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Mata seca: com belezas e biodiversidade, floresta esquecida sofre por desvalorização

Mata seca: com belezas e biodiversidade, floresta esquecida sofre por desvalorização 

Pouco conhecida e confundida como vegetação morta, a floresta de mata seca está presente em diferentes biomas do Brasil, como mata atlântica e caatinga.

No Dia de Proteção às Florestas (17), destacamos a biodiversidade e as belezas de uma floresta pouco conhecida e muito desvalorizada. Chamada internacionalmente de Floresta Tropical Seca, no Brasil ela recebe outro nome popular: mata seca. Essa floresta traz consigo riquezas na época de umidade e uma incrível habilidade de adaptação à secura do excesso de frio ou de calor. 

Em entrevista ao Instituto Ekos Brasil, Mario Marcos do Espírito Santo, mestre e doutor em ecologia pela UFMG e professor da Universidade Estadual de Montes Claros, traz detalhes sobre a floresta e caminhos para sua valorização em solo brasileiro.

 

EKOS  BRASIL – Marcos, muito pouco se sabe sobre a Mata Seca. Pode nos dar um panorama geral de suas características, onde se encontra e se podemos considerar como um Bioma?

Mario Marcos – Mata seca é uma denominação de uso comum, seu nome científico é Floresta Estacional Decidual, que significa uma floresta localizada em regiões com estações bem delineadas (estacional), nesse caso chuvoso e seco, e que perde mais da metade de suas folhas (decidual). Apesar das discussões sobre o que é uma floresta, dizemos que ela tem porte florestal, mas é muito confundida como uma vegetação morta, dada a perda de suas folhas. 

Podemos separá-la em dois tipos principais: uma tropical, localizada de Minas Gerais para cima, e uma subtropical, ao sul do país. A diferença é que as folhas caem no sul por causa do frio, enquanto acima pela seca. No norte de Minas ela pode chegar a perder 90% de suas folhas, daí o nome popular mata seca, porque quando chegamos na floresta ela está realmente muito seca. Já na época das chuvas, ela se assemelha a uma mata atlântica, porque é bem volumosa.

Encontramos essa formação vegetal em quase todos os continentes. Em uma escala global existe a denominação Floresta Tropical Seca, que teria como parte a mata seca. No Brasil não se reconhece a mata seca como bioma e a encontramos principalmente na Caatinga, no Cerrado e na Mata Atlântica. A Caatinga é por alguns estudiosos internacionalmente considerada uma Floresta Tropical Seca, mas a Caatinga não tem o porte florestal em toda a sua extensão, em sua maioria possui um porte arbustivo. Outra característica encontrada em alguns casos é que há matas secas que possuem muitas plantas com espinhos, mas esta não é uma característica geral.

 

EKOS BRASIL – E quais são os maiores desafios para a conservação da Mata Seca atualmente? Quais são os tipos de degradação que ela sofre? E onde?

Mario Marcos – Pelo fato delas não serem tão “exuberantes”, no sentido de não atrair tanta atenção como as florestas úmidas, não pensamos nela como uma floresta. Inclusive o nome Caatinga significa mata branca em Tupi, então ela seria a própria mata seca. Por isso, por não considerarem ela rica em biodiversidade, não atrai a atenção do público nacional ou internacional, o que a deixa com falta de atenção. Isso faz com que elas tenham menos pesquisas científicas, o que torna as chances de você conseguir recursos para estudá-las bem curta.  

Se formos olhar, a discrepância é enorme entre artigos científicos sobre a mata seca e demais florestas. Se você propuser a criação de recuperação de áreas degradadas, de conservação, é bem menor as chances de conseguir recursos para a mata seca. Então, a chave seria reconhecer a mata pela sua biodiversidade, tanto de flora e fauna, e de recursos ecossistêmicos que ela propicia, como evitar a erosão do solo, sequestrar carbono, diminuir as mudanças climáticas e serem fontes de agentes de controles biológicos. Portanto, o primeiro passo é reconhecê-las como igualmente importantes. 

As ameaças que ela sofre outros biomas também sofrem, mas, as florestas úmidas possuem maiores proteções. Na Amazônia a taxa de preservação deve ser de 80%, em outros biomas brasileiros esse número cai para 20%, portanto se eu compro uma terra, tenho que deixar apenas 20% de floresta preservada. Já a Mata Atlântica, está protegida desde 1993 por ferramentas legais que protegem muito mais ela do que outros biomas brasileiros. Isso porque tínhamos apenas 7% da Mata Atlântica preservada no final de 1980 e início de 1990, porque ela sofreu mais desde a chegada dos europeus em solo brasileiro.

Agora, tem um pequeno porém que favorece a mata seca. A Lei da Mata Atlântica (2006) incluiu as florestas decíduas.  Isso tem muito a ver com a flora existente nesses ambientes, que  teriam elementos de um mesmo bioma. Isso é algo que é difícil de argumentar, apesar das discussões que envolvem este tema. É um critério que chamamos de florísticos. Isso gerou muita controvérsia principalmente no norte de Minas Gerais, quando ruralistas e parte da população criaram outdoors “mata seca não é mata atlântica”. 

O IBGE divulgou um mapa de aplicação desta Lei (2008). Nessa época, quando deputados estaduais tentaram nomear a mata seca como uma vegetação específica do Estado, tivemos que fazer um estudo para manter as matas secas de MG nesta Lei. É extremamente necessário lutarmos para que a mata seca permaneça na Lei da Mata Atlântica para que ela seja preservada. 

Atualmente estou trabalhando em um artigo que trata de uma análise formal, estatística, mais robusta que mostre a separação da mata seca no brasil, seguindo os estudos das maiores autoridades em mata seca do mundo, que conheci enquanto professor visitante  na Universidade Exeter da Inglaterra. 

 

EKOS BRASIL – E como essa floresta poderia ser parte de um desenvolvimento sustentável? Quais são seus potenciais em termos de uma exploração sustentável?

Mario Marcos – As matas secas são o lar de vários povos e comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas, que historicamente deixaram essas matas razoavelmente preservadas. O uso para o extrativismo seria uma forma sustentável que seguiria preceitos agroecológicos de manejos tradicionais destes povos. Os turismos de base  comunitária, associado aos povos tradicionais, e sustentável, com espécies de faunas, seriam atrativos.

Hoje, a maior parte do país tem a pecuária extensiva como foco, é um elemento cultural, mas que pode ser feita de maneira sustentável, já que há formas de manejo menos impactantes. A própria EMBRAPA tem direcionamentos de manejos mais sustentáveis, como usar menos pesticidas, não utilizar a queima da vegetação e recuperação de áreas degradadas como uma ferramenta. Vende-se muito o argumento de que perderão milhões de cargos de emprego caso permaneça preservando a vegetação, argumentos falsos e sem embasamentos. Portanto precisamos rebater esse discurso de que o desmatamento é a solução para o Brasil. 

 

EKOS BRASIL – O Instituto Ekos Brasil atua na região do Peruaçu, onde encontramos Mata Seca. Na sua opinião, como podemos contribuir para que a Mata Seca seja mais conhecida pela sociedade?

Mario Marcos – A beleza da mata seca é a variação do período seco para o chuvoso. Portanto, precisamos alterar a noção de que os ecossistemas secos não têm o mesmo valor, tanto em termos de diversidade ecológica como de cultural. É importante mostrar que são ambientes que, além de biodiversos, são cheios de cavernas, matas secas associadas a solos de origem calcária,  flora distintiva e riva; são bem peculiares devido a perda das folhas; agrupam vários animais ameaçados de extinção e possuem diversas culturas associadas a mata seca que sabem o que plantar, como usar as vazantes do rio, etc. Então acho que seria extremamente interessante ressaltar seus aspectos bonitos e demonstrar que ela é um espaço onde a natureza e o ser humano conseguem viver em harmonia. 

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Conservação

Patrícia Medici: 25 anos de dedicação à ciência e conservação da anta brasileira

Patrícia Medici: 25 anos de dedicação à ciência e conservação da anta brasileira 

Há 25 anos, a pesquisadora, cientista e coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), Patrícia Médici, dedica sua vida à preservação da fauna brasileira. Dado seu trabalho no Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), na qual é co-fundadora, foi prestigiada, em 2020, como ganhadora do grande prêmio Whitley Gold Awards – também conhecido como Óscar da Conservação. 

Convidamos Patrícia para um bate-papo exclusivo sobre os desafios de ser cientista no Brasil e sobre sua pesquisa com as antas brasileiras. 

EKOS BRASIL – Patrícia, imaginamos que ser cientista no Brasil não é nada fácil. Quais são os principais desafios que você enfrenta? 

