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No Delta do Parnaíba, falar sobre o mar é também falar sobre os manguezais, as restingas, as matas, os rios e as comunidades que constroem suas vidas de forma íntima com a biodiversidade que os cerca.
Localizada entre os estados do Piauí, Maranhão e Ceará, a Área de Proteção Ambiental (APA) Delta do Parnaíba compõe 100% da extensão do município de Ilha Grande (PI), formado não somente por ilhas, mas também por canais estuarinos e extensas áreas de manguezal.
Pela intimidade com a biodiversidade, é também um território onde a relação entre pessoas e natureza se manifesta no cotidiano: na pesca artesanal, no extrativismo e no turismo – importantes fontes de renda e subsistência para as comunidades locais.
Por isso, neste Dia do Mar, olhamos para o Delta do Parnaíba a fim de compreender que conservar os ambientes marinho-costeiros também significa cuidar das relações construídas entre esses ecossistemas e as pessoas que dependem deles.
Antes de falar sobre a sua importância, vamos entender o que é o manguezal e o que é o mangue.
O manguezal é o ecossistema onde interagem populações de plantas, animais e microrganismos com seu ambiente físico.
Já o termo mangue designa um grupo floristicamente diverso de árvores tropicais que compartilham adaptações fisiológicas que permitem seu desenvolvimento em ambientes abrigados, banhados por águas salobras ou salgadas, com baixa disponibilidade de oxigênio e de substrato inconsolidado.
No Delta do Parnaíba, esses ambientes estão intimamente relacionados aos modos de vida das comunidades: pescadores artesanais, marisqueiras e extrativistas, que dependem da conservação dos recursos naturais para sua subsistência e geração de renda.
Por isso, quando falamos em conservação e restauração desses ecossistemas, precisamos considerar a realidade de quem vive no território e a relação dessas pessoas com os recursos naturais.

Apesar de sua importância para a biodiversidade e para as comunidades locais, o território enfrenta desafios ambientais, como os impactos das mudanças climáticas, a degradação ambiental, a perda de cobertura vegetal e as alterações hidrológicas.
No município de Ilha Grande, além desses desafios, também são identificadas pressões relacionadas à expansão urbana, ocupação de áreas sensíveis, supressão da vegetação nativa e, até mesmo, descarte inadequado de resíduos.
Todos esses fatores podem comprometer tanto a integridade dos ecossistemas locais como os modos de vida das comunidades do Delta do Parnaíba.
É neste contexto que o Instituto Ekos Brasil, junto com os parceiros locais, quer desenvolver projetos na região da APA Delta do Parnaíba visando promover a restauração ecológica, fortalecer a cadeia produtiva da restauração e a governança socioambiental local, com participação ativa do ICMBIO e das comunidades locais de pescadores, agricultores familiares, marisqueiras, extrativistas, jovens e mulheres, contribuindo também para a geração de trabalho e renda.
Imagens: Amisterdam Silva Botelho.
Para celebrarmos o Dia Mundial da Fotografia, 19 de agosto, reunimos 7 registros de diferentes projetos do Instituto Ekos Brasil, feitos por pessoas que dedicam seu trabalho à conservação da biodiversidade.
E esta linda foto do nosso amado Peruaçu foi a vencedora!

Registrada pela Jéssica Fernandes, nossa Coordenadora de Projetos de Biodiversidade, em novembro de 2023, esta foto é um retrato, uma parte pequena das inúmeras belezas que a biodiversidade do Peruaçu tem para nos presentear.
E, sim: esta foto tem história!
Em meio a intensa onda de calor de 2023, a Jess decidiu fazer a Trilha do Arco do André: a mais longa trilha do Peruaçu. Apenas por causa do calor e da quilometragem, esse trajeto já seria desafiador, mas ele ganhou uma red flag logo no início: a bota nova que ela havia comprado e usada naquele dia decidiu presenteá-la com uma enorme bolha na região dos seus calcanhares.
Ela conta que a dor era tão intensa que cogitou chamar o SAMU.
“Mas eu tive a sorte de estar caminhando com um grupo sensacional, que me apoiou e me incentivou o trajeto inteiro!”.
Jéssica Fernandes
Cada passo era um desafio novo para a nossa coordenadora. E se a bota não ajudava, o grupo cumpria esse papel com primor.
Chegando ao final da trilha, a sensação era de orgulho por ter abraçado essa aventura. E se neste momento ela já estava aliviada, a emoção chegou ao ápice quando o Peruaçu a recompensou pelo “perrengue” com uma imagem – quase uma pintura – da caverna sendo refletida pelo Rio Peruaçu.
Depois deste dia, a Jess jurou que nunca mais ia fazer essa trilha.
Mas, a verdade é que ela não vê a hora de viver esta aventura de novo – desta vez, com uma bota calejada!
Gostou de conhecer a história da Jéssica?
Fica o convite para você olhar esta paisagem magnífica com seus próprios olhos.
Sendo paulistana, a ecoansiedade me aflige diariamente e talvez você sinta o mesmo. Os desastres climáticos estão cada vez mais previsíveis e os impactos mais universais. Porém, podemos sentí-los de formas e intensidades diferentes.
Falemos da minha cidade natal. Desconsiderando as zonas periféricas permeadas por grandes reservas e áreas de agricultura familiar, como Marsilac e Jaraguá, a central é mais densamente arborizada nos bairros ricos. Em 2021, por exemplo, o distrito do Morumbi, na zona sul, teve, em média, 15% de cobertura verde por setor censitário, enquanto o distrito da Penha, zona leste, registrou em média 6%. Considerando a densidade demográfica, a conta piora: enquanto Morumbi acumulou 3.797 habitantes por km² em 2022, a Penha chegou a 11.619 habitantes por km² no mesmo ano.
As contribuições da natureza, como sombreamento, regulação térmica, áreas de lazer e convívio comunitário e disponibilidade hídrica são muito mais diluídas na Penha e em outros distritos de paisagem semelhante. Enquanto isso, os eventos extremos de calor, frio e chuva se intensificam justamente nesses territórios.
A concentração de riquezas e de áreas verdes está diretamente associada ao racismo ambiental. Esse termo escancara o mau ordenamento urbano como política excludente e racista, que pretere ações de adaptação e mitigação climática em zonas pobres e as desconecta de outras políticas inclusivas, como as habitacionais e de mobilidade. Vivemos uma “dupla-fratura da modernidade”, como sugere o pensador Malcom Ferdinand. Há, na sociedade, uma fratura ambiental que separa o ser humano da natureza e uma fratura colonial que separa os humanos e os espaços geográficos da Terra entre colonizadores e colonizados, brancos e não-brancos.
Porém, as desigualdades ambientais não resultam apenas da exposição desigual a riscos e benefícios, mas também de processos institucionais que moldam quem participa e quem tem acesso ao poder decisório. Por isso, mesmo nos desenhos de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) para o enfrentamento às mudanças do clima, a justiça ambiental deve prevalecer como critério fundamental, e não apenas como consequência almejada.
Dado o (enorme) problema estrutural, como podemos tornar as cidades mais resilientes às mudanças do clima, sem abandonar as dimensões social e racial do debate?
Essa é uma questão complexa de se resolver, mas talvez o primeiro passo seja reconhecer que somos parte dos biomas que habitamos. Quando penso em caminhos técnicos de SbN que ajudem a alcançar tal senso de pertencimento, vejo que a restauração ecológica merece destaque. Isso porque ela demanda engajamento coletivo para seu próprio sucesso, desde a implementação até o monitoramento.
Para restaurar uma zona urbana, podemos, por exemplo, investir no método Miyawaki. A proposta é adensar ao máximo áreas vazias com espécies nativas, permitindo que o espaço se auto sustente mais rápido por meio das interações ecológicas estimuladas. A taxa de sobrevivência dos indivíduos plantados pelo método pode chegar a 79%, contra 47% nos plantios convencionais.
E quando aplicamos essa técnica em espaços marginalizados, aliada ao envolvimento comunitário? Criamos movimentos revolucionários.
Ao incluir a população local como parte desse processo, diversas oportunidades sociais são geradas para além da sensibilização ambiental, como geração de renda local, resgate de saberes tradicionais, segurança hídrica e alimentar e revitalização de áreas abandonadas.

Dois exemplos na Grande São Paulo, que têm como premissa o método Miyawaki e a participação comunitária, são marcantes para mim. As Florestas de Bolso, do botânico Ricardo Cardin, colocam grande parte da “esteira” nas mãos da própria comunidade — a abertura dos sulcos, a escolha das espécies, o plantio e a irrigação. Esse é também o caso das mini-florestas da ONG Formigas de Embaúba, que são plantadas em CEUs (Centros Educacionais Unificados) e contribuem para uma ecologização pedagógica do ensino público.
Iniciativas como essas mostram que os cidadãos são capazes de direcionar políticas públicas em seus territórios, por vezes historicamente invisibilizados, através de sua própria mobilização. As redes de cooperação são tão importantes para a resiliência social e ecológica quanto as infraestruturas.
Agora, espero que você concorde comigo: não há preservação ambiental nem resiliência climática sem justiça social, e não há justiça social sem reparação e protagonismo popular.
Referências:
BUTFOY, Louise. Testing the Miyawaki Method in Our Urban Greenspaces. Natural England Blog, [S. l.], 19 set. 2024. Disponível em: https://naturalengland.blog.gov.uk/2024/09/19/testing-the-miyawaki-method-in-our-urban-greenspaces/. Acesso em: Jul. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Panorama Censo 2022: São Paulo (SP). Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/sao-paulo/pesquisa/10101/0. Acesso em: 01 jul. 2026.
PLATAFORMA URBVERDE. In: UrbVerde: dados gratuitos para cidades mais verdes e inclusivas. São Carlos, 2023. Disponível em: https://urbverde.iau.usp.br/. Acesso em: 1 jul. 2026.
SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Mapeamento digital da cobertura vegetal do município de São Paulo: relatório final / Coordenação: Vivian Prado de Oliveira. São Paulo: SVMA, 2020. 112 p. ISBN 978-65-87274-01-0. Disponível em: Relatório do mapeamento da Cobertura