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O ITRC (Conselho Interestadual de Tecnologia e Regulação dos Estados Unidos) definiu em 2017 o termo “Área Contaminada Complexa” como “local onde não é esperado que ações de remediação levem ao fechamento da área ou facilitem a transição desta para um gerenciamento sustentável de longa data em um espaço de tempo razoável”.
Na prática, o termo indica que é esperado que seja necessário um tempo muito maior para que sejam atingidos os objetivos propostos para aquela área, em comparação com casos típicos de áreas contaminadas.
A complexidade da área se dá pela presença de diversos atributos que geram desafios para o processo de gerenciamento da contaminação.
Estes atributos podem estar relacionados, por exemplo, à geologia local, à presença de múltiplas áreas fontes, grande variedade de contaminantes presentes e à distribuição heterogênea de contaminantes na subsuperfície, entre outros.
Apesar do termo ser relativamente recente, áreas contaminadas complexas podem ser identificadas em diversos cantos do planeta, gerando tipicamente maiores custos e a necessidade de investigações e planejamentos ainda mais detalhados.
Em contrapartida, por conta de sua extensão e longa duração, também acabam oferecendo maiores oportunidades de inovação, redução de custos globais, redução de sua pegada de carbono e geração de benefícios sociais significativos.
Este tema é muito discutido e avaliado entre as diversas áreas e profissionais ambientais, sempre abrindo espaço para novas oportunidades de inovação, estudos e interpretações diferentes no assunto. E para você? O que é uma área contaminada complexa? Deixe sua resposta nos comentários!
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“Tornei-me geólogo por vontade de conhecer outras terras e por espírito aventureiro. Sabia que essa profissão me abriria o caminho para o mundo”, Ernesto Moeri.
Ernesto Moeri nasceu em Berna, na Suíça, em 6 de dezembro de 1945. Uma guerra chegava ao fim e uma vida inspiradora começava.
Sem a presença de petróleo e minérios na Suíça, Ernesto veio parar no Brasil para estudar nossas formações calcárias. Aqui, viajou semanas sozinho, sem poder fazer ligações telefônicas e isolado de grandes cidades. De bom coração, como sempre, não descreveu a viagem por suas aventuras…
“O que me marcou foi o encontro com essas pessoas no norte de Minas Gerais, pobres e orgulhosas, que lutavam sem reclamar contra a escassez da natureza. Personalidades fortes e hospitaleiras, mesmo se mal tivessem frequentado os bancos escolares.”
Pouco tempo depois, teve a oportunidade de cursar um doutorado nos Pirineus. Estudou a formação de sedimentos em águas rasas e como as conclusões obtidas sobre temperatura e quantidade de oxigênio dos mares pode ser extraída a partir de informações contidas nas formações rochosas. Uma experiência científica fascinante e importante para a exploração de petróleo.
Trabalhou então nos Estados Unidos, na Groenlândia, na Bolívia e finalmente recebeu uma proposta de uma empresa alemã para retornar ao Brasil. Aqui, passou a pesquisar sobre jazidas de carvão e calcário para a produção de ferro, caulim, cobre e ouro, na região amazônica.
“Era uma maneira emocionante e fascinante de conhecer o Brasil. E, principalmente, conheci pessoas maravilhosas, e vi como muito trabalho e confiança mútua conseguem mover montanhas.”
Na vida pessoal, Ernesto tornou-se também um esposo, um pai e um avô amoroso, com o início de uma família no Brasil.
No ano de 1992 nosso país sofria de uma inflação extremamente alta. As cidades estavam em expansão, cinturões industriais se transformavam em áreas residenciais e os depósitos de lixo, desregulamentados, se transformavam em um perigo para a saúde das pessoas.
Ernesto era especialista em solo e junto com alguns colaboradores transformaram a proteção ao meio ambiente em um novo campo de negócio. “Eu amava o Brasil e porque amava o país, enxergava seus problemas e dessa maneira, nossas chances.”
Por aqui, desenvolveram muito o setor de geotecnia com a nova empresa formada, a Geoklock, e puderam se envolver em projetos de alto risco tanto para a sociedade quanto para o meio ambiente.
O trabalho, realizado com afinco, objetividade, responsabilidade e muita inovação tecnológica, garantiu a Ernesto e seus colaboradores a fidelidade que precisavam de autoridades e clientes. Com a Geoklock, Ernesto auxiliou muitas empresas a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa e a racionalizar seu consumo de água.
“Nosso trabalho nos sensibilizou para a vulnerabilidade da natureza. Ele nos mostrou que há apenas um único planeta Terra e que suas riquezas precisam ser protegidas.”
Em 2001, pelas mãos de Ernesto nasce também o Instituto Ekos Brasil. A ideia? Trabalhar pela preservação da biodiversidade e promoção da sustentabilidade.
O Instituto Ekos canalizou o grande potencial de seu fundador em utilizar tecnologias inéditas nas áreas de remediação sustentável. E assim teve início o maior evento de remediação da América Latina, o Seminário Ekos Brasil que já completou 13 edições.
Além da remediação, o Instituto Ekos Brasil também trabalha em projetos investimento de impacto e conservação da biodiversidade, sendo um importante intermediário entre grandes empresas e proponentes de projetos de desenvolvimento socioambiental.
“A sustentabilidade aponta o caminho e ela deve ser rentável tanto para nós quanto para nossos clientes. O tratamento cuidadoso com os recursos de nossos próprios colaboradores também faz parte da sustentabilidade e não faz mal se para isso for preciso diminuir um pouco os lucros.”