Patrícia Medici – É bem complexo fazer conservação de espécies no Brasil visto que a maioria dos editais não têm foco neste tipo de ciência. Conseguir recursos no país para trabalhar, é quase que impossível. Cerca de 95% dos financiamentos para os projetos que coordeno há 25 anos vêm de fora, são internacionais. Então essa é uma grande dificuldade. 

Por outro lado é um grande desafio preparar os conservacionistas do futuro, que são os jovens que precisam de capacitação, treinamento e oportunidades que nós, grandes projetos, deveríamos poder dar naquele início de carreira para estarem preparados e assumirem o bastão quando não estivermos mais na ativa. E é muito complexo dar essa oportunidades levando em consideração que é quase virtualmente impossível conseguir bolsa para mestrados, doutorados e TCCs. 

Patrícia Medici com antas brasileiras

Uma outra questão é pura e simplesmente a falta de valorização. Nesse momento, a ciência, o pesquisador, o cientista, o conservacionista está, de uma maneira geral,  bastante relegado à “escória” da produção, em termos de conhecimento no Brasil. Temos que trabalhar sozinhos com os meios com os quais é possível a gente trabalhar – com suporte internacional no nosso caso – e buscando aplicar nossos resultados para o benefício da conservação dos animais sem nenhum tipo de suporte e vontade política. É complexo.

 

EKOS BRASIL – Qual sua matéria de pesquisa e quais resultados você já alcançou?

Patrícia Medici – Bom, são 25 anos de pesquisa com a anta brasileira, uma espécie ameaçada de extinção que tem uma distribuição grande por toda a américa do sul, mas que está presente em algumas eco regiões que estão bastante degradadas, em status de conservação bastante complicados, como a Mata Atlântica, os Llanos na Venezuela, os Chaco na Bolívia e na própria Amazônica no Brasil em alguma áreas. Então a matéria de pesquisa é a anta e sua conservação. 

A gente faz pesquisa científica gerando informações de altíssima qualidade, bastante robustos, que então subsidiam o desenvolvimento de estratégias de conservação desse animal nos diferentes biomas onde ela ocorre: atuamos na Mata Atlântica, Pantanal, Cerrado e estamos começando agora na Amazônia. A ideia é coletar informações in loco específicas para aquele animal naquela região, entender quais as ameaças afetando esse bicho naquela região e então, de forma multidisciplinar, ser capaz de olhar para tudo isso e criar essas estratégias, pensar onde conseguimos contribuir e tecer estratégias para implementação de ações. 

Um componente muito forte do nosso trabalho é a comunicação para a conservação. Todos sabemos que a anta no Brasil tem um problema muito grande de relações públicas, é um animal usado de maneira pejorativa associado a falta de inteligência, então por meio de ferramentas de comunicação a gente tenta desmistificar essa questão. 

Em termos de resultados, acredito que os principais foram relacionados à implementação de medidas de mitigação para diferentes ameaças. A gente tem um trabalho de mitigar a problemática dos atropelamentos de fauna no Mato Grosso do Sul, já fizemos o mesmo no Estado de São Paulo e estamos começando esse processo na Amazônia.

Estamos buscando trabalhar a temática da contaminação por agrotóxicos. Descobrimos que as antas no cerrado do Mato Grosso do Sul estão expostas a estes agroquímicos e contaminadas. Trabalhamos a questão da caça, buscando implementar ações de marketing social, e estamos entrando para tentar resolver a questão da mineração na amazônia e agricultura em larga escala. 

 

Veja também o relato da cientista na série BioDiversos 

 

EKOS BRASIL – O que a ciência já possibilitou na sua vida? 

Patrícia Medici – Me possibilitou, de maneira geral, fazer o que eu gosto que é estar na natureza, estar no mato, estar com a bota suja na lama. E é lá que eu saio atrás de respostas para as minhas perguntas, na verdade minhas perguntas em grande parte vem de lá, então esse é um grande fator na minha vida. 

Patrícia Medici cuidando de uma anta brasileira

Então estamos sempre nesse processo de buscar respostas e de fazer progresso em termos de conseguir informações para o nosso objetivo de trabalho. E é a ciência que possibilita a metodologia, são as diferentes escolas científicas que nos ajudam e nos respaldam neste processo e que trazem, enfim, esses desafios e toda essa fascinação que o pesquisador e o cientista tem por fazer descobertas e gerar informações de boa qualidade.

 

EKOS BRASIL – Patrícia, você que faz pesquisa diretamente no pantanal, a gente sabe que o bioma foi palco de notícias, especialmente no ano passado, por conta dos incêndios. Qual a sua visão sobre o assunto?

Patrícia Medici – Uma questão muito importante para a gente ter em mente quando falamos de pantanal é que 95% do pantanal são propriedades privadas, grandes fazendas de gado que, se geridas de acordo com os modos tradicionais da criação de gado no pantanal, a gente pode ter certeza que o pantanal estará conosco por vários séculos. 

Patrícia Medici dirigindo olhando para a paisagem

O que são esses modos tradicionais? Manter a floresta porque o gado precisa da sombra; não substituir a pastagem nativa pela exótica, porque a nutrição do gado no pantanal está adaptada para essa pastagem nativa; manter a densidade baixa de animais por área, etc. E o que prejudica o pantanal é quando esses métodos tradicionais deixam de ser aplicados, geralmente por um pantaneiro que esteja buscando, desesperadamente, um retorno maior, como foi o caso da crise da carne de boi em 2008, bem quando a gente chegou no pantanal. Então temos um boom nesse período, mas ainda vemos acontecer essa mudança, principalmente nas bordas do pantanal. Portanto esse é o problema que pode vir a afetar fortemente o pantanal nos próximos anos. 

A questão do fogo faz bastante parte desse processo, onde as áreas mais afetadas foram as bordas, e são de maneira geral pessoas que ou utilizaram esse método de manejo de pastagem que é o fogo – muito utilizado de maneira errônea no pantanal – ou esses proprietários que buscam aplicar modos mais intensivos de manejo de gado dentro de planície alagável e resultou nisso tudo. E agora tem todo um processo local no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul: uma gestão bastante ampla de diversas organizações, discutindo formas de reverter este processo. É de fato a maior discussão hoje em dia no que diz respeito à conservação desse bioma.

 

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Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu

Instituto Ekos assume Secretaria Executiva do Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu

Instituto Ekos assume Secretaria Executiva do Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu

“Uma área composta por diferentes unidades de conservação próximas, justapostas ou sobrepostas, além de outras áreas protegidas, sejam elas públicas ou privadas”, esta é a definição de Mosaico no “dicionário ambiental”. Conheça o Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu.

Em maio deste ano, o Ekos assumiu a Secretaria Executiva do Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu (MSVP), compromisso que irá perdurar por um ano e que é fruto do trabalho intenso realizado junto ao ICMBio, com o Termo de Cooperação de apoio à administração, gestão socioambiental e logística do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu (MG). O parque faz parte do (MSVP), um dos 17 mosaicos de áreas protegidas identificadas pelo Governo Federal no território brasileiro. 

O MSVP é composto por 38 áreas protegidas. Onze delas constam na portaria do Ministério do Meio Ambiente que reconheceu o Mosaico em 2009, já outras 17 foram incorporadas por meio de proposições aprovadas no Conselho do Mosaico. Além disso, ainda há duas terras indígenas e oito Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).

Localizado na transição entre dois biomas, o Cerrado e a Caatinga, o Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu se encontra entre no norte e noroeste de Minas Gerais, sudoeste da Bahia e sudeste de Goiás. Ademais, ele guarda consigo “manchas” de floresta estacional ou Mata Seca. Além disso, o território do Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu faz parte da região dos Gerais, retratada de forma ímpar por Guimarães Rosa, que descreveu a riqueza cultural dos povos e comunidades tradicionais da região e seu cotidiano associado ao rico ambiente natural. 

É justamente por sua riqueza inigualável que sua preservação deve ser tão intensificada.

 

Sobre Mosaico

Segundo a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), é reconhecido um mosaico “quando existir um conjunto de unidades de conservação de categorias diferentes ou não, próximas, justapostas ou sobrepostas, e outras áreas protegidas públicas ou privadas, constituindo um mosaico, a gestão do conjunto deverá ser feita de forma integrada e participativa, considerando-se os seus distintos objetivos de conservação, de forma a compatibilizar a presença da biodiversidade, a valorização da sociodiversidade e o desenvolvimento sustentável no contexto regional”.

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) é responsável por reconhecer mosaicos, a pedido dos órgãos gestores das UC, conforme as diretrizes da  Portaria nº 482 de 14 de dezembro de 2010.

