálogo. Queremos articular parcerias, compartilhar conhecimento e construir soluções inovadoras para regenerar ecossistemas e promover justiça climática”, reforçou Rubens Ferreira, coordenador do Programa. 

O futuro do Programa Compromisso com o Clima 

A partir de 2026, o programa atuará como um hub de conhecimento em mudanças climáticas e oferecerá novos produtos como produção de conteúdo mais robusta, estudos e indicadores que apoiem organizações no processo de transição para uma economia de baixo carbono, cursos e treinamentos para profissionais da área, além da criação de grupos de trabalho e espaços de diálogo aberto. 

Por outro lado, o Programa Compromisso com o Clima mantém o rigor em suas avaliações socioambientais em projetos de créditos de carbono, garantindo benefícios reais para todas as partes envolvidas. 

O Compromisso com o Clima sempre foi sinônimo de integridade e colaboração.

Rubens Ferreira, coordenador do Programa. 

“Em 2026 ampliamos essa missão: seremos um hub de conhecimento em mudanças climáticas, sem perder o rigor técnico que nos tornou referência. Queremos que empresas e projetos encontrem aqui não apenas créditos de carbono confiáveis, mas também informação, formação e articulação para agir com impacto. Por isso, convidamos empresas comprometidas com a sustentabilidade a fazer parte desse novo momento”, completou Ferreira. 

Mais sobre o Compromisso com o Clima 

Foto: Canva Pro.

Criado em 2017 por Itaú e Natura, com gestão do Instituto Ekos Brasil, o Compromisso com o Clima nasceu como um edital para selecionar projetos que reduzissem emissões e gerassem benefícios socioambientais (conheça o edital clicando aqui). O sucesso do edital transformou a iniciativa em um programa aberto a outras empresas, ampliando o impacto positivo das ações. 

Hoje, grandes empresas se unem para reduzir burocracias, compartilhar custos e ter acesso a um serviço íntegro e de alta qualidade na compensação de emissões de Gases de Efeito Estufa. Os projetos passam por metodologia própria de avaliação jurídica, curadoria socioambiental e análise de riscos, garantindo transparência e aderência aos princípios internacionais de integridade, como princípios de Oxford e ICVCM. 

Em oito anos, foram aprovados 27 projetos, cerca de 10% dos projetos avaliados, que juntos contribuíram para a redução de mais de 5,58 milhões de tCO₂e. Atualmente, 8 empresas integram o programa, compartilhando custos e aprendizado e demonstrando que a colaboração empresarial é um caminho eficaz para escalar o impacto socioambiental. Além disso, a avaliação jurídica é realizada pelo parceiro Trench Rossi Watanabe.