Entre os projetos mais amados por Ernesto estava o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Minas Gerais. Detentor de uma natureza exuberante, de cavernas espetaculares e de uma riqueza inigualável em arte rupestre. Tão único e de espírito livre como seu protetor!
Em 2007, Ernesto conquista um novo sonho. Aprende a pilotar aviões e agora pode unir várias de suas paixões: geologia, fotografia e aeronáutica. Assim, desbravou a Amazônia e os Andes e sonhava em fazer uma viagem de volta ao mundo.
E foi nutrido de todas essas paixões que ele nos deixou, ao pilotar e registrar do alto a região de Jacareacanga, no Pará, no dia 23 de fevereiro de 2019, aos 73 anos.
Dizemos nos deixou em sentidos ambíguos. Deixou esta terra, mas deixou também seu legado de paixão pela vida, pela natureza, pela família e pela sustentabilidade. Todas paixões prazerosas, que acompanharam Ernesto até o fim.
“Afinal, o trabalho também tem que proporcionar prazer, assim como me proporcionou durante toda uma vida.”
* As falas são de um texto que ele mesmo escreveu, para uma revista.
A expressão créditos de plástico logo nos remete à uma analogia com créditos de carbono. Apesar de diferentes e em curvas de maturidade bem distintas, a lógica é mesmo parecida, com empresas que geram incentivos econômicos como forma de compensação para projetos que reduzem o impacto ao meio ambiente.
Um crédito de plástico corresponde a uma unidade transferível que representa uma quantidade específica de resíduos de plástico. Ao comprar esse crédito de algum projeto que certificadamente destina corretamente e recicla resíduos sólidos, as empresas “neutralizam” tal impacto.
Como o assunto é muito novo, ainda enfrenta desafios e críticas.
Se por um lado, a popularização dos créditos pode trazer investimentos valiosos para financiar projetos, inovações e tecnologias para coleta e reciclagem de resíduos sólidos, além de gerar uma nova fonte de renda para famílias de catadores, como é o caso do Brasil, por outro, a iniciativa também tem gerado reflexões mais profundas no setor.
A primeira delas é que a compensação não pode servir de “escudo” para que as empresas continuem a produzir mais plástico. De acordo com a ONU, a cada ano, cerca de 8 milhões de toneladas de plástico chegam aos nossos oceanos.
Por isso, compensar comprando créditos de plástico não pode ser uma iniciativa isolada, mas deve compor um modelo de gestão de resíduos, no qual a compensação entra em cena apenas após todos os esforços de redução, reuso e reciclagem. Antes de mais nada, é preciso combater o excesso e a chegada do plástico à natureza.

Outro ponto de atenção está na pouca padronização com relação aos materiais e certificações. É justo, por exemplo, que uma empresa que produz sachês como de ketchup, amostras de xampu ou sacolinhas, muito difíceis de serem coletados, compense com créditos provenientes de garrafas pet ou mamadeiras? E ainda: como são poucas as empresas que oferecem créditos de plástico, mesmo as terminologias não são padronizadas, como por exemplo, plástico oceânico. Será que vem exclusivamente do oceano, da costa ou ainda inclui aquele plástico que tem potencial de chegar ao oceano?
No início deste ano, a Verra e a 3R Iniciative lançaram um Padrão de Redução de Resíduos Plásticos com o intuito de melhorar as regras e solidificar o mercado. A metodologia inclui o estabelecimento de normas e requisitos para que os projetos possam ser certificados; a obrigatoriedade de auditorias independentes de escritório e campo para garantir que os padrões sejam atendidos; métodos sólidos e técnicos de quantificação de coleta ou reciclagem para esse tipo de projeto; e a possibilidade de inclusão no Verra Registry, um depósito central de todos os projetos registrados com rastreio da geração, da retirada e do cancelamento dos créditos de plástico.
O caminho ainda é longo para uma maior maturidade desse mercado. Hoje em dia, créditos de carbono, por exemplo, já são associados a uma mudança de todo um modelo de gestão dentro das empresas, já bastante distante de apenas contabilidade e compensação de carbono. No mercado de emissões, créditos só fazem sentido se estão atrelados a benefícios socioambientais, causando impactos positivos não apenas na natureza, mas nas pessoas, nas comunidades.
De toda forma, o caminho é também promissor, especialmente para o Brasil. Por aqui, temos a Política Nacional de Resíduos Sólidos e ter um mercado de incentivo à economia circular, contemplando todas as nossas cooperativas de catadores com mais recursos, tecnologia e geração de renda é, certamente, uma boa notícia.
Enquanto os créditos de plástico não atingem tal maturidade, aproveite para conhecer o Programa Compromisso com o Clima. Compense as emissões de carbono da sua empresa de forma simples, segura e escalável, ao lado de grandes organizações, e gerando impacto e sustentabilidade de forma colaborativa.
Entrevista exclusiva com a pesquisadora científica Natália Macedo Ivanauskas.
Lado a lado com as mudanças climáticas e a perda de habitat, as espécies exóticas invasoras são uma das principais ameaças à conservação da biodiversidade, mas pouco se fala sobre isso. Ao ameaçar a flora ou a fauna nativa, causam problemas ambientais, econômicos e de saúde pública e, uma vez estabelecidas, geram ações dispendiosas e complexas para erradicação, controle, monitoramento e restauração dos ecossistemas.
Sem dúvida, o maior exemplo que temos atualmente é a própria pandemia do coronavírus, com origem na China e que ao “invadir” outro território foi capaz de se reproduzir e se disseminar rapidamente, provocando consequências alarmantes.
Por isso, para entender melhor o que são as espécies exóticas invasoras e os desafios dessa temática no Brasil, convidamos para uma conversa a pesquisadora científica do ex-Instituto Florestal e atual Instituto de Pesquisas Ambientais, Natália M. Ivanauskas.
