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No último dia 20, lideranças públicas, empresariais, jurídicas e civis se reuniram na residência oficial do Cônsul Geral da Suíça em São Paulo, Pierre Hagmann, a convite da Câmara de Comércio Suíço-Brasileira (Swisscam), para dialogar sobre “O Mercado de Carbono e o papel do setor privado”. O evento foi exclusivo para as empresas associadas à Swisscam com a perspectiva de auxiliá-las a assumirem mais protagonismo no mercado de carbono brasileiro.
Além do presidente e vice-presidente da Swisscam, Flávio Silva e Ana Moeri, respectivamente, estiveram presentes como painelistas o Embaixador da Suíça Pietro Lazzeri, o Secretário Nacional da Amazônia e Serviços Ambientais, Marcelo Donnini Freire, o Diretor Executivo do Banco de Investimento UBS BB e Head de ESG, Frederic de Mariz, o Gerente Global de Sustentabilidade Digital na Syngenta, Guilherme Raucci, e o Sócio da Tozzini Freire Advogados, Vladimir Abreu.

O Embaixador Lazzeri conduziu a abertura compartilhando o pioneirismo da Suíça na implementação do Artigo 6 do Acordo de Paris em acordos de cooperação bilaterais com países como Gana, Peru, Senegal, Tailândia, dentre outros. De acordo com o Embaixador, esses acordos complementam os esforços internos da Suíça para alcançar suas metas da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, em inglês), mas são uma forma de acelerar a redução das emissões.

“Nesses acordos, os dois governos autorizam a transferência (dos créditos de carbono) com garantia de reconhecimento aos investidores, garantindo que não aconteça a dupla contagem e formalizam o respeito aos direitos humanos, além de um conjunto de critérios para integridade ambiental e desenvolvimento sustentável”, explica ao mencionar o acordo com o Peru. No caso do Brasil, o Embaixador enfatizou o enorme potencial que existe em relação ao mercado de carbono. Neste contexto, a Suíça está em diálogo com as autoridades brasileiras e os diversos atores interessados nesta questão, a fim de compartilhar boas práticas e experiências. A possível aprovação de uma lei específica pelo Congresso brasileiro seria um passo significativo inclusive em perspectiva de possíveis cooperações internacionais.
O Secretário Nacional da Amazônia e Serviços Ambientais, Marcelo Donnini Freire “pegou o gancho” para iniciar a sua fala: “Oxalá teremos um acordo bilateral com a Suíça”. Em seguida, defendeu que o atual governo avançou na pauta de carbono e no Pagamento por Serviços Ambientais – PSA, enfatizando especialmente o progresso da agenda no âmbito executivo com a publicação do Decreto 11.075, em maio de 2022. “O Decreto vai até o limite do que podíamos fazer, de acordo com a legislação de 2009 – a Política Nacional de Mudança do Clima – que diz que os principais setores da economia devem ter seus planos de mitigação estabelecidos. Fomos até o limite para avançar na construção da infraestrutura nacional para isso”, ressalta.

O evento contou ainda com a visão do setor financeiro sobre a temática do Mercado de Carbono com a presença de Frederic de Mariz, Diretor Executivo do Banco de investimento UBS BB e Head de ESG. Mariz destacou que o alcance das metas e compromissos previstos, seja para 2030 ou para 2050, só serão possíveis com parcerias e políticas públicas, como estabelecido pelo ODS17 – Parcerias e Meios de Implementação – e enfatizou que os bancos têm um papel primordial nessas relações ao intermediar a captação de capital estrangeiro para as iniciativas brasileiras íntegras e éticas.
O executivo ressaltou que, da parte dos investidores, a procura por fundos cada vez mais alinhados aos propósitos ESG é crescente e as empresas que emitem títulos no mercado precisam se adaptar a essa procura. “Da parte do emissor, em especial o emissor brasileiro, (…) o mercado de dívida com algum selo ESG triplicou. Foi um recorde. 47% dessa dívida com selo ESG foi feita com selo verde que é o que atrai mais interesse”.
Mariz, que é também professor de Finanças Sustentáveis e Investimento de Impacto na Columbia University (EUA), apontou o potencial do Brasil para ser uma liderança em finanças sustentáveis. E indicou linhas mestras para que isso aconteça: padronização dos créditos de carbono, disseminação do conhecimento (advocacy), publicações em inglês, ganhar voz no mercado e compreender que é preciso abrir o tema do carbono para além dos créditos, englobando também a biodiversidade e os cobenefícios socioambientais.

Em seguida, Guilherme Raucci, Gerente Global de Sustentabilidade Digital na Syngenta, demonstrou com números e casos como o setor do agronegócio tem grande responsabilidade no mercado de carbono. De fato, o setor de alimentos, por exemplo, é responsável por cerca de um quarto das emissões de gases de efeito estufa globais, mas também pode contribuir com a descarbonização das cadeias produtivas. “Existem oportunidades de finanças verdes, de pagamento por serviços ambientais, assim como carbono atrelado aos produtos. No setor de alimentos já vemos empresas trabalhando com esse conceito: carne de baixa emissão, soja de baixa emissão etc. (…) E apesar da problemática do escopo 3, temos como ajudar produtores a produzir commodities com menor emissão”.

Para que as oportunidades avancem é primordial que a regulamentação também avance. Por isso, a última explanação do dia tratou da “Regulamentação do Mercado de Carbono no Brasil” com a contribuição do advogado Vladimir Abreu. Ele destacou pontos importantes do Decreto 11.075 como a criação de uma central de registro única de créditos (SINARE). “O SINARE é um ponto positivo porque hoje estamos sujeitos aos padrões estrangeiros. Isso traz segurança jurídica. O registro aqui também ajuda na não dupla contagem”.
Abreu também apresentou o potencial que a regulamentação do Mercado de Carbono pode trazer para o Brasil. “A Lei traz como benefício a atração do investimento estrangeiro (segurança jurídica) e a precificação dos atributos não-climáticos e salvaguardas ambientais”, finaliza.

O evento foi encerrado com um breve debate com perguntas dos participantes, um coquetel com a participação de todos os participantes e com vinho suíço.
Rosemeire, Sildete, Paula, Marcia, Elenis, Aline, Tamires e Catarina. Nomes de mulheres trabalhadoras que descobriram os múltiplos frutos que as árvores do agreste oferecem, entre eles o sorriso de quem sente na pele o valor da independência financeira que a biodiversidade pode oferecer. Foi em 2015 que o grupo inicial de 20 mulheres se uniu para formar o projeto Sabores do Agreste, no Vale do Peruaçu, à época responsável por captar os frutos nativos e revendê-los, até que brotou a ideia de se reinventar com cursos e a produção de novos produtos regionais.
“Quando uma mulher da zona rural se casa, ela vira dona de casa, porque não há trabalho para as mulheres. O projeto é um meio de conhecer mais, de liberdade financeira mesmo, porque ajuda a gente, a todas nós”, narra Rosemeire Goncalves da Mota, trabalhadora do projeto desde seus primeiros passos.

Em conversa, ela explicou que o impacto de se ter uma oportunidade de trabalho é gigantesco na vida individual de cada uma delas, mas que estarem juntas e respeitarem os desafios de cada colega foi fundamental. “O dia que uma não tá bem a gente respeita, quando uma tem filho e não pode ir trabalhar, a gente aceita.”
A casa de Dona Sebastiana, mãe de uma das trabalhadoras de Januária (MG), foi palco do primeiro curso guiado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) instruído por uma nutricionista que ensinou todos os passos da higienização necessária para se manusear os frutos nativos, desde o recolhimento das árvores dos pequenos produtores locais – com plantio sem utilização de agrotóxicos – até o preparo das polpas naturais, que acontecia na própria casa de Dona Sebastiana.
Depois deste curso e com o avanço dos serviços, foi questão de tempo para a Associação dos Pequenos Produtores e Agricultores Familiares reformar um ambiente para atender o projeto. Mas, as trabalhadoras não demoraram para perceber que podiam fazer mais e iniciaram um segundo curso pelo Senar para lidar, dessa vez, com a confecção de geleia natural.

Geleias de umbu, tamarindo, acerola, manga sem açúcar, manga com pimenta e banana sem açúcar. Deu água na boca? Rosemeire lista cada sabor em meio a leves gargalhadas que refletem a alegria das riquezas encontradas em cada fruto. A Sabores do Agreste também comercializa produtos salgados como a geleia de cebola e a pasta de pequi com ervas.
“Os produtos que as pessoas mais gostam são os mais diferentes. A geléia de manga com pimenta e de cebola, o doce de umbu que é tipo uma balinha e o doce de abóbora com tamarindo (todo mundo ama), puxado para o azedo, são os mais procurados.”

E com dedicação e incentivos externos, um terceiro curso proporcionou que elas aprendessem diferentes tipos de doce de leite sem açúcar e com as frutas da região. Hoje, há doce de leite com caramelo de café, com geleia de umbu, mamão ralado, com geleia de ameixa, com coco, amendoim e geleia de acerola. Uma infinidade de produtos confeccionados por mãos fortes de mulheres conscientes sobre a riqueza da biodiversidade regional. Há muito tempo elas já compreenderam que conservar a terra, as árvores, a fauna e as tradições é sinônimo de uma vida mais digna e rentável.
“O que mais me deixa contente no meu trabalho é ver que o produto está pronto, terminado, direitinho, é a coisa que me deixa mais feliz.”
Que o principal fruto das árvores seja a permanência de podermos usufruir da vida que nasce da terra por muitas gerações.
Há mais de 5 anos acompanhamos de perto o desenvolvimento e a gestão do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, localizado no norte de Minas Gerais, e que tem boa parte de sua extensão no bioma Cerrado e parte na Caatinga e Mata Seca. O Vale do Peruaçu é berço de povos tradicionais e cultura local.
Nesse período de estreita relação com o parque constatamos algo muito verdadeiro, mas que pouca gente reconhece: a conservação de um Parque Nacional não é importante apenas para o Meio Ambiente ou para a mitigação das mudanças climáticas. Uma área como a do Parna Cavernas do Peruaçu é imprescindível para a manutenção de tradições locais, para a geração de renda para as comunidades do entorno e, consequentemente, para a defesa do bioma no qual se encontra.
Presenciamos nesses últimos anos como o incentivo ao turismo sustentável transformou a vida de famílias inteiras – pouco a pouco se recuperando da pandemia – trabalham como condutores, com produção de artesanato, ou abriram receptivos e pousadas. Esse impacto positivo aproximou a comunidade do parque, que por sua vez, ganhou um “batalhão” de gente empenhada na conservação do Cerrado.
Um exemplo muito significativo para nós são as Oleiras do Candeal, um grupo tradicional da região que produz potes, pratos, vasos de planta, moringas, jogos de bule e outras peças com cerâmica. Ao todo, 11 mulheres participam do projeto que se perpetua com o trabalho da terceira geração de oleiras. A proximidade com o Parna Peruaçu permite que os condutores de turismo levem os visitantes até o espaço.
“Para nós é muito importante essa conexão com o Peruaçu. Isso abriu muitas portas para comercializar e divulgar nossos produtos por meio dos visitantes. Os turistas vêm conhecer e acabam valorizando e divulgando nosso trabalho”, destacou Dona Nilda, participante do projeto.
Conheça o Cerrado, pratique o turismo sustentável visitando nossos Parques Nacionais e incentive os projetos das nossas comunidades tradicionais.
Um dia para ficar na história do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. Em 23 de agosto deste ano, pessoas com deficiência auditiva, visual, física, intelectual e múltipla (PCDs) estrearam a trilha que agora permite aos PCDs uma interação direta com o parque.
O projeto é uma parceria entre o ICMBio, a APAE de Januária, o Instituto Ekos Brasil, o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e o Instituto Sertão Vereda com o objetivo de propiciar acessibilidade ao turismo de natureza.
O grupo percorreu a Trilha da Gruta do Janelão, cartão postal do parque, e chegou à Perna da Bailarina, a maior estalactite do mundo! A experiência contou com o auxílio da Macadeira, uma inovação desenvolvida pelo Ekos Brasil sob supervisão da APAE e do ICMBio para permitir que pessoas com deficiência motora também participassem do passeio.

“A presença de uma pessoa com deficiência na Gruta do Janelão representa a validação do direito à igualdade em oportunidades. Estar presente nessa ação é um grande aprendizado e me mostra que é preciso mobilizar todo o território do Peruaçu para torná-lo um destino acessível. Integrar uma área protegida e oportunizar sua visibilidade, faz parte do processo de desenvolvimento sustentável, pois todo mundo já sabe:'”é preciso conhecer para preservar”, comentou Isabela Martins, do Instituto Sertão Vereda
Durante o percurso, o grupo ficou admirado com as belezas do parque e também foram evidenciando outras melhorias para que a experiência seja ainda mais completa e inclusiva.
Para Roberto Palmieri, do Ekos Brasil, o projeto deve inspirar outros parques a fazer o mesmo. “Assim, mais pessoas exercerão o direito constitucional de ter acesso às áreas públicas protegidas e podem se juntar a nós no trabalho de conservação desses espaços fundamentais ao bem-estar de todos”.
Além da inclusão, o projeto também impulsiona a criação de novos negócios para atingir esse público que nos últimos anos não vem sendo considerado no turismo de natureza.

“Eu estou muito feliz. Somos mais um ser humano, mas temos valor e condições de descobrir muita coisa. Ter a oportunidade de explorar toda essa natureza, essas experiências fantásticas foi muito gratificante. Estamos só no começo e é um espelho pro mundo”, disse Helder Viana, da Apae Januária.
O Instituto Ekos Brasil reafirma seu compromisso em continuar a apoiar projetos como esse, que aproximem as pessoas com deficiência à natureza, e parabeniza o grupo que estreou a trilha!
Em recente viagem à campo, nossa colaboradora Danielly Mello Freire teve a oportunidade de retornar à região amazônica, na divisa do Pará com o Amapá, e ver de perto como os benefícios sociais e ambientais de um projeto de créditos de carbono de REDD+ transformam a vida de uma comunidade local.
Para celebrar a Amazônia e boas iniciativas que a mantém em pé, entrevistamos a Dany, que mora em São Paulo, e gentilmente nos contou suas percepções sobre a viagem, o projeto e o bioma.
Confira!
Dany, o que te levou à Amazônia?
Fui representando o Instituto Ekos Brasil em uma visita técnica ao Projeto REDD+ Jari, organizada pela desenvolvedora de projetos, parceira do Compromisso com o Clima, Biofílica Ambipar Environment e pela também proponente do projeto, Fundação Jari. Nosso objetivo era ver de perto os benefícios do projeto e poder apresentar aos nossos clientes seus indicadores socioambientais, para além do carbono.
A visita foi conduzida pelos colaboradores da Fundação Jari. E aqui cabe destacar o trabalho incrível dessa fundação que, além de outras tantas iniciativas, mantém o Museu Jari com uma das maiores xilotecas do mundo – um vasto catálogo de espécimes dessa região amazônica.
E o que mais você viu por lá?
Particularmente foi muito especial ver uma parte de uma área gigantesca, de mais de 1.200.000 hectares de floresta, gerida basicamente com bioeconomia. De fato, dentro do Projeto REDD+ Jari existem outros pequenos projetos, como uma fábrica de farinha para a fabricação de tucupi, goma de tapioca, etc. Essa fábrica contou com uma parceria da Embrapa que realiza testes para selecionar as melhores espécies de mandioca e aumentar a produtividade. Muitos comunitários locais conseguiram implementar um Sistema Agroflorestal, sendo uma possibilidade o cultivo da mandioca em fileiras entre o eucalipto.

Com SAF houve aumento de nutrientes no solo, com possibilidade de plantio de múltiplas variedades alimentícias proporcionadas pela floresta e isso diminuiu, inclusive, a queima da vegetação para recuperação do solo, como prática anterior ao SAF realizada pelos comunitários. Esse fomento e disseminação de conhecimentos técnicos, alinhado ao conhecimento tradicional dessas famílias, fomentado pela Fundação Jari, aumenta a disponibilidade de bio produtos para comercialização.
Apenas para citar mais uma história, essa comovente, falo da Dona Sandra que antes dos incentivos do projeto não tinha produção de alimentos nem mesmo para subsistência de sua família e nem fonte de renda para se manter. Vivia com dívidas e dependente do apoio de vizinhos comunitários. O projeto trouxe ferramentas e conhecimento para que ela pudesse transformar sua residência em um espaço com produção por SAF, hortaliças, criação de aves, porcos e peixes. Hoje eles vivem bem do que conseguem extrair da terra e tem barraca em feiras locais para venda de seus produtos.

Ainda assim, dentro da área do projeto, ela sofre pressão por madeireiros ilegais no entorno de sua propriedade. Por isso, a Dona Sandra, entre tantos outros comunitários, são agentes de vigilância da floresta, pois ela denuncia essas invasões que acontecem ao redor de sua propriedade à Fundação Jari.
Você conheceu uma madeireira legal na região, não é mesmo? Como foi essa experiência?
Sim. Pessoalmente, não é fácil ver aquele clarão no meio da floresta com um monte de tora de madeira. Mas a madeireira que visitei era certificada, com manejo florestal. Mostraram, por exemplo, que há funcionários responsáveis apenas por traçar a rota pela qual a árvore deve cair para que derrube o menos possível ao redor e abra espaço, inclusive para que as árvores mais jovens cresçam com essa incidência de sol.
Uma das causas de perda de rastreabilidade de madeiras ilegais é que as madeireiras ilegais vendem direto para os moveleiros, por exemplo. Por isso, é importante que essas empresas certificadas cheguem antes para oferecer seus produtos. Não temos como ficar sem madeira, portanto temos que fazer com que a madeira chegue até nós, consumidores, de maneira manejada e certificada.
Ali perto, conheci também um artesão que trabalha apenas com madeira essa certificada do projeto Agregue, também parte da Fundação Jari, e que me contou como isso aumenta o valor agregado da sua arte.
Dany, você já tinha estado na Amazônia outras vezes. O que viu de diferente nessa região?
Quando cheguei no Acre pela primeira vez, pude conhecer a Amazônia através da lente da vivência de povos originários, em uma terra indígena protegida, um lugar mágico. A sensação foi de conhecer um pedaço de terra totalmente aquém das problemáticas atuais.
O Acre tem uma questão importante, que por mais que tenha muitas áreas protegidas, ainda sim há desequilíbrio na biodiversidade, pois essas terras são cercadas por muitas grandes fazendas agropecuaristas. As áreas conservadas não se conectam mais, ou seja, são pequenas APs espalhadas pelo estado. Um retrato muito prático sobre esse desequilíbrio ambiental é a quantidade de picadas que se leva, diferente do que aconteceu visitando essa área do Jari Pará-Amapá com pouquíssimas picadas.
A emoção de estar na floresta amazônica, independente do estado, é a mesma. Se perde a noção de tempo e é possível ver a vida com outros modos de se viver. Isso acontece toda vez que eu vou para o norte ou me conecto a algum povo tradicional.

Dessa vez, por mais que eu já soubesse do projeto e da imensidão da área conservada, eu ainda assim me senti muito pequena e fazendo muito pouco do que é necessário para manter a floresta em pé. É preciso muito mais, mais esforço, mais investimento, mobilização. Afinal, estamos em uma contagem regressiva para reverter a crise climática na qual nós mesmos nos colocamos.
Existem políticas que devem ser adotadas, mas precisamos cada vez mais de mais satélites e mais tecnologia olhando para esse território. E precisamos fomentar políticas públicas de proteção aos povos que vivem na floresta, como ribeirinhos, indígenas, quilombolas. pois são essas pessoas que mantêm a floresta em pé e conservada.
Compromisso com o Clima é onde projetos socioambientais e empresas conscientes de seu papel social se encontram com o propósito de realizar planos de longo prazo para o planeta.
Com o apoio de grandes parceiros, o programa Compromisso Com o Clima vem expandindo seu alcance e segue com o propósito de engajar o setor privado em ações de responsabilidade climática.
Fazemos isso porque acreditamos que, agindo de forma colaborativa, nossas ações têm maior impacto e apontam para um futuro cada vez mais sustentável.


Na primeira semana de agosto, parte do time do Ekos Brasil embarcou em São Paulo com destino a Minas Gerais para uma missão especial: levar um grupo de suíços para conhecer o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu.
Dentre os convidados estavam o embaixador da Suíça no Brasil, Pietro Lazzeri, o ex-embaixador suíço Jean Pierre Villard, o casal Ruth e Rolf Gloor da empresa Bachema AG – doadores do Fundo Peruaçu -, além de um jornalista e um fotógrafo, também suíços.
O grupo teve a oportunidade de conhecer cenários deslumbrantes do parque como a gruta do Janelão e o Sítio Caboclo com suas pinturas rupestres de cerca de 12 mil anos. Alguns deles também se aventuraram pela Trilha do Arco do André, passando pelo mirante do Mundo Inteiro com sua vista de tirar o fôlego.
“Além disso, visitamos com eles os projetos desenvolvidos no entorno do parque e que estão sendo diretamente impactados pelo crescimento do turismo sustentável. Eles ficaram bastante impressionados com o empreendedorismo feminino na região, como as Oleiras do Candeal que confeccionam cerâmicas a partir de tradições centenárias”, disse Ana Moeri, presidente do Ekos Brasil que acompanhou a visita.
A imersão ambiental e cultural continuou com um passeio pelo Rio São Francisco que mostrou aos suíços a importância do velho Chico para o desenvolvimento da região e para a conservação da biodiversidade.

Por que a Suíça?
Lazzeri, o embaixador suíço, é um entusiasta em temáticas relacionadas à sustentabilidade e representa um país que se destaca pela inovação, tecnologia verde e turismo. “Para nós é muito importante estreitar esse relacionamento e pensarmos juntos em parcerias que beneficiem não só a conservação de uma área como a do Peruaçu, mas em iniciativas que promovam a cooperação entre as nações pelo desenvolvimento sustentável”, completou Moeri.
Além disso, o Ekos Brasil nutre uma relação especial com o país já que Ernesto Moeri, seu fundador, era natural da Suíça – e brasileiro de coração.
A visita do grupo ao Peruaçu também se desdobrará em uma reportagem a ser publicada em uma revista semanal suíça de grande circulação.

Membros do Comitê Brasileiro da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, sigla em inglês para International Union of Conservation of Nature) se reuniram no último dia 15 de agosto em Assembleia Geral Extraordinária que elegeu um novo secretariado.
Entre os eleitos para guiar as atividades do Comitê no triênio 2022-2025 estão Maria Cecília Wey de Brito, do Instituto Ekos, como presidente, Carlos Durigan, do WCS Brasil, como vice-presidente, e Carolina Schäffer, da Apremavi, como secretária executiva.
Maria Cecília, que assume a nova diretoria, acredita que “a promoção do desenvolvimento econômico e social sustentável e inclusivo, em harmonia com a natureza é urgente, por isso fortalecer o comitê brasileiro da IUCN é um passo importante na agenda global da conservação da natureza”.
A nova diretoria pretende continuar o trabalho que já vinha sendo feito na gestão anterior, de fortalecimento do Comitê Nacional ao ampliar as ações de advocacy e comunicação, ao amplificar o contato com as instâncias de governança da IUCN na América Latina e também ao retomar a campanha Brazil Matters, lançada durante o Congresso Mundial de Conservação da Natureza de 2021. Brazil Matters é uma carta que expõe a visibilidade do Brasil como fundamental na agenda da conservação da natureza e da biodiversidade global. Acesse a íntegra aqui.
O Comitê Brasileiro conta hoje com 25 organizações membro espalhadas pelo território nacional e que atuam em defesa de todos os biomas brasileiros.
Criada em 1948, a IUCN é a maior e mais antiga rede para a conservação da natureza do mundo, agregando mais de 1.400 organizações membros e contando com a contribuição de cerca de 15.000 especialistas voluntários de 160 países que influenciam os rumos da conservação da biodiversidade através da ótica da crise do clima, das comunidades tradicionais e do desenvolvimento sustentável.
Dentre as inúmeras contribuições da rede para a temática, está a publicação da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, que tem servido de base para governos, ONGs e empresas tomarem decisões que afetam os habitats naturais que remanescem no planeta. Outro ponto importante é a colaboração com governos nacionais e locais, comunidades e outros organismos, para que sistemas de áreas protegidas sejam criados e geridos corretamente.
A troca de experiências entre os membros começa nos comitês nacionais em cada país que promovem o diálogo, compartilham experiências e suportam cooperações diversas entre todas as regiões do mundo, e também no debate no âmbito das comissões, que são:
A organização britânica Climate Bonds Initiative divulgou recentemente que os investimentos globais em green bonds têm grande chance de alcançar a marca de US$ 1 trilhão em 2022. Somamos a esse número a ampliação das práticas ESG, que impulsionam as empresas a adotar, cada vez mais, estratégias sociais, ambientais e de governança. Esses dois aspectos exemplificam o crescimento de um verdadeiro movimento no mercado financeiro intitulado “finanças sustentáveis”.
Em artigo publicado pela Febraban, a professora doutora Annelise Vendramini explica: “Finanças sustentáveis (…) buscam alocar dinheiro em atividades que contribuam para a sustentabilidade, incorporando o valor do dinheiro no tempo e as noções de risco –retorno.”
Pelo contexto apresentado acima, fica claro que é a hora e a vez do mercado financeiro fazer a sua jogada de mestre – e já está fazendo. Gestoras de fundos já anunciam prioridade em investimentos sustentáveis, bancos atrelam créditos a relatórios de sustentabilidade e mesmo os investidores pessoa física começam a se preocupar mais em alocar suas reservas em fundos e ações de sustentabilidade.
Cada vez mais fica claro que os investidores não devem atrelar seus investimentos apenas tendo em mãos o relatório de sustentabilidade das empresas. É necessário um due diligence íntegro para entender como elas estão gerindo esses investimentos em conformidade com as estratégias de sustentabilidade.
De fato, o World Resources Institute (WRI) alerta que apenas reduzir emissões passa longe de ser a única preocupação dos investidores. A gestão climática pode e deve ser um dos indicadores primordiais de investimento. É ela a guiar uma governança integral da empresa rumo ao desenvolvimento sustentável, começando por um inventário, passando por metas de redução e compensação, mas incluindo também os impactos sociais da sua cadeia de valor, por exemplo.
“As metas do Acordo de Paris não serão cumpridas sem uma transição justa, sem a inclusão de trabalhadores, povos indígenas, comunidades na linha de frente e outros grupos cujas vidas e meios de subsistência se encontram ameaçados pelas ações necessárias para promover uma economia resiliente e de baixo carbono”, diz o artigo.
Isso significa que investir em projetos corporativos de resiliência e adaptação às mudanças climáticas deveria ser tão importante para os investidores quanto investir em empresas comprometidas com a mitigação ou redução das emissões. E o motivo é bastante simples. Os efeitos devastadores e severos da mudança do clima afetam a todos, inclusive as empresas nas quais investem, colocando em risco a produção, as ações e a sobrevivência dos seus trabalhadores que, geralmente, residem nas áreas mais afetadas pelos eventos extremos.
Por isso, mesmo que ainda seja um desafio para as empresas quantificar, analisar e reportar riscos relativos às mudanças climáticas, os investidores são chamados desde já a investir em companhias e fundos que apoiam ou desenvolvem projetos de adaptação e iniciativas que priorizam a justiça climática.
Sabemos a necessidade de que todos façam a própria parte. E sabemos também que se o mercado financeiro adotar as finanças sustentáveis como regra e não exceção, a “luz no fim do túnel” ficará cada vez mais clara.

Uma riqueza cultural imensa é carregada por cada indígena brasileiro. Vivendo no contexto urbano ou em transição entre a cidade e a aldeia, são frequentemente questionados por seus costumes e precisam aprender desde cedo a defender sua cultura entre os povos não-indígenas.
Em 2022 é necessário que o conhecimento substitua os estereótipos. E nada melhor do que impulsionar esse movimento através de um dos espaços mais frequentados pela sociedade contemporânea: o espaço virtual.
Para apresentar a importância de utilizar de forma consciente a internet em defesa dos povos indígenas, conversamos com o jovem ativista Cristian Wariu e a doutoranda da Universidade Federal do Amazonas, Romy Cabral, que nos mostraram as facetas dessa defesa cultural.
“Índinho” e “índio” eram termos pejorativos, infelizmente, muito comuns na infância de Cristian. Ser o único garoto indígena em uma escola não-indígena e escutar tantas falácias sobre a sua realidade o fizeram entender que sua própria voz poderia – e deveria – se tornar uma grande ferramenta de defesa.

Jovem, ativista e estudante de Comunicação da Universidade de Brasília, é membro do povo Xavante, um dos mais de 300 povos indígenas espalhados pelo país. Ele conta que aprendeu a ensinar sobre os aspectos das realidades indígenas ao corpo discente e docente das escolas desde cedo.
Hoje, Cristian é conhecido por lideranças indígenas como Guerreiro Digital e soma mais de 75 mil seguidores no Instagram, 110 mil no TikTok e quase 42 mil inscritos no canal do YouTube Wari’u, números conquistados por meio de vídeos que ensinam de forma didática conceitos e diferenças culturais entre os povos originários.
“Eu sou um indígena muito politizado, porque meu pai é uma liderança indígena e desde berço a gente (ele e os irmãos) tinha a plena noção da nossa realidade […], então eu já ia muito preparado para os ambientes de conflito, de chegar e ser, por muitas vezes, o único indígena da escola.”

E foi a sensibilidade e a naturalidade por narrar e ensinar sua realidade que proporcionou a Wariu um ingresso no mundo da produção de conteúdo digital naturalmente. A curiosidade pela computação foi o primeiro passo para chegar na produção de vídeos para o YouTube, onde cresceu, inscrevendo seus trabalhos em editais e evoluindo nos formatos e roteiros.
Quando começou, durante a adolescência, ainda não existiam pessoas na internet que fizessem o trabalho que ele havia proposto. Por isso, para o ativista, encontrar hoje uma gama de influenciadores indígenas que produzem conteúdo de qualidade e que estão tomando espaço de influência nos diferentes setores da sociedade a partir da internet, é um aceno positivo para a disseminação da cultura das centenas de povos indígenas e idem para o seu próprio trabalho.

“É até engraçado pensar que a maioria dos jovens que estão no fronte das redes sociais,
alcançando um público maior do que eu já alcancei, todos eles citam os meus vídeos, ‘ah eu comecei porque eu vi seu vídeo, achei muito interessante’. Ou até diretamente mesmo, produtores de conteúdo hoje tiveram mentoria minha, dada por organizações indígenas.”
A vivência de Cristian Wariu é um exemplo de ocupação dos espaços de conflito. Ele mostra que impulsionar transformações e utilizar das novas tecnologias para ensinar as diferenças culturais e a linguagem correta para se dirigir a cada povo, esse é o caminho para acontecer a conscientização política e social da população brasileira diante da pluralidade cultural indígena.
Para Romy Cabral, o contato com os povos indígenas foi diferente. Ela começou a trabalhar ainda jovem com a língua portuguesa, por meio de aulas particulares de apoio pedagógico para pessoas de outros países, como Bulgária, Taiwan e China, mas quando chegou na graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), ela decidiu que atuaria apenas com os povos indígenas.

A primeira aldeia com quem ela trabalhou e construiu raízes foi a Kwatá/Borba-Am, do Povo Munduruku. Diferente de Wariu, que transita frequentemente entre o contexto urbano e sua aldeia, os membros da Kwatá iam até a cidade apenas no final do mês, para ir ao banco.
E quando o assunto é comunicação, na época em que Romy começou a trabalhar como professora, a aldeia contava com apenas dois orelhões e o sistema de radiofonia. Este sistema consiste na comunicação por meio de ondas de rádio e já foi utilizado para ensinar a língua do povo pela voz da matriarca de uma das grandes famílias do local, Ester Caldeira, hoje com cerca de 105 anos de idade.
“Quando houve o desligamento dos telefones e eu parei de frequentar a aldeia, eles buscaram manter contato comigo”, recordou a professora. O contato era possível via telefone das cidades mais próximas, sempre na última semana mensal. Então, quando chegava o período, ela recebia a já habitual ligação para saber as novidades e saudar as amizades, no entanto, um dia, isso mudou, quando em meados de 2010 ela recebeu uma mensagem de um membro da aldeia através de uma rede social – e nem era final do mês.
Ela conta que a surpresa maior foi descobrir que a mensagem veio direto da aldeia, consagrando a chegada da internet onde nem mesmo o sinal de telefone funcionava.
“Até a década de 1980 havia uma buzina que avisava a aldeia em momentos importantes, como as assembléias. Essa prática acabou porque a pessoa encarregada de tocar a buzina faleceu. Depois que o orelhão foi desligado, quando a internet chega à aldeia, a escola se torna um acesso a este espaço virtual e dá início ao processo de inserção do povo nas redes sociais.”

Em 2018 ela retorna à aldeia para recolher informações para sua tese de doutorado de tema “Territórios Virtuais: Munduruku no ciberespaço, um estudo de caso a partir da Aldeia Kwatá/Borba-Am” e identificou que o número de pessoas com acesso à internet cresceu.
Através das redes, os indígenas mantêm contatos, fortalecem a cultura indígena, mostram a sala de aula e sua rotina na aldeia. No entanto, por algumas experiências fracassadas, os habitantes já enxergam o ciberespaço como um lugar de exposição e não de diálogo.
De acordo com a doutoranda, notam que é preciso cautela para que seus hábitos sejam compreendidos por seus valores e não sejam alvo de violência dos povos não-indígenas devido a ausência de valorização da cultura.
Cristin Wariu e Romy Cabral nos mostram que as novas tecnologias são e devem ser utilizadas como forma de disseminação da cultura indígena. Como? Primeiramente através do empenho para que os povos indígenas tenham o acesso para tal, que tenham uma educação digital e comunicacional e, claro, pela educação de toda a população brasileira, para que o respeito às riquezas culturais seja preservado.
Na semana em que celebramos o Dia Internacional dos Povos Indígenas, o Instituto Ekos Brasil se sente feliz em ceder um espaço de fala para a comunidade indígena, representados aqui por um jovem e por uma professora pesquisadora.
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Em meio à Copa do Mundo no Catar, o globo dividirá a atenção com a Conferência de Biodiversidade da ONU, que acontecerá entre os dias 5 a 17 de dezembro de 2022. À princípio, a COP 15 seria sediada pela China, mas precisou ser remanejada para o Canadá devido à política “covid zero” adotada no país e após anos de temores pelo adiamento apreensivo. A nova data foi confirmada em Nairobi, Quênia, no final do mês de junho.
A relevância de debater a biodiversidade em um contexto de pandemia é fundamental para evitar que novas ameaças à saúde do planeta e da vida humana apareçam nos próximos anos. A preservação da fauna e da flora são fatores-chave para impedir o surgimento de novos vírus e bactérias nocivas aos seres humanos.
Por isso, é de principal importância que nos próximos anos a biodiversidade seja uma temática discutida no meio político governamental e no meio privado, para que seja efetivo o combate às práticas criminosas, como o desmatamento e o tráfico de animais e de espécies ameaçadas de extinção. Estas são as expectativas da COP 15.
A COP de Biodiversidade ocorre depois da COP 27, Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em novembro no Egito, bastante aguardada de forma especial pela juventude, após anos de manifestações com vista a alertar as autoridades internacionais.
Vamos acompanhar estes desdobramentos de forma coletiva.