 

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PADDD: saiba o que é e como afeta a biodiversidade brasileira

PADDD: saiba o que é e como afeta a biodiversidade brasileira 

 A partir dos anos 2000 o mundo passa a conhecer um novo conceito de ameaça à manutenção da biodiversidade, o chamado PADDD (Protected Areas Downsizing, Downgrading and Degazetting, em inglês). Sigla complicada, mas com uma explicação bastante simples: processos, efetivos ou propositivos, de redução, recategorização e extinção de Unidades de Conservação. 

Um verdadeiro retrocesso, por vezes justificado por interesses políticos ou locais, mas de impacto amplo e quase sempre negativo e que, infelizmente, também tem ganhado cada vez mais aderência no Brasil, especialmente depois de 2010.

Para aprofundar esse assunto convidamos para uma entrevista exclusiva, conduzida por Ciça Wey de Brito, a gerente de ciências do WWF-Brasil, Mariana Ferreira, há mais de uma década à frente de programas estratégicos da ONG em território nacional.

O WWF mantém uma plataforma para identificação, registro e monitoramento de todas as alterações nos limites e categorias das áreas protegidas brasileiras. 

Confira.

 

Mariana Ferreira

EKOS BRASIL  | Mariana, pode nos dar um exemplo de uma área protegida brasileira ameaçada por PADDD, ou seja, que pode ser reduzida ou extinta, para que as pessoas entendam na prática o que isso significa?

Acredito que, hoje, a área protegida com mais biodiversidade ameaçada por PADDD é o Parque Nacional da Serra do Divisor. Ele é um parque bastante importante para a biodiversidade, pois contempla uma ponta da carreira Andina Amazônica do Brasil, então tem um conjunto de espécies que, para o território nacional, só ocorrem no parque. Existiu inclusive uma proposta para que o parque fosse patrimônio natural da UNESCO. Além disso, indígenas e ribeirinhos que vivem dentro e no entorno do parque apoiam sua existência, há uma relevância local de turismo e uma posição estratégica porque a presença do parque acaba por combater o tráfico de drogas, que é muito frequente nessa fronteira.

No entanto, há um projeto de lei hoje para que o parque se torne uma APA (Área de Proteção Ambiental), parar permitir a construção de uma estrada em seu interior. A estrada parece ter apenas relevância local e carece de estudos que comprove seu impacto econômico para a região. 

No momento, esse é o parque mais ameaçado por PADDD no Brasil em termos da biodiversidade.

EKOS BRASIL | Além dessa, onde estão as áreas protegidas mais ameaçadas por PADDD? 

Hoje, na Amazônia, é onde temos os processos mais ativos de PADDD e os mais frequentes, especialmente associado ao arco do desmatamento, especialmente nos estados de Rondônia e, atualmente, no Acre. Percebemos uma forte correlação entre as unidades de conservação mais desmatadas recentemente e a existência de propostas de PADDD. Na Mata Atlântica temos poucos eventos, sendo que algumas propostas antigas continuam em discussão, especialmente Parque Nacional do Iguaçu e Parque Nacional de São Joaquim.

No Cerrado há menos propostas ativas. Como tivemos um boom de Unidades de Conservação no Cerrado muito mais tardio, as terras produtivas já tinham sido ocupadas. 

Parque Nacional da Serra do Divisor: um dos mais ameaçados do Brasil em questão de PADDD

EKOS BRASIL | E quais são os principais motivos que levam a iniciativas de PADDD no Brasil? 

A gente tem hoje, no Brasil, três principais fontes ou motivações de PADDD.

A primeira é a (obra de) infraestrutura, muito forte na Amazônia, como as hidrelétricas, estradas, etc. A segunda é a mineração: em 2018, o WWF-Brasil produziu uma análise sobre o enorme volume de pedidos de pesquisa e lavra e áreas protegidas da Amazônia. 

Já a terceira é meio difusa, e engloba várias formas, mas podemos citar a invasão e a especulação do mercado imobiliário. Vemos isso por meio de processos de PADDD mais recentes, como o da Resex Jaci-Paraná, em Rondônia, e RESEX Chico Mendes, no Acre: eu invado uma terra ilegalmente, desmato, crio gado, tenho uma posse ali e daqui a pouco, com a alegação que essa área protegida perdeu sua função, os grileiros e invasores são beneficiados. Acho que esse movimento é muito forte e, cada vez mais frequente na Amazônia.

Cabe salientar que nem toda proposta de PADDD é negativa. Existem alguns processos de ajustes necessários para corrigir injustiças históricas na criação de unidades mais antigas. No entanto, esses eventos são exceções. O que defendemos é que os processos de PADDD estejam embasados por estudos técnicos, motivos claros, processos transparentes e democráticos que promovam uma discussão ampla com a sociedade. Não é isso o que acontece na grande maioria das vezes. 

EKOS BRASIL | E Mariana, porque o trabalho de identificar, conscientizar e ser contra PADDD é tão importante?

Nós sabemos que as áreas protegidas são hoje as melhores ferramentas para a proteção da biodiversidade que temos. Mas acho que não só. É importante falar que essas áreas são os grandes ativos que nós temos para o desenvolvimento de uma economia mais verde, mais inclusiva e mais sustentável. Vários países inclusive, nesse esforço de recuperação econômica pós-pandemia estão incluindo as áreas protegidas em seu planejamento. Estão olhando essas áreas não apenas como um reduto para reduzir a emissão de carbono e proteger a biodiversidade, mas para a geração de empregos, de uma economia mais moderna, tecnológica, etc. 

O mundo está discutindo hoje uma nova meta global para termos, pelo menos, 30% de áreas conservadas e protegidas, até 2030. O Brasil fez uma boa lição de casa em um esforço de criação de áreas protegidas nas últimas décadas, especialmente na Amazônia. 

Então, com os eventos de PADDD, nós estamos depauperando nosso patrimônio por coisas que não vão se sustentar no longo prazo, não garantem nenhum meio de riqueza, de economia para as populações locais. De fato, não conseguimos conectar os processos de redução de áreas protegidas com um maior aumento de PIB ou mais bem-estar. Pelo contrário, você tem concentração de renda. O histórico da Reserva Extrativista de Jaci-Paraná é esse: foi uma reserva extrativista criada por demandas de seringueiros que foram expulsos de suas terras, de suas casas, e hoje há ali mais de 120 mil cabeças de gado. É muito triste.

EKOS BRASIL | Você acredita que conseguimos ter algum tipo de envolvimento da sociedade mais efetivo? O WWF-Brasil está pensando em alguma estratégia para intensificar a comunicação sobre isso, tem alguma forma de chamar atenção sobre o tema?

Existem várias estratégias de curto, médio e longo prazo. Uma delas que é médio/longo prazo é que se as pessoas não visitarem, não conhecerem, não entenderem o que são as unidades de conservação, os parques ou as reservas é muito difícil que se envolvam com algo que está muito longe do dia a dia delas.

Uma série de estudos têm mostrado, por exemplo, que crianças que têm mais contato com a natureza tendem a ser adultos que defendem as causas ambientais. É preciso melhorar a qualidade da experiência dos visitantes dos parques e demais áreas, diversificar o público que interage com essas áreas e promover formas de valorizar o papel dos parques e reservas.

A Estrada do Colono, que ameaça o Parque Nacional do Iguaçu para mim é um bom exemplo: o parque é uma área muito visitada, patrimônio natural da Unesco, que gera muita riqueza para a região, e portanto, tem muito mais engajamento social e visibilidade, o que acaba por reduzir a pressão de abertura da estrada no seu interior. 

O tema biodiversidade é muito relevante para o WWF-Brasil. Além disso, acreditamos na força da atuação em redes e parcerias. Por isso, uma das atividades que vamos realizar é capacitar e apoiar mais as organizações locais e a sociedade civil sobre os conceitos de PADDD e as estratégias de incidência e comunicação. O primeiro curso já está acontecendo agora para organizações do Cerrado, com o apoio do CEPF.  

 

Conectando histórias no Peruaçu

“Conectando histórias no Peruaçu”: apoie o novo projeto do Ekos Brasil

“Conectando histórias no Peruaçu”: apoie o novo projeto do Ekos Brasil 

Lugar de paisagens incríveis com cavernas de mais de 100 metros de altura, sítios arqueológicos, pinturas rupestres e reduto de conservação de mais de 56 mil hectares de Cerrado, o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu conta com o apoio do Instituto Ekos Brasil há 18 anos. 

Em todos esses anos de dedicação vimos o quanto a biodiversidade do Peruaçu é ao mesmo tempo tão rica e tão ameaçada e o quanto o parque é importante para a comunidade local, sendo palco de histórias contadas de geração em geração. 

Por isso, em nosso mais novo projeto, “Conectando histórias no Peruaçu”, com o apoio do matchfunding do BNDES, queremos levar oficinas de capacitação em recursos audiovisuais para a juventude das comunidades ao entorno do Peruaçu. Além da parte técnica, os e as jovens participarão de palestras com especialistas, guias e moradores locais sobre as pinturas rupestres, sobre as cavernas e suas formações geológicas e também sobre a importância da conservação da biodiversidade para o meio ambiente e para o contexto social da região. 

Esses elementos, juntos, permitirão à juventude local que conte e divulgue as histórias do Peruaçu sobre sua riqueza natural e cultural para outros jovens estudantes e para as gerações futuras! 

Os vídeos produzidos serão divulgados nas redes sociais e as oficinas poderão ser compartilhadas com outras escolas, favorecendo o desenvolvimento do mesmo projeto em outras regiões do país. 

 

Qual o impacto esperado? 

Com esse projeto vamos capacitar cerca de 30 jovens e um professor da região. Também esperamos atingir muitas outras pessoas com a divulgação dos vídeos e com a replicação dessa iniciativa em outras regiões. 

Além disso, quando você contribui para a nossa campanha, além de incentivar a relação dos jovens com a cultura e natureza da região, você ajuda a preservar e divulgar as belezas do parque. E de quebra, ainda poderá conhecer o Peruaçu e suas histórias e ganhar uma recompensa que tem tudo a ver com o lugar. 

 

Como funciona a campanha? 

Nossa campanha de financiamento coletivo funciona da seguinte forma: para cada real arrecadado, o BNDES colabora com mais o dobro do valor e você recebe uma recompensa como agradecimento. Assim, se você contribuir com R$ 10 , por exemplo, o BNDES contribuirá com mais R$ 20, somando R$ 30 reais de apoio ao nosso projeto.

É importante lembrar que a campanha é TUDO ou NADA e precisamos atingir a meta mínima de 75 mil reais. Caso a meta não seja atingida, o dinheiro é devolvido para o colaborador e o projeto não sai do papel.

Contamos com você! 

Faça sua contribuição em: benfeitoria.com/conectandohistorias

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caatinga

Caatinga: vocação para a energia renovável

Caatinga: vocação para a energia renovável 

O Ekos Brasil entrevistou o engenheiro florestal e coordenador geral da Associação Plantas do Nordeste, Frans Pareyn, sobre os desafios e os potenciais da Caatinga para o desenvolvimento sustentável do Brasil. Leia na íntegra. 

Ekos Brasil – Frans, como vai a nossa Caatinga? 

Nossa Caatinga tem em torno de 84 milhões de hectares. Com a ajuda de uma ferramenta, observamos que em 1985, a Caatinga tinha 68% de cobertura original. Em 2018/19 esse número baixou para 59%

Isso significa que a Caatinga perdeu cobertura? Sim, perdeu. Mas quando olhamos de perto, a maior perda aconteceu antes dos anos 2000. A partir de então, a perda foi pequena e praticamente ficou em um equilíbrio, na faixa dos 60%. 

Isso dá uma certa tranquilidade. Significa que minimamente a Caatinga vem sendo mantida. Mas significa que não há desmatamento? Não. O desmatamento acontece sim. Mas nesse caso, o bioma é diferente dos outros

A perda e a recuperação ficam espalhadas dentro do bioma. Temos um mosaico de áreas de perdas e ganhos. Mas a cobertura (paisagem) mais ou menos se mantém. Isso é bem diferente de Cerrado e Amazônia, onde há uma perda diferente da floresta. 

Ekos Brasil – E por que isso acontece? 

Isso é um reflexo dos sistemas tradicionais de produção dentro bioma como a agricultura de pequena escala, a exploração da vegetação para abrir áreas agrícolas, usar num determinado período e depois deixar de novo para a recuperação florestal. 

A vegetação da Caatinga, por exemplo, tem tido uma importância grande na pecuária extensiva, pois oferece forragem nativa para os animais domésticos. Então, nem em fazendas grandes o pessoal desmata tudo, porque a própria Caatinga tem esse suporte forrageiro, dá essa contribuição para essa atividade tradicional. 

Isso é totalmente diferente do Cerrado e da Amazônia. 

E isso também significa que não podemos tratar o Bioma Caatinga como os outros. As políticas públicas deveriam estar adequadas para esse sistema produtivo. Mas ao longo da história, vimos que ela é usada para áreas agropecuárias e madeira, dois motivos principais pra exploração sua exploração. 

Paisagem da Caatinga na Paraíba/Wikipedia

Ekos Brasil – Esse tipo de exploração é o maior desafio da Caatinga hoje? 

Essa é a grande questão. Paralelamente aos cerca de 7,3 milhões de hectares de Caatinga protegidos em Unidades de Conservação, que representam apenas 8,08% da área original do bioma original, em diferentes graus de proteção, temos uma população relativamente grande no semiárido e que diariamente pressiona os recursos naturais existentes. 

Uma das atividades principais para essa população é a extração de lenha/madeira. Porém, a vegetação não tem muita vocação para madeira, porque são árvores menores. Mas tem uma vocação para biomassa de energia, então serve muito bem para produção de energia. 

Recentemente fizemos um estudo e vimos que, atualmente, o setor industrial e comercial da região do bioma demanda anualmente em torno de 7 milhões de toneladas de matéria seca, isso para atender a energia calorífica em processos industriais como cerâmicas, padarias, casas de gesso, etc. Praticamente todas as indústrias do Nordeste funcionam com biomassa (lenha). 

E quem cozinha com lenha e carvão também precisa dessa mesma quantidade, cerca de 7 milhões de toneladas de matéria seca. Porém, no caso domiciliar acontece a catação de madeira morta na floresta, ao menos na zona rural. Enquanto o setor industrial desmata para atender fornos e caldeiras. 

Ekos Brasil – E na sua opinião, como essa demanda pode ser atendida de forma sustentável? 

Por um lado, temos várias fontes de biomassa para energia, além da lenha: algaroba, poda de caju, poda de frutífera, bambu, eucalipto, etc, para atender essa demanda energética. Todos esses juntos, hoje representam 5,5 mi de toneladas. 

Ou seja, ainda temos um déficit (em relação às 7 milhões de toneladas de demanda) que é abastecido por lenha da Caatinga

Isso não seria um problema se o déficit fosse abastecido pela madeira proveniente dos planos de manejo, mas todos os levantamentos que temos, inclusive de 2018, vimos que os planos de manejo representam apenas 300 mil hectares.

As áreas manejadas são uma fonte de renda, garantem conservação da biodiversidade e abastecem a demanda por energia, que precisa ser atendida e que a outra alternativa seria o uso de combustíveis fósseis. 

Se quisermos nos adequar às preocupações atuais em termos ambientais, isso significa conservar a biodiversidade, conservar o ecossistema e evitar a emissão de Gases de Efeito Estufa. Por isso, a produção sustentável de energia renovável é a melhor opção. 

E a Caatinga se adequa muito bem. Ela tem capacidade de produzir! Já conhecemos com bastante segurança o grau de produtividade que existe em suas diversas regiões e há um sistema de manejo que garante sua sustentabilidade a longo prazo. 

Por exemplo, imagine que eu, Frans, tenho uma cerâmica que precisa de lenha todo mês para produzir telha e tijolo. Tenho várias alternativas para energia. Se for fogo a lenha, posso usar lenha nativa ou biomassa. Só que boa parte da lenha que compro vem de fonte não identificada, ilegal. O que posso fazer? 

Conheço uma fazenda localizada na Caatinga, mas que faz plano de manejo, ou seja, contratou um engenheiro florestal que estimou qual a produção possível de madeira de acordo com um ciclo de corte, submeteu o plano ao órgão ambiental que anualmente vai emitir uma autorização para exploração da área de caatinga. E aí essa lenha é vendida legalmente para qualquer demanda. E eu posso comprar. Então, a minha cerâmica não emite Gases de Efeito Estufa porque comprei madeira de manejo sustentável. No nosso entender o balanço é neutro. Vou emitir, mas esse carbono é paulatinamente reincorporado na floresta que está crescendo. Isso é uma opção fantástica para contribuir no balanço das emissões. 

Usar a energia renovável da Caatinga é uma fonte de renda local. É um sistema barato e faz bem pra economia local. Tem um apelo social e econômico para geração de renda e emprego. Especialmente em uma região que carece de oportunidades produtivas. Por isso, defendemos muito o manejo florestal da Caatinga. O manejo pode ser integrado com a pecuária, desde que se respeite as quantidades de carga, com a apicultura, etc. Não tem muito conflito de interesse. 

No entanto, de 2015 a 2018 (último dado disponível) tivemos uma queda absoluta: tivemos menos área manejada em 2018 do que em 2015, ou seja, menos oferta de lenha manejada, enquanto a demanda aumentou. Isso é catastrófico, temos mais lenha ilegal, sem controle, sem garantia de evitar emissões GEE.

De acordo com nossas estimativas, precisaríamos ter 1,5 milhões de hectares manejados, aí sim teríamos uma situação ambientalmente correta. 

Algaroba na Caatinga | Foto: Glauco Umbelino/Wikipedia

Ekos Brasil – E por que não temos mais manejo sustentável na Caatinga? 

Em termos de legislação, para que não houvesse nenhum aproveitamento ilícito da Caatinga, os órgãos ambientais se tornaram muito exigentes, o que é bom, mas pouco eficiente. Se há intenção em fazer um plano de manejo, a pessoa desiste no meio do caminho. Não existe uma política de incentivo ao plano de manejo. E na maioria dos casos se diz apenas o que não pode. Não é desenhado para ser algo atrativo. 

Não reclamo dos órgãos ambientais. Mas o fazendeiro, por exemplo, pensa 3 vezes antes de entrar com uma solicitação para plano de manejo. 

Se eu fosse um órgão ambiental, receberia e já iria perguntar o que ele precisa. É muito melhor do que qualquer desmatamento descontrolado. 

E o principal motivo de isso não avançar é a mentalidade, a opinião generalizada que se implementou que o uso de floresta é algo ruim porque temos uma pressão de desmatamento. Também sou contra o desmatamento, mas do uso sustentável da floresta não posso ser. É possível um uso adequado, racional, evitando perda de cobertura, de serviço ecossistêmico, mas possibilitando proveito econômico. 

E não vejo isso acontecer sem políticas públicas. 

Infelizmente quem faz certo e quem faz errado é tratado igual pela lei. E se eu faço certo, custa mais caro. 

 

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Bioeconomia

As tendências e os desafios da Bioeconomia no Brasil e no mundo

As tendências e os desafios da Bioeconomia no Brasil e no mundo

Diante das várias crises que vivemos no momento – crise climática, de perda da biodiversidade e de poluição dos mares, por exemplo, – é cada vez mais comum ouvirmos a palavra bioeconomia como algo que pode nos tirar deste quadro preocupante. Esta palavra vem associada à ideia de algo novo, de uma economia nova, que seja capaz de desenvolver e introduzir nos processos produtivos uma nova lógica que associa o uso dos recursos naturais e o conhecimento. Essa nova economia também busca se aproximar das demandas de consumo de uma sociedade cada vez mais exigente em relação aos cuidados com o meio ambiente. 

A definição de bioeconomia possui certa flexibilidade porque seu desenvolvimento depende dos recursos naturais disponíveis em cada região ou país. De acordo o Global Bioeconomy Summit 2018, bioeconomia é “a produção, utilização e conservação de recursos biológicos, incluindo conhecimentos, ciência, tecnologia e inovação relacionados, para fornecer informações, produtos, processos e serviços em todos os setores econômicos, visando a uma economia sustentável”. A principal lógica da bioeconomia é encontrar novos usos para produtos de origem biológica. Porém, ainda que este conceito possa agregar especificidades relativas ao local e recursos naturais associados à bioeconomia, falta uma abordagem explicita sobre o papel da conservação das florestas tropicais neste contexto.

Mesmo que este conceito pareça novo para alguns, ele foi cunhado nos anos 70 pelo economista e matemático romeno Nicholas Georgescu-Roegen. Naquela oportunidade, Georgescu-Roeggen, vislumbrava ser possível o desenvolvimento de uma economia dentro dos parâmetros da natureza. Para ele, as pessoas não precisariam depender exclusivamente dos combustíveis fosseis uma vez que plantas e microrganismos poderiam produzir quaisquer materiais.  

Hoje, vários países do mundo têm incorporado a bioeconomia em suas estratégias de desenvolvimento dado seu potencial econômico aliado à sustentabilidade, e às demandas dos consumidores. Trabalho publicado pela OCDE indica que até 2030, a contribuição global da biotecnologia alcançará mais de US$ 1 trilhão distribuídos entre os setores de saúde, produção primária e industrial. 

Na União Europeia, inciativas inovadoras relacionadas à bioeconomia ganharam espaço já nos anos 2000. Na oportunidade, o bloco europeu já apostava na exploração dos recursos biológicos antevendo a solução de problemas ambientais, o que culminou com o lançamento, em 2012, de sua Estratégia Regional de Bioeconomia, atualizada em 2018. Países como a Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Finlândia, Suécia e outros, possuem Planos Nacionais de Bioeconomia. Os Estados Unidos são outro expoente desta tendência. 

Dados da Comissão Europeia apontam que setores ligados à Bioeconomia nesta região movimentam 2,3 trilhões de euros/ano e geram 18 milhões de empregos (ou 8,3% do mercado), enquanto a contribuição para o PIB europeu é de 620 bilhões de euros (4% do PIB regional). 

Um reforço importante para o avanço da bioeconomia vem da iniciativa “European Green Deal” que reposiciona a relação do bloco com outros países com os quais têm relações comerciais. Esta iniciativa prevê medidas para proteção de florestas tropicais, incentivando a aquisição e consumo de commodities provenientes de cadeias de abastecimento livres de desmatamento. 

Este movimento já traz reflexos para o Brasil. Está em discussão no Parlamento Europeu projeto de lei para responsabilizar civil e penalmente empresas importadoras de commodities de áreas desmatadas. A demonstração prática recente desta iniciativa se deu em junho de 2020, quando 29 instituições financeiras, entre fundos de pensão e bancos que juntos somam quase US$ 3,75 trilhões sob sua gestão, enviaram carta ao governo brasileiro, demonstrando preocupação com o desmonte das políticas ambientais e o avanço significativo do desmatamento. 

E no Brasil?

Possuidor de um território com mais de 8,5 milhões de km2, onde se inserem sete biomas (incluindo o mar) que abrigam 20% do número total de espécies existentes (116 mil espécies de animais e 55 mil espécies de plantas) e onde está a maior floresta tropical do planeta, o Brasil desponta como um país de enorme potencial para o desenvolvimento da bioeconomia. Por estas características também se vislumbram novos ganhos para a economia, para o desenvolvimento científico, a conservação da biodiversidade e valorização dos conhecimentos tradicionais. O pesquisador José Vitor Bomtempo Martins, Coordenador do Grupo de estudos em Bioeconomia da UFRJ estimou que a bioeconomia representava U$ 286 bilhões no Brasil em 2016, ou perto de 14% do PIB

Além dos recursos naturais favoráveis ao desenvolvimento da bioeconomia, o Brasil também possui outros atributos importantes como a presença de uma agricultura desenvolvida, um grande potencial para gerar energia eólica e solar e experiências bem sucedida em biocombustíveis. Estes setores já mostram resultados interessantes e alguns exemplos correntes como os abaixo listados: 

 

  • Cana-de–açúcar o etanol (inclusive de 2a geração E2G – mais eficiente e com menos emissões de C), energia térmica (o bagaço já contribui com 8% da matriz energética brasileira), e o esqualeno que é um antioxidante e é utilizado como óleo hidratante; 

 

  • Florestas plantadas a lignina pode substituir o benzeno e estireno (fosseis) na produção de plástico, para a fabricação de copos, embalagens e brinquedos, por exemplo; A nanocelulose (extraída das fibras da madeira) confere leveza e grande resistência mecânica podendo ser aplicada na construção civil, automotiva, aeroespacial, farmacêutica e alimentícia. A chamada “Madeira engenheirada” pode sustentar colunas de lajes na construção civil.

 

  • Combustíveis – Biogás  já existem 3 termelétricas no Brasil que utilizam o lixo para a produção de gás em SP, BA e RS. Também pode servir como combustível para caminhões (biometano) e para a siderurgia. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), 18% dos combustíveis consumidos no país são renováveis. Um passo importante na descarbonização do setor de transportes e a geração de créditos de carbono (CBIOs) é o RenovaBio, que visa incentivar a produção destes tipos de biocombustíveis. 

 

  • Cosméticos vários produtos já estão no mercado, sendo este um dos setores da indústria com grande potencial de desenvolvimento de novos produtos na lógica da Bioeconomia.

 

Mas, é necessário que o país invista em outros setores para o pleno desenvolvimento da bioeconomia, que possam incluir outros atributos da nossa biodiversidade. A floresta em pé́, por exemplo, tem um valor que ainda desconhecemos por completo. Além dos serviços ecossistêmicos prestados ao planeta, como captação de CO2, manutenção do regime de chuvas, conservação da biodiversidade, entre tantos outros benefícios, há incontáveis potencialidades que podem se transformam em riquezas, sem agressão à natureza. 

Bioeconomia e Biodiversidade da Amazônia  

Atualmente, em alguns círculos de discussões (técnico-político-filosófico e de desenvolvimento sustentável), o bioma amazônico, onde habitam 25 milhões de pessoas, parece o lócus privilegiado para o desenvolvimento da bioeconomia. Manter este bioma conservado é, portanto, manter uma vantagem comparativa única para o Brasil. Mas, a forma de transformar esta vantagem em ativos econômicos ainda demandará tempo. 

Entende-se que o desenvolvimento econômico, que tem na inovação em bioeconomia sua lógica, terá que transformar as formas correntes de cadeias de valor e mercados de produtos. É preciso ter como pano de fundo a conservação da biodiversidade, evitando sua simplificação ao mesmo tempo que se deve promover a expansão dos territórios conservados. Em igual medida, é imprescindível focar na melhoria do bem-estar das populações que vivem na floresta e dela retiram sua sobrevivência material, cultural e espiritual. A bioeconomia precisa ser ambientalmente comprometida, equitativa e socialmente inclusiva

Para que este foco da Bioeconomia seja alcançado, é importante distingui-lo do viés conceitual utilizado nas economias industrializadas, baseado principalmente na substituição de materiais e combustíveis fósseis, promoção do setor agrícola, e de energias alternativas, que focam na redução de emissões de gases de efeito estufa. Isto se mostra particularmente relevante para que as políticas públicas por vir, evitem fortalecer atividades que levem ao desmatamento e concentração de riqueza e renda. 

Gargalos

Para que o potencial da Bioeconomia se materialize, alguns gargalos devem ser enfrentados, tanto aqueles de caráter geral, quanto os específicos para a região amazônica e outros biomas.

De forma geral, os problemas apontados são: falta de mão de obra qualificada; coordenação política; inexistência de um Plano Nacional de Bioeconomia – existindo apenas ações voltadas a setores específicos com visão incompleta e fragmentada; excesso de burocracia que estende sobremaneira o tempo para a realização de pesquisas, e falta de sinergia entre iniciativa privada, governo e academia.

Já no tocante à região amazônica, somados aos gargalos gerais há limitações aos produtos florestais extrativos, decorrentes das suas próprias características assim como da própria região: alta perecibilidade dos produtos, dificuldades logísticas, instabilidades na produção (volume, qualidade, etc.), mercado pouco organizado e baixa tecnologia. Estas características reforçam a presença de atravessadores, dificultando o estabelecimento de canais diretos com os produtores, o que por vezes afasta potenciais compradores e desincentiva a melhoria da própria cadeia produtiva. 

Portanto, para que nosso potencial natural possa aumentar os ganhos com a bioeconomia, há que se olhar com cuidado para o potencial e capacidade de cada setor, de forma que sejam respeitados e incentivados o cuidado com nossos biomas e sua biodiversidade e que sejam respeitados os direitos e conhecimentos das populações tradicionais.  

Por Maria Cecilia Wey de Brito, Instituto Ekos Brasil.

 

Fontes 

Especial Guia Exame de Sustentabilidade   – a Economia do Futuro (13/11/2019)

Instituto Escolhas e IRICE (Instituto de Relações Internacionais & Comércio Exterior). Agenda para o destravamento da Bioeconomia. 2019

Instituto Escolhas – Revista – Interesse Nacional – ano 13 Edição especial 01 – Bioeconomia – Ago 2020

Revista Página 22 News – Amazônia Legal em Dados | Bioeconomia | ESG e exploração | Mulheres e Clima (fevereiro de 2021)

 

 

 

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“Os índios não irão desaparecer, serão minorias, mas estarão presentes e obtendo dessa nação seus direitos” 

Em conversa informal com os colaboradores do Instituto Ekos Brasil, o indigenista Sydney Possuelo, fala sobre as perspectivas e os desafios atuais – alguns não tão atuais assim – dos povos indígenas. 

“Muitas vezes nós, estando abrigados nas nossas cidades e construções, neste nicho que criamos, esquecemos que os indígenas também são nossos irmãos,  que precisamos também assistir a eles”. Essas palavras de alerta são de Sydney Possuelo, brasileiro indigenista, sertanista, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) e considerado a maior autoridade com relação aos povos indígenas isolados do país. 

Sua história com a causa começa cedo. Desde pequeno se apaixonou pela aventura, pela natureza. A pesca, caça, a história do Brasil e propriamente a questão indígena, especialmente voltada aos povos isolados, guerreiros e valentes, sempre lhe chamaram muito atenção. “Acredito que há certas características que nos ajudam a seguir no nosso destino”, declara. 

Foi ainda muito jovem que procurou os irmãos Villas-Bôas, os sertanistas mais famosos do país. “Eu percebi que era isso que eu buscava. Então, segui este destino que eu havia escolhido”. 

O sonho na prática

Naquela época, não havia escritórios da FUNAI. Como seu zelo maior sempre foi sob a luta dos Direitos Humanos, Possuelo trabalhou muito perto de comunidades indígenas isoladas, para defendê-las e apoiá-las. 

De acordo com ele, as histórias vividas na mata são infinitas. E são fortes e sofridas, da maneira como realmente é a vida dos indígenas, que necessitam lutar por suas vidas, por seus direitos básicos e por suas terras cotidianamente. “Eu, sozinho, junto dos Caiapós principalmente, enfrentei problemas de saúde, epidemias, situações que foram muito, muito difíceis”, relembra.

Descreve que uma vez estava no posto e foi chamado com pressa por dois jovens que carregavam uma mulher em uma rede. “Quando eu abri a rede,  ela estava dando à luz e tinha apenas uma mãozinha saindo da mulher. Fomos então para o ambulatório e tentamos pensar em como faríamos para tirar a criança dali. Pensamos em empurrar o braço para dentro e tentamos encaixar a cabeça da criança no local exato de parir. Eu estava ali de calção e o suor caía em cima da barriga da mãe. Já tinha colocado soro e penicilina para ela, que já estava muito fraca. Já era tarde demais para o bebê. Descobrimos horas depois que ele já estava morto há dois dias”, narra o indigenista.

“Depois foi a segunda parte”, recupera da memória. Pegaram um pequeno avião para levar a mãe ao hospital em Goiânia, mas nenhum aceitava tratá-la. Por fim, entrou no hospital, repousou a mulher em uma maca e disse que não sairia dali até que ela fosse atendida. 

“Não é uma história bonita, mas que reflete a vida, as angústias, tristezas, dores, ferimentos dos indígenas. Suas histórias com os brancos não são belas. Até hoje essas relações são muito difíceis”, evidencia.

Guerras sob a mata

Apesar de governantes brasileiros já terem assinado diferentes tratados internacionais visando a conservação do meio ambiente e da cultura dos povos indígenas, são poucos os que de fato são colocados em prática. Isso porque a prioridade do Estado é aplicar o regimento interno, que muitas das vezes vai contra os princípios sustentáveis.

O sertanista é decisivo ao dizer que o Estado brasileiro nunca protegeu os povos indígenas e nunca teve uma ação de defendê-los. Segundo ele, houve governos que cuidaram menos ou mais dessas ações, entretanto, “o eterno conflito dos que disputavam a terra ainda existe”.

“Devemos entregar os direitos que são deles. Nós devemos olhar com o coração, pois o governo não tem nenhuma decência com os povos e penso que, trazendo tudo isso para os dias atuais, vemos que o tempo não é favorável aos indígenas. Vemos que há um sentimento nacional embutido de que índio é atraso, é sujo, contra o desenvolvimento, contra o progresso”, discorre Possuelo. 

E completa: “Eu diria que nunca na história do Brasil nós vivemos um momento tão perigoso para os povos indígenas”.

A história é viva, assim como a cultura

A guerra contra as comunidades indígenas não é formal ou declarada. Aprende-se na escola sobre a chegada dos europeus às Américas e sobre a perversidade das ações dirigidas aos que habitavam esta terra. “Sempre houve uma luta por direitos e por terras dos dois lados. A luta dos brancos foi mais no início, inventando normas, carimbos.  Chegamos aqui e dissemos ‘olha, você que está aqui há mil anos, não é mais dono desta terra’, porque o índio não tinha as coisas que nós inventamos. Não tinha carimbo, não tinha papel. Não precisa ser jurista para saber que isso está errado”, conta. 

Se o arcabouço social e jurídico não favorece sua cultura, as comunidades precisam lutar por seus direitos. Graças a chegada da internet nas aldeias, principalmente os jovens têm tomado o seu devido espaço nas redes sociais, como influenciadores digitais que divulgam informações sobre sua cultura e seu cotidiano; além de ocupar espaços nas universidades, nos congressos e, principalmente, na raiz do problema: na política.

Mas Possuelo acredita que além de pressionarmos ou cobrarmos pelos  povos indígenas, a grande mudança tem que partir da população branca. Ele defende que os índios isolados têm o direito de permanecerem afastados da civilização – se assim o quiserem – para “não viverem as nossas angústias”.

“No final de todas as contas, o que estamos fazendo das nossas vidas? Estamos buscando ser felizes. Neste sentido, eles são muito melhores do que nós. Não existe essa vaidade absurda. Há pessoas que acham que isso é atraso, mas não existem sociedades ultrapassadas. Existem sociedades que seguem caminhos diferentes de nós, eles vivem no conforto, não acumulam nada, porque acreditam que a natureza que foi generosa para seus avós e bisavós vai continuar a ser generosa com eles”, diz. 

Saúde e longa vida aos povos indígenas

Sem dúvidas, Sydney Possuelo é um  exemplo de persistência, luta, empatia, humildade e consciência. “Os índios não desapareceram, seja há 30 ou 300 mil anos. E não vão desaparecer. Serão cada vez mais incorporados. Se os isolados precisam de proteção, os que estão em contato conosco precisam de nós, de saúde, de educação. O futuro precisa de nós, pois isso tudo é reflexo das nossas ações. Os índios não irão desaparecer, serão minoria, mas estarão presentes e obtendo dessa nação seus direitos. Saúde e longa vida aos povos indígenas”, conclui.

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mulheres na ciência

“A ciência é sim uma atividade para as mulheres”

“A ciência é sim uma atividade para as mulheres”

O Instituto Ekos entrevista a doutora e pesquisadora científica do Museu Biológico do Instituto Butantan, Erika Hingst-Zaher, que apresenta sua visão sobre a importância do centro de pesquisa para além das vacinas e incentiva o merecido espaço das mulheres na ciência. 

Quem não conhecia, certamente ouviu falar sobre o Instituto Butantan recentemente. Esse centro de pesquisa biológica, que ganhou o nome por estar localizado no bairro do Butantã, zona oeste da cidade de São Paulo, tem recebido grandes destaques na mídia nacional pelo desenvolvimento da vacina contra a Covid-19. Mas, você conhece as atividades do centro de pesquisa para além da vacina? 

O Instituto Butantã e o Ekos Brasil são parceiros de longa data. Para nos contar um pouco sobre o histórico dessa parceria e, principalmente, para nos atualizar sobre a relevância desse importante polo de ciência, vamos entrevistar a pesquisadora científica Erika Hingst-Zaher, do Museu Biológico do Instituto Butantan. Para ela, “a ciência pode mudar o mundo”.

Nos conte um pouco sobre a missão do Instituto Butantan. Quais são seus objetivos e como se organiza?

Erika Hingst-Zaher – O Instituto Butantan é uma das mais antigas e reconhecidas instituições de pesquisa do Brasil, criada em 1900 para combater a peste bubônica que então chegava ao país. Além da produção bem-sucedida do soro antipestoso, o primeiro diretor do Instituto, o médico Vital Brazil, teve papel de destaque no debate internacional sobre o tratamento de acidentes ofídicos. 

Na época, defendia-se que apenas um soro seria suficiente para tratar todos os tipos de picadas de cobra, entretanto Brazil, que conduzia as pesquisas sobre a produção do soro e campanhas junto ao público, para evitar os acidentes, propunha uma ideia diferente: para diferentes grupos de serpentes e tipos de veneno seriam necessários tipos diferentes de soros, o que hoje sabemos que é fundamental

Hoje, com 120 anos de existência, o Butantan é organizado em três grandes áreas: pesquisa, produção e área cultural. A pesquisa feita aqui é muito diversa, indo desde a biologia animal, venenos, epidemiologia, imunologia, identificação de genes e proteínas e muitas outras áreas. Na produção de vacinas e imunobiológicos, somos responsáveis por metade da produção nacional de vacinas e praticamente todos os soros distribuídos pelo SUS

O Instituto atua também no ensino, através de sua pós-graduação e formação de alunos de diversas áreas, e mantém uma forte comunicação com o público, através de seu papel que vai além da pesquisa: a educação e a divulgação científica. Um grande número de escolas e visitantes espontâneos visitam os museus e frequentam o parque que abriga uma floresta urbana com rica fauna e vegetação, na zona oeste de São Paulo. 

Como você avalia a importância do Instituto Butantan no desenvolvimento da ciência no Brasil?

Erika Hingst-Zaher – A criação dos institutos de pesquisa foi uma tendência mundial no final do século XIX, quando os governos e parcelas mais esclarecidas da sociedade se deram conta de que o conhecimento e o controle de doenças eram fundamentais. O tipo de pesquisa realizada nas instituições como o Pasteur, em Paris, e o Instituto Ingês de medicina Preventiva, em Londres, divergia das universidades que já existiam na época por seus resultados mais rápidos e aplicados. Nessa época, no Brasil, especialmente em São Paulo, foram organizados institutos públicos de pesquisa nas áreas de saúde, agricultura e meio ambiente, como os Institutos Butantan, Pasteur, Biológico, Botânica, Florestal e Geológico. 

Desde então, os governantes paulistas com visão mais ampla, bem como a FAPESP, investiram na consolidação deste sistema público de Ciência, Tecnologia e Inovação que é único no Brasil. O Instituto Butantan, vinculado à secretaria do estado de Saúde, é parte desta estrutura que faz com que São Paulo seja o estado que mais produz ciência no Brasil, e os pesquisadores que trabalham aqui e nos outros institutos são parte de uma carreira especial, a de pesquisador científico.  

Quais são os projetos do seu departamento? E como é a sua rotina no Instituto Butantan?

Erika Hingst-Zaher – Eu sou um dos quatro pesquisadores do Museu Biológico, o museu mais antigo do Butantan e único a apresentar cobras vivas. Os pesquisadores, alunos e funcionários do museu combinam dois tipos de atividade: a pesquisa com animais e a divulgação científica. Os outros pesquisadores estudam principalmente serpentes, através de trabalhos de campo e dos animais mantidos em cativeiro.

Minha formação como bióloga, desde a graduação até o meu doutorado, se deu especialmente nas áreas de zoologia e ecologia de vertebrados, e ainda na conservação do meio ambiente, o que me permitiu uma diversificação de projetos que atende a mais de uma área de pesquisa no Instituto Butantan. Os dois principais no momento são com evolução e diversificação de veneno nas serpentes, e de vigilância epidemiológica para patógenos como o coronavírus e o vírus da influenza em aves e morcegos. 

No primeiro, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pela National Science Foundation (NSF), trabalho junto com outros pesquisadores do instituto e também de universidades norte-americanas estudando as serpentes e suas glândulas, e a composição do veneno, e ainda na parte de comunicação para o público dos resultados que obtemos. Poucas pessoas já pararam para pensar que o veneno das serpentes tem o propósito para estes animais de capturar sua presa (e não de picar pessoas), ele surgiu e se diversificou para isso. E ainda menos pessoas sabem que o veneno é um coquetel de proteínas que varia muito, mesmo dentro da mesma espécie de serpentes e até em uma mesma cobra ao longo de sua vida. 

No segundo, chamado de Projeto Rede de Vigilância de Vírus (PREVIR), juntamente com pesquisadores da USP e de outras universidades e institutos de pesquisa do Brasil inteiro, formamos uma rede que monitora constantemente a presença de vírus em aves e morcegos, que podem vir a causar problemas de saúde ou econômicos. Esse projeto financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) começou no final de 2020 e, através dos observatórios e de pontos de coleta em locais estratégicos do país, como a Amazônia e a Floresta Atlântica, procura detectar os problemas antes que eles surjam, para que possamos estar prontos e produzir vacinas antes que novos vírus atinjam populações humanas.

O problema com os vírus e com outros patógenos que podem ser prejudiciais para nós, por incrível que pareça, está ligado à conservação do meio ambiente. O desmatamento e a perda de hábitats levam ao desaparecimento de algumas espécies e ao rearranjo na estrutura das comunidades de animais silvestres que, juntamente com outros fatores, como o contato com animais domésticos ou o consumo de caça, possibilitam que as epidemias surjam entre nós. 

Essa abordagem que junta a saúde humana e a conservação dos ecossistemas é relativamente recente, embora seja intuitiva – afinal, como cuidar da saúde humana sem olhar para a saúde do planeta, para a água que bebemos, o ar que respiramos, a origem dos nossos alimentos e a forma como produzimos e a nossa relação com a natureza?. A Organização Mundial de Saúde (OMS) chama essa abordagem de “One Health”, ou saúde única

Além destas e de outras linhas de pesquisa que combinam a saúde humana e a saúde e conservação do meio ambiente, juntamente com meus alunos e colegas pesquisadores, também produzo material de divulgação científica, exposições e atividades para o público do Butantan. 

Ainda durante meu pós-doutorado no Museu de Zoologia da USP, me preocupava com as questões relacionadas ao meio ambiente e o que os cientistas, assim como eu, sabiam que poderia acontecer com a biodiversidade. Só que este é um problema de comunicação: muitas vezes, os cientistas deixam de comunicar para o público descobertas importantes que podem fazer a diferença para nosso bem-estar e para a sobrevivência do planeta. 

Tendo isso em mente, fiz uma especialização em comunicação científica na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), o que me deu uma base para atuar no Museu Biológico na parte de divulgação da ciência. Essa parte do meu trabalho, na qual desenvolvo materiais e atividades para o público na área de biodiversidade, é extremamente gratificante, e envolve não apenas exposições e filmes, mas também atividades como caminhadas para a observação da fauna e da flora na floresta do Instituto. 

Você já liderou equipes e desenvolveu diversos projetos em parceria com o Instituto Ekos. Quais desses projetos foram os mais relevantes e quais os resultados?

Erika Hingst-Zaher – Trabalho em colaboração com o Instituto Ekos desde 2005 elaborando planos de manejo de áreas protegidas, como parques estaduais e estações ecológicas, e propondo a criação de novas áreas destinadas à conservação. Foram sempre trabalhos extremamente enriquecedores, com o convívio com pesquisadores de outras áreas e com a equipe do Ekos. 

De todos estes trabalhos, aquele do qual mais me orgulho, e que me traz imensa felicidade foi a proposta para a WWF de criação de uma grande área protegida na restinga de Bertioga, atualmente o Parque Estadual da Restinga de Bertioga. Esta área é extremamente importante e única em sua biodiversidade, já que é uma faixa litorânea de vegetação com origem e formação diferente do restante da Floresta Atlântica e sofria grande pressão para desenvolvimento de empreendimentos imobiliários e turismo. 

Com isso protegemos diversas espécies ameaçadas e um patrimônio único.  

Quais são os desafios que você, como pesquisadora científica, enfrenta hoje no Brasil?

Erika Hingst-Zaher – Sem dúvida o maior desafio é o sucateamento da ciência e a falta de apoio dos governantes às pesquisas de longa duração e à manutenção da estrutura, universidades e institutos onde a pesquisa é feita no Brasil. A carreira de pesquisadora científica não tem mais o prestígio e o apoio que tinha no passado. Vejo meus colegas se aposentando, enquanto não se abrem novas vagas para substituí-los ou para continuarem suas linhas de pesquisa. 

O mesmo se passa com os institutos de pesquisa, que até então foram um dos grandes diferenciais para a produção científica no estado. As incertezas sobre financiamento e bolsas para alunos de pós-graduação desenvolverem seus projetos afasta muitos jovens promissores da possibilidade de seguir uma carreira acadêmica na ciência. 

Mas não quero falar apenas das coisas negativas. Assisti no decorrer do último ano um interesse renovado da sociedade, em geral nos cientistas e na ciência que é feita no Brasil, e espero que isso faça com que os governos, em vários níveis, voltem seus olhos também à importância de avançarmos com a ciência pura e aplicada e para sua importância à soberania nacional, a exemplo do que se faz em países desenvolvidos. 

Que mensagem você daria aos novos pesquisadores que estão iniciando carreira no país?

Erika Hingst-Zaher – Neste mês de março, quando pensamos mais nas meninas e nas mulheres, queria deixar minha mensagem especialmente para elas que, frequentemente quando estão crescendo, acreditam menos em si mesmas. Isso porque quando chegamos na pós-graduação ou no exercício da profissão na área acadêmica, vemos menos mulheres presentes em bancas e congressos, ficamos menos à vontade para fazer perguntas após palestras e apresentações, recebemos menos convites para reuniões científicas e bancas de pós-graduação e concursos, e levamos a responsabilidade maior na dupla jornada com os cuidados da casa, dos filhos e da família. 

Queria dizer para todas que a ciência é sim uma atividade para as mulheres e que temos a capacidade de seguir carreira em STEM (termo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Além disso, enquanto cientistas, frequentemente orientamos alunos de forma melhor, com mais suporte emocional, além de profissional

Tenho a sorte de ao longo da minha formação ter tido colegas mulheres na ciência sensacionais, que me mostraram que podemos fazer muito além e melhor. No Instituto Butantan, as mulheres têm uma posição de destaque na coordenação e na condução de pesquisa de ponta. Tenho também a sorte de ter a inspiração de zoólogas brasileiras ou radicadas no Brasil, como Emilie Snethlage e Bertha Lutz, que foram expoentes em suas áreas e lutaram pelo direito das mulheres em várias frentes, abrindo caminho para quem veio depois. 

Minha mensagem é para as meninas e mulheres que gostariam de fazer pesquisa, para que não desistam se seus sonhos, de sua vontade. Apesar de todos os desafios, muitos dos quais mencionei aqui, a ciência pode nos estimular e nos mover para diante. A ciência pode mudar o mundo. 

Leia também: Especial Dia Mundial da Agricultura Johanna Döbereiner: a mulher que transformou a agricultura brasileira. 

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Brasil passa a fazer parte do Protocolo de Nagoia sobre biodiversidade

Brasil passa a fazer parte do Protocolo de Nagoia sobre biodiversidade

O Brasil depositou na Organização das Nações Unidas (ONU) a carta de ratificação do Protocolo de Nagoia, que regulamenta o acesso e a repartição de benefícios, monetários e não monetários, dos recursos genéticos da biodiversidade. De acordo com nota conjunta dos ministérios das Relações Exteriores e do Meio Ambiente, o documento assinado pelo presidente Jair Bolsonaro foi entregue ontem (4) à ONU.

O protocolo é um acordo multilateral acessório à Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), elaborada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Eco-92), realizada no Rio de Janeiro em 1992. Ele foi concluído durante a 10ª Conferência das Partes da Convenção (COP-10), em 2010, em Nagoia, no Japão, e assinado pelo Brasil no ano seguinte,em Nova York.

O documento tem por objetivo viabilizar a repartição justa e equitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos da biodiversidade, como plantas, animais e micro-organismos, e dos conhecimentos tradicionais a eles associados. O tratado abrange pontos como pagamento de royalties, estabelecimento de joint ventures (associação de empresas), financiamentos de pesquisa, compartilhamento de resultados e transferência de tecnologias e capacitação.

Como é um tratado internacional, a entrada em vigor no Brasil dependia de aprovação do Congresso Nacional. Em agosto do ano passado, o documento foi então aprovado pela Câmara e pelo Senado e promulgado em decreto legislativo. “A entrega da carta de ratificação encerra um processo de debates que se estendia há anos no âmbito do governo federal e do Poder Legislativo. O engajamento do governo e o compromisso estabelecido entre representações do agronegócio e da área ambiental propiciaram a conclusão do processo de ratificação”, diz nota conjunta.

De acordo com o governo, o Brasil poderá participar das deliberações futuras no âmbito do protocolo, que ocorrerão já a partir da próxima Conferência das Partes da CDB, “na qualidade de país que dispõe de legislação avançada sobre biodiversidade e repartição de benefícios e que conta com um setor agropecuário moderno, com inestimáveis recursos genéticos derivados de seu patrimônio ambiental”.

Para os ministérios, a adesão do país ao Protocolo de Nagoia contribuirá para trazer segurança jurídica aos usuários e fornecedores de material genético e poderá desempenhar papel importante no processo de valorização dos ativos ambientais brasileiros, sobretudo no âmbito do pagamento por serviços ambientais e no desenvolvimento da bioeconomia.

“O Brasil reafirma seu compromisso com o desenvolvimento sustentável e seu engajamento com o sistema multilateral, ao mesmo tempo em que persegue sua autonomia tecnológica e econômica e o fortalecimento da soberania sobre os recursos naturais em seu território”, finaliza a nota.

Edição: Graça Adjuto

Fonte: Agência Brasil