“Primeiro, é preciso compreender que nem toda espécie exótica é invasora. Espécie exótica é uma espécie que ocorre em um determinado ambiente, mas foi introduzida pelo homem em outro ambiente, portanto não estaria ali de forma natural. O conceito de exótica é delimitado pelo território, ou seja, pode ser exótica no Brasil, no Cerrado, em determinada bacia hidrográfica etc. Já a invasora é uma espécie exótica que, ao ser introduzida pelo homem proposital ou acidentalmente, acaba afetando o ecossistema naquela área/região, causando um prejuízo para a biota local. Ela se estabelece, consegue sobreviver sozinha, se reproduz e passa a ser invasora quando a partir daquele local se dispersa e expande sua distribuição sem que precise de ação humana”, explica a pesquisadora.
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o Brasil possui 559 espécies exóticas invasoras em avaliação, sendo 271 delas encontradas em Unidades de Conservação.
“Um caso que podemos citar é do palmito-juçara (Euterpe edulis). Essa palmeira é uma espécie-chave para a Mata Atlântica, pois seus frutos são muito apreciados pela fauna. Está ameaçada de extinção porque tem um caule do tipo estipe que é cortado para a obtenção do palmito, e assim a palmeira morre. Tentando resolver o problema da exploração predatória dessa espécie, foram trazidas da Amazônia mudas do palmito-açaí (Euterpe oleracea) para produzir um híbrido do açaí com o juçara, o “juçaí”, para que ele pudesse perfilhar (ter vários caules), assim o corte do palmito não mataria a planta. Mas deu muito errado, porque tanto o açaí como o híbrido juçaí competem por polinizadores e dispersores, o que diminui a produção de frutos do palmito-juçara, que pode ser extinto nessa disputa desigual.. Agora está em curso um grande projeto que busca o enriquecimento da floresta atlântica paulista com o palmito-juçara, principalmente nas unidades de conservação do Vale do Rio Ribeira de Iguape”, conta Ivanauskas.
E, de fato, são muitos os outros exemplos. Apenas para citar alguns: o sagui-do-nordeste (primata de pequeno porte da espécie Callithrix jacchus ) foi transportado para a região sudeste do Brasil como animal de estimação, via tráfico de animais silvestres, colocando em risco a população de sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), pois o cruzamento das duas espécies de saguis também formam híbridos que ameaçam a população local; o javaporco resulta do cruzamento do porco doméstico (Sus scrofa domesticus) com o javali-europeu (Sus scrofa scrofa); esse híbrido ultrapassa os 100 kg e ameaça os animais nativos menores, como caititu (Pecari tajacu) e queixada (Tayassu pecari) , causa prejuízos às plantações e pode transmitir doenças para as pessoas; o mosquito Aedes aegypti tem origem no Egito e causa a zica, a dengue e a chikungunya; os capins africanos (Urochloa spp.)servem de pastagem para o gado, mas invadem áreas campestres naturais no Cerrado e a borda de florestas, assim como o pinheiro-americano (Pinus elliottii); no ambiente marinho temos o coral-sol (Tubaestra spp.) e o mexilhão-dourado (Limnoperma fortunei), e nos rios a tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) e o bagre-africano (Clarias gariepinus).
Existem também plantas ornamentais muito usadas no paisagismo de parques e jardins e que são exóticas invasoras. Um exemplo ocorre no Parque Trianon, na Avenida Paulista, e em outros remanescentes da Mata Atlântica da cidade de São Paulo, com a invasão da palmeira-australiana (Archontophoenix cunninghamiana) introduzida para uso ornamental. Antes do Trianon, o controle dessa palmeira invasora foi testado na “matinha” da USP, reserva de mata atlântica na cidade universitária, coordenado pela Profa. Dra, Vânia Pivello.
“E quando as palmeiras foram cortadas, a pressão contrária foi da própria população que achava que estávamos cortando “a flora”, tirando o alimento dos animais. Foi necessário um amplo trabalho de educação ambiental. Portanto, a desinformação também é um dos entraves para o manejo das espécies exóticas invasoras. Quando tentamos utilizar técnicas como fogo e herbicidas para controle de invasoras, temos resistência até entre cientistas. E às vezes é um mal necessário e aplicado uma só vez para resolver o problema”, explica Ivanauskas.
Outro entrave também vem do mercado econômico que, em casos como da tilápia, da braquiária e até mesmo de plantas ornamentais, faz pressão para que as espécies não sejam rotuladas como exóticas invasoras, com receio de perderem valor comercial ou por dificultarem processos de certificação.
De toda forma, de acordo com a pesquisadora, o conhecimento e o controle dessas espécies melhoraram nos últimos anos. Desde a Rio 92, intensificaram-se os estudos, grupos de trabalho, e foram elaboradas listas nacionais, estaduais e municipais para conhecimento público. Parte dessas iniciativas foram incentivadas e ampliadas pelo Ministério do Meio Ambiente que, desde 2009, conduz a “Estratégia Nacional para Espécies Exóticas Invasoras”.
Em 2019, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) lançou um guia de orientação para o manejo de espécies exóticas invasoras em unidades de conservação federais. Encontra-se em elaboração o diagnóstico brasileiro sobre espécies exóticas invasoras da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), previsto para o primeiro semestre de 2023. São documentos-síntese que informam o melhor meio de realizar a rápida detecção e o controle de processos de invasões biológicas, mas a pesquisadora ressalta que a prevenção ainda é o mais importante, porque é a ação mais barata e mais eficiente.
Pouco conhecida e confundida como vegetação morta, a floresta de mata seca está presente em diferentes biomas do Brasil, como mata atlântica e caatinga.
No Dia de Proteção às Florestas (17), destacamos a biodiversidade e as belezas de uma floresta pouco conhecida e muito desvalorizada. Chamada internacionalmente de Floresta Tropical Seca, no Brasil ela recebe outro nome popular: mata seca. Essa floresta traz consigo riquezas na época de umidade e uma incrível habilidade de adaptação à secura do excesso de frio ou de calor.
Em entrevista ao Instituto Ekos Brasil, Mario Marcos do Espírito Santo, mestre e doutor em ecologia pela UFMG e professor da Universidade Estadual de Montes Claros, traz detalhes sobre a floresta e caminhos para sua valorização em solo brasileiro.
Mario Marcos – Mata seca é uma denominação de uso comum, seu nome científico é Floresta Estacional Decidual, que significa uma floresta localizada em regiões com estações bem delineadas (estacional), nesse caso chuvoso e seco, e que perde mais da metade de suas folhas (decidual). Apesar das discussões sobre o que é uma floresta, dizemos que ela tem porte florestal, mas é muito confundida como uma vegetação morta, dada a perda de suas folhas.
Podemos separá-la em dois tipos principais: uma tropical, localizada de Minas Gerais para cima, e uma subtropical, ao sul do país. A diferença é que as folhas caem no sul por causa do frio, enquanto acima pela seca. No norte de Minas ela pode chegar a perder 90% de suas folhas, daí o nome popular mata seca, porque quando chegamos na floresta ela está realmente muito seca. Já na época das chuvas, ela se assemelha a uma mata atlântica, porque é bem volumosa.
Encontramos essa formação vegetal em quase todos os continentes. Em uma escala global existe a denominação Floresta Tropical Seca, que teria como parte a mata seca. No Brasil não se reconhece a mata seca como bioma e a encontramos principalmente na Caatinga, no Cerrado e na Mata Atlântica. A Caatinga é por alguns estudiosos internacionalmente considerada uma Floresta Tropical Seca, mas a Caatinga não tem o porte florestal em toda a sua extensão, em sua maioria possui um porte arbustivo. Outra característica encontrada em alguns casos é que há matas secas que possuem muitas plantas com espinhos, mas esta não é uma característica geral.
Mario Marcos – Pelo fato delas não serem tão “exuberantes”, no sentido de não atrair tanta atenção como as florestas úmidas, não pensamos nela como uma floresta. Inclusive o nome Caatinga significa mata branca em Tupi, então ela seria a própria mata seca. Por isso, por não considerarem ela rica em biodiversidade, não atrai a atenção do público nacional ou internacional, o que a deixa com falta de atenção. Isso faz com que elas tenham menos pesquisas científicas, o que torna as chances de você conseguir recursos para estudá-las bem curta.
Se formos olhar, a discrepância é enorme entre artigos científicos sobre a mata seca e demais florestas. Se você propuser a criação de recuperação de áreas degradadas, de conservação, é bem menor as chances de conseguir recursos para a mata seca. Então, a chave seria reconhecer a mata pela sua biodiversidade, tanto de flora e fauna, e de recursos ecossistêmicos que ela propicia, como evitar a erosão do solo, sequestrar carbono, diminuir as mudanças climáticas e serem fontes de agentes de controles biológicos. Portanto, o primeiro passo é reconhecê-las como igualmente importantes.
As ameaças que ela sofre outros biomas também sofrem, mas, as florestas úmidas possuem maiores proteções. Na Amazônia a taxa de preservação deve ser de 80%, em outros biomas brasileiros esse número cai para 20%, portanto se eu compro uma terra, tenho que deixar apenas 20% de floresta preservada. Já a Mata Atlântica, está protegida desde 1993 por ferramentas legais que protegem muito mais ela do que outros biomas brasileiros. Isso porque tínhamos apenas 7% da Mata Atlântica preservada no final de 1980 e início de 1990, porque ela sofreu mais desde a chegada dos europeus em solo brasileiro.
Agora, tem um pequeno porém que favorece a mata seca. A Lei da Mata Atlântica (2006) incluiu as florestas decíduas. Isso tem muito a ver com a flora existente nesses ambientes, que teriam elementos de um mesmo bioma. Isso é algo que é difícil de argumentar, apesar das discussões que envolvem este tema. É um critério que chamamos de florísticos. Isso gerou muita controvérsia principalmente no norte de Minas Gerais, quando ruralistas e parte da população criaram outdoors “mata seca não é mata atlântica”.
O IBGE divulgou um mapa de aplicação desta Lei (2008). Nessa época, quando deputados estaduais tentaram nomear a mata seca como uma vegetação específica do Estado, tivemos que fazer um estudo para manter as matas secas de MG nesta Lei. É extremamente necessário lutarmos para que a mata seca permaneça na Lei da Mata Atlântica para que ela seja preservada.
Atualmente estou trabalhando em um artigo que trata de uma análise formal, estatística, mais robusta que mostre a separação da mata seca no brasil, seguindo os estudos das maiores autoridades em mata seca do mundo, que conheci enquanto professor visitante na Universidade Exeter da Inglaterra.
Mario Marcos – As matas secas são o lar de vários povos e comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas, que historicamente deixaram essas matas razoavelmente preservadas. O uso para o extrativismo seria uma forma sustentável que seguiria preceitos agroecológicos de manejos tradicionais destes povos. Os turismos de base comunitária, associado aos povos tradicionais, e sustentável, com espécies de faunas, seriam atrativos.
Hoje, a maior parte do país tem a pecuária extensiva como foco, é um elemento cultural, mas que pode ser feita de maneira sustentável, já que há formas de manejo menos impactantes. A própria EMBRAPA tem direcionamentos de manejos mais sustentáveis, como usar menos pesticidas, não utilizar a queima da vegetação e recuperação de áreas degradadas como uma ferramenta. Vende-se muito o argumento de que perderão milhões de cargos de emprego caso permaneça preservando a vegetação, argumentos falsos e sem embasamentos. Portanto precisamos rebater esse discurso de que o desmatamento é a solução para o Brasil.
Mario Marcos – A beleza da mata seca é a variação do período seco para o chuvoso. Portanto, precisamos alterar a noção de que os ecossistemas secos não têm o mesmo valor, tanto em termos de diversidade ecológica como de cultural. É importante mostrar que são ambientes que, além de biodiversos, são cheios de cavernas, matas secas associadas a solos de origem calcária, flora distintiva e riva; são bem peculiares devido a perda das folhas; agrupam vários animais ameaçados de extinção e possuem diversas culturas associadas a mata seca que sabem o que plantar, como usar as vazantes do rio, etc. Então acho que seria extremamente interessante ressaltar seus aspectos bonitos e demonstrar que ela é um espaço onde a natureza e o ser humano conseguem viver em harmonia.
Há 25 anos, a pesquisadora, cientista e coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), Patrícia Médici, dedica sua vida à preservação da fauna brasileira. Dado seu trabalho no Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), na qual é co-fundadora, foi prestigiada, em 2020, como ganhadora do grande prêmio Whitley Gold Awards – também conhecido como Óscar da Conservação.
Convidamos Patrícia para um bate-papo exclusivo sobre os desafios de ser cientista no Brasil e sobre sua pesquisa com as antas brasileiras.
Patrícia Medici – É bem complexo fazer conservação de espécies no Brasil visto que a maioria dos editais não têm foco neste tipo de ciência. Conseguir recursos no país para trabalhar, é quase que impossível. Cerca de 95% dos financiamentos para os projetos que coordeno há 25 anos vêm de fora, são internacionais. Então essa é uma grande dificuldade.
Por outro lado é um grande desafio preparar os conservacionistas do futuro, que são os jovens que precisam de capacitação, treinamento e oportunidades que nós, grandes projetos, deveríamos poder dar naquele início de carreira para estarem preparados e assumirem o bastão quando não estivermos mais na ativa. E é muito complexo dar essa oportunidades levando em consideração que é quase virtualmente impossível conseguir bolsa para mestrados, doutorados e TCCs.

Uma outra questão é pura e simplesmente a falta de valorização. Nesse momento, a ciência, o pesquisador, o cientista, o conservacionista está, de uma maneira geral, bastante relegado à “escória” da produção, em termos de conhecimento no Brasil. Temos que trabalhar sozinhos com os meios com os quais é possível a gente trabalhar – com suporte internacional no nosso caso – e buscando aplicar nossos resultados para o benefício da conservação dos animais sem nenhum tipo de suporte e vontade política. É complexo.
Patrícia Medici – Bom, são 25 anos de pesquisa com a anta brasileira, uma espécie ameaçada de extinção que tem uma distribuição grande por toda a américa do sul, mas que está presente em algumas eco regiões que estão bastante degradadas, em status de conservação bastante complicados, como a Mata Atlântica, os Llanos na Venezuela, os Chaco na Bolívia e na própria Amazônica no Brasil em alguma áreas. Então a matéria de pesquisa é a anta e sua conservação.
A gente faz pesquisa científica gerando informações de altíssima qualidade, bastante robustos, que então subsidiam o desenvolvimento de estratégias de conservação desse animal nos diferentes biomas onde ela ocorre: atuamos na Mata Atlântica, Pantanal, Cerrado e estamos começando agora na Amazônia. A ideia é coletar informações in loco específicas para aquele animal naquela região, entender quais as ameaças afetando esse bicho naquela região e então, de forma multidisciplinar, ser capaz de olhar para tudo isso e criar essas estratégias, pensar onde conseguimos contribuir e tecer estratégias para implementação de ações.
Um componente muito forte do nosso trabalho é a comunicação para a conservação. Todos sabemos que a anta no Brasil tem um problema muito grande de relações públicas, é um animal usado de maneira pejorativa associado a falta de inteligência, então por meio de ferramentas de comunicação a gente tenta desmistificar essa questão.
Em termos de resultados, acredito que os principais foram relacionados à implementação de medidas de mitigação para diferentes ameaças. A gente tem um trabalho de mitigar a problemática dos atropelamentos de fauna no Mato Grosso do Sul, já fizemos o mesmo no Estado de São Paulo e estamos começando esse processo na Amazônia.
Estamos buscando trabalhar a temática da contaminação por agrotóxicos. Descobrimos que as antas no cerrado do Mato Grosso do Sul estão expostas a estes agroquímicos e contaminadas. Trabalhamos a questão da caça, buscando implementar ações de marketing social, e estamos entrando para tentar resolver a questão da mineração na amazônia e agricultura em larga escala.
Patrícia Medici – Me possibilitou, de maneira geral, fazer o que eu gosto que é estar na natureza, estar no mato, estar com a bota suja na lama. E é lá que eu saio atrás de respostas para as minhas perguntas, na verdade minhas perguntas em grande parte vem de lá, então esse é um grande fator na minha vida.

Então estamos sempre nesse processo de buscar respostas e de fazer progresso em termos de conseguir informações para o nosso objetivo de trabalho. E é a ciência que possibilita a metodologia, são as diferentes escolas científicas que nos ajudam e nos respaldam neste processo e que trazem, enfim, esses desafios e toda essa fascinação que o pesquisador e o cientista tem por fazer descobertas e gerar informações de boa qualidade.
Patrícia Medici – Uma questão muito importante para a gente ter em mente quando falamos de pantanal é que 95% do pantanal são propriedades privadas, grandes fazendas de gado que, se geridas de acordo com os modos tradicionais da criação de gado no pantanal, a gente pode ter certeza que o pantanal estará conosco por vários séculos.

O que são esses modos tradicionais? Manter a floresta porque o gado precisa da sombra; não substituir a pastagem nativa pela exótica, porque a nutrição do gado no pantanal está adaptada para essa pastagem nativa; manter a densidade baixa de animais por área, etc. E o que prejudica o pantanal é quando esses métodos tradicionais deixam de ser aplicados, geralmente por um pantaneiro que esteja buscando, desesperadamente, um retorno maior, como foi o caso da crise da carne de boi em 2008, bem quando a gente chegou no pantanal. Então temos um boom nesse período, mas ainda vemos acontecer essa mudança, principalmente nas bordas do pantanal. Portanto esse é o problema que pode vir a afetar fortemente o pantanal nos próximos anos.
A questão do fogo faz bastante parte desse processo, onde as áreas mais afetadas foram as bordas, e são de maneira geral pessoas que ou utilizaram esse método de manejo de pastagem que é o fogo – muito utilizado de maneira errônea no pantanal – ou esses proprietários que buscam aplicar modos mais intensivos de manejo de gado dentro de planície alagável e resultou nisso tudo. E agora tem todo um processo local no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul: uma gestão bastante ampla de diversas organizações, discutindo formas de reverter este processo. É de fato a maior discussão hoje em dia no que diz respeito à conservação desse bioma.
Em suma, o Aterro Sanitário é o aprimoramento de uma das técnicas mais antigas utilizadas para descarte de resíduos: o aterramento. Atualmente, é uma obra de engenharia que objetiva acomodar resíduos no solo para utilizar o menor espaço prático e causar o menor dano possível ao meio ambiente e à saúde pública.
A técnica consiste basicamente na compactação dos resíduos no solo na forma de camadas que são periodicamente cobertas com terra ou outro material inerte.
O aterro é considerado um dos métodos sanitários mais simples de destinação final de resíduos sólidos urbanos, mas ainda exige, claro, a adoção de cuidados especiais e técnicas específicas a serem seguidas, desde a seleção e preparo da área até sua operação e monitoramento.
Podemos identificar dois tipos de aterros hoje:
O aterro sanitário deve operar de modo a garantir proteção ao meio ambiente, impedindo a contaminação das águas subterrâneas pelo chorume (líquido de elevado potencial poluidor, de cor escura e de odor desagradável, resultado da decomposição da matéria orgânica) e evitando o acúmulo do biogás resultante da decomposição anaeróbia dos resíduos.
A maioria dos rejeitos que vão parar em aterros podem ser reciclados. Infelizmente, porém, este potencial é frequentemente desperdiçado, sendo os aterros ainda o principal destino de grande parte dos resíduos gerados nos centros urbanos.
Fatores de ordem técnica e econômica inviabilizam significativamente alguns processos de reciclagem, deixando como alternativa o descarte dos resíduos em aterros. Além disso, a falta de disponibilidade de recursos também é frequentemente um fator preponderante para a implantação e operação de técnicas mais avançadas para o tratamento de resíduos em diversas localidades.
Desta forma, o aterro sanitário não deve ser considerado um vilão ou uma técnica ultrapassada dentro dos processos de proteção ambiental, mas como saída atualmente empregada para o descarte disciplinado de resíduos no solo.
Fonte: ATERRO Sanitário: Definições. In: Cetesb. [S. l.], Março 2020. Disponível em: https://cetesb.sp.gov.br/biogas/aterro-sanitario/. Acesso em: 28 jun. 2021.
O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável tem engajado e pressionado cada vez mais o setor empresarial em sua transição para uma economia de baixo carbono.
Em recente artigo publicado no primeiro semestre de 2021, assinado por todas as empresas signatárias do CEBDS, a instituição apresenta de forma clara e concisa todos os ganhos e oportunidades a serem alcançados com uma maior ambição climática por parte do Brasil.
O conselho é enfático ao afirmar que metas mais ambiciosas pela neutralidade climática não são apenas possíveis, como desejáveis, para que o País avance na geração de empregos, no poder de negociação com seus principais competidores no mercado internacional, na retomada da reputação como protagonista histórico em sustentabilidade, dentre outros.
Detentor de 20% de toda a biodiversidade do planeta, o país pode se tornar o grande player mundial da bioeconomia caso ambicione metas mais ousadas do que aquelas estabelecidas em nosso NDC. De acordo com o CEBDS, tal postura seria capaz de atrair muito mais recursos internacionais do que os previstos, cerca de US$ 17 bilhões até 2030 de acordo com a organização, incrementando inclusive um crescimento vertiginoso do PIB e da produtividade agrícola.
Além disso, políticas públicas para a regulamentação de um mercado de carbono, combustível de fonte renovável e pagamentos por serviços ambientais podem alavancar a competitividade do país, que já tem vantagens em termos de matriz energética limpa e renovável, biodiversidade, recursos humanos capacitados, etc, instigando ainda mais a entrada de recursos financeiros externos.
O Conselho Empresarial afirma ainda que o Brasil tem a capacidade de reduzir suas emissões de Gases de Efeito Estufa em até 42% até 2025, em relação aos níveis de 2005, garantindo seu lugar de protagonismo na corrida pela neutralidade de carbono.
“Os desafios são enormes e entendemos que metas mais ambiciosas trarão mais oportunidades para o desenvolvimento de negócios, resultando em mais oportunidades de investimentos, de recolhimento de tributos e de geração de renda ao setor privado, à sociedade brasileira e consequentemente ao País”, conclui artigo do CEBDS.
O setor privado é, sem dúvidas, uma das engrenagens mais importantes para que metas mais ambiciosas sejam efetivas e tragam todos esses ganhos para o país, aliado, é claro, às ações da sociedade civil e do poder público.
Como evoluir a estratégia da sua empresa para contribuir com tal corrida pela neutralidade?
O Programa Compromisso com o Clima tem como objetivo engajar o setor privado em ações de responsabilidade climática. Nosso programa proporciona a compensação de emissões de forma simples e segura.
Fonte: Neutralidade Climática: uma grande oportunidade
“Uma área composta por diferentes unidades de conservação próximas, justapostas ou sobrepostas, além de outras áreas protegidas, sejam elas públicas ou privadas”, esta é a definição de Mosaico no “dicionário ambiental”. Conheça o Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu.
Em maio deste ano, o Ekos assumiu a Secretaria Executiva do Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu (MSVP), compromisso que irá perdurar por um ano e que é fruto do trabalho intenso realizado junto ao ICMBio, com o Termo de Cooperação de apoio à administração, gestão socioambiental e logística do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu (MG). O parque faz parte do (MSVP), um dos 17 mosaicos de áreas protegidas identificadas pelo Governo Federal no território brasileiro.
O MSVP é composto por 38 áreas protegidas. Onze delas constam na portaria do Ministério do Meio Ambiente que reconheceu o Mosaico em 2009, já outras 17 foram incorporadas por meio de proposições aprovadas no Conselho do Mosaico. Além disso, ainda há duas terras indígenas e oito Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).
Localizado na transição entre dois biomas, o Cerrado e a Caatinga, o Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu se encontra entre no norte e noroeste de Minas Gerais, sudoeste da Bahia e sudeste de Goiás. Ademais, ele guarda consigo “manchas” de floresta estacional ou Mata Seca. Além disso, o território do Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu faz parte da região dos Gerais, retratada de forma ímpar por Guimarães Rosa, que descreveu a riqueza cultural dos povos e comunidades tradicionais da região e seu cotidiano associado ao rico ambiente natural.
É justamente por sua riqueza inigualável que sua preservação deve ser tão intensificada.
Segundo a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), é reconhecido um mosaico “quando existir um conjunto de unidades de conservação de categorias diferentes ou não, próximas, justapostas ou sobrepostas, e outras áreas protegidas públicas ou privadas, constituindo um mosaico, a gestão do conjunto deverá ser feita de forma integrada e participativa, considerando-se os seus distintos objetivos de conservação, de forma a compatibilizar a presença da biodiversidade, a valorização da sociodiversidade e o desenvolvimento sustentável no contexto regional”.
O Ministério do Meio Ambiente (MMA) é responsável por reconhecer mosaicos, a pedido dos órgãos gestores das UC, conforme as diretrizes da Portaria nº 482 de 14 de dezembro de 2010.
A definição do termo “megasite” ainda abre margem para discussões entre muitos daqueles que trabalham no setor de áreas contaminadas e pesquisadores da área ambiental. Segundo o programa WELCOME (Water, Environment and Landscape management at Contaminated Megasites), desenvolvido na União Europeia, um megasite pode ser definido como uma área de grandes proporções (composta de 5 a 500 km²) com diversas fontes de contaminação, provenientes de atividades industriais presentes ou passadas, gerando um impacto considerável ao ambiente (águas subterrâneas, águas superficiais e/ou por vias aéreas). Na conferência de Lille, na França, organizada pela NICOLE, Steve Wallace também apontou em sua definição do termo a necessidade do envolvimento de mais de um proprietário da área para o completo entendimento dos riscos e para o desenvolvimento de uma solução efetiva.
Por conta de sua complexidade e extensão, a União Europeia entende que megasites dificilmente têm seus projetos de remediação e redesenvolvimento concluídos em curto prazo, representando comumente um desafio de muitas décadas. Para facilitar o gerenciamento de tais áreas, o programa WELCOME desenvolveu a Estratégia de Gerenciamento Integrado (Integrated Management Strategy – IMS), com o foco em auxiliar gestores a identificar quais áreas apresentam maiores riscos, estabelecer prioridades para redução destes riscos e definir investimentos, minimizando custos e maximizando a eficiência da gestão.
Um excelente exemplo de aplicação do IMS, que pode ser utilizado como estudo de caso para inúmeros projetos envolvendo megasites no futuro, é o redesenvolvimento do Porto de Rotterdam, na Holanda. Contando com cerca de 3 mil áreas industriais (sendo cerca de 1 mil ainda ativas), de 10 a 15 mil fontes de contaminação e uma extensa área de 5 mil hectares, o gerenciamento do Porto de Rotterdam foi desenvolvido utilizando uma avaliação de risco baseada em clusters (agrupamentos), em que áreas que apresentavam riscos semelhantes aos receptores eram agrupadas, considerando que, nestas opções similares de gerenciamento, poderiam ser aplicadas. Foram considerados como receptores as águas superficiais, as águas subterrâneas sob o porto e as que desaguam nos diques, e os receptores na superfície dos sites.
O formato integrado do gerenciamento permitiu a eficiência econômica do projeto, além de um melhor entendimento holístico da contaminação em uma área de complexas condições hidrogeológicas. É importante lembrar que as diferentes fontes e plumas de contaminação interagem entre si no ambiente, por muitas vezes se sobrepondo e até mesmo alterando algumas de suas propriedades ao longo do tempo e também como resultado dessas interações e esforços pontuais. Assim, a remediação de uma pequena área, de forma não integrada, não é apenas ineficiente no sentido de não considerar essas interações completamente, como também pode gerar alterações nas plumas e fontes das redondezas do terreno. No caso do Porto de Rotterdam, foi estimado que, mesmo que fosse tecnicamente viável a condução de projetos de remediação pontuais em cada site separadamente, o custo total destes esforços alcançaria cerca de 1,5 bilhões de euros.
A aplicação do IMS no Porto de Rotterdam intenciona fomentar a abordagem integrada para gerenciamento de riscos para os próximos 50 anos, garantindo a qualidade da água subterrânea local e a mitigação de riscos em uma área que hoje é, além do maior porto marítimo da Europa e importante rota de entrada e saída de insumos no continente, também uma interessante opção turística na região metropolitana em que se insere.
Dentre outras ações, foi de grande importância realizar um inventário extensivo de todo o megasite, possibilitando o desenvolvimento de um modelo conceitual da área. Assim, concluiu-se, por exemplo, que a redução de descartes industriais seria mais eficiente no manejo da contaminação em corpos d’água superficiais, em comparação com a descarga de contaminantes proveniente do solo. Outra estratégia adotada proveniente das conclusões fornecidas pelo modelo conceitual desenvolvido foi a combinação de ações localizadas, pontuais a cada site, de remoção de hot spots de solo e água subterrânea (em aquífero raso) contaminados, e ações abrangentes a todo o megasite, focando na atenuação natural aprimorada da contaminação do aquífero profundo, com instalação de barreiras de contenção nas fronteiras de alguns sites, quando necessária. Por fim, em acordo com a legislação vigente (local e da União Europeia), o sistema aquífero raso nas redondezas do megasite foi considerado uma zona de gerenciamento de riscos.
Naturalmente, houveram (e ainda há) dificuldades encontradas na aplicação do IMS no Porto de Rotterdam, incluindo barreiras legislativas, envolvimento do público e integração de stakeholders. Ainda assim, porém, é um interessante estudo de caso que mostra a complexidade do gerenciamento de megasites e a importância da adoção de metodologias integradas para este fim, de modo a permitir a obtenção de resultados positivos e interessantes para todos os envolvidos de forma eficiente e com bom custo benefício.
No Brasil, o termo “megasites”, com a conotação aqui expressada, ainda é pouco explorado e conhecido até mesmo pelo próprio mercado de gerenciamento de áreas contaminadas. No XI Seminário Ekos, que ocorreu em outubro de 2018, foi apresentado pelos autores José Carlos Rocha Gouvêa Junior, Lélia Cristina da Rocha Soares e Marilda Mendonça Guazzelli Ramos Vianna um artigo descrevendo a aplicação do IMS em um megasite de grande relevância na cidade de Volta Redonda, no Rio de Janeiro. A aplicação resultou na definição de clusters específicos para a área, além do planejamento de etapas subsequentes, envolvendo a classificação de áreas de atenção localizadas no interior do site, a elaboração de um programa de investigação e monitoramento para cada área de atenção definida e a delimitação dos limites do site e áreas de contorno, facilitando assim o gerenciamento integrado. Como ponto principal, a aplicação do IMS na área mostrou a viabilidade do modelo e o potencial que este ainda representa para outros megasites no país. O resumo do estudo pode ser encontrado no site da rede NICOLE Latin America (em inglês).
De forma a explorar o tema de forma mais abrangente e aprofundada no contexto brasileiro, a rede NICOLE está desenvolvendo publicações focadas nos conceitos relacionados a megasites e o potencial da aplicação de modelos como o IMS em outras localidades do território nacional, incluindo o levantamento dos megasites hoje existentes na região e de estudos de caso que ilustrem a importância de abordagens integradas.
O entendimento aprofundado de áreas tão complexas como megasites e o desenvolvimento e aplicação de modelos integrados de gerenciamento destas áreas, de forma a possibilitar o correto manejo dos impactos negativos e a exploração do potencial de impactos positivos, são fatores de evidente relevância para o mercado ambiental brasileiro. Espera-se que o tema seja cada vez mais debatido nos próximos anos, e abra portas para inovações e mais pesquisas com foco nacional.
REPORT OF THE NICOLE WORKSHOP: Sharing experiences in the management of megasites: towards a sustainable approach in land management of industrially contaminated areas. Lille, France. 29-31 October 2003.
Durant, N.D.; Cox, E. E. Management of Megasites in the United States: Remediation Strategies, Technology Selection, and Cleanup Costs. [ONLINE] Disponível em: https://www.miljoeogressourcer.dk/filer/lix/3030/6_20-_20Neal_20Durant.pdf. Acesso em maio de 2021.
Malina G., Krupanek J., Sievers J., Grossmann J., Meer J., Rijnaarts H.H. Integrated Management Strategy for Complex Groundwater Contamination at a Megasite Scale. In: Twardowska I., Allen H.E., Häggblom M.M., Stefaniak S. (eds) Soil and Water Pollution Monitoring, Protection and Remediation. NATO Science Series, vol 69. Springer, Dordrecht, 2006. https://doi.org/10.1007/978-1-4020-4728-2_37
Gouvêa Jr., J. C. R.; Soares, L. C. R.; Vianna, M. M. G. R. Integrated Management Strategy for Usina Presidente Vargas (UPV) Megasite. [ONLINE] Disponível em: http://nicolelatinamerica.com/wp-content/uploads/2021/03/IntegratedManagementStrategyforUPVMegasite.pdf. Acesso em maio de 2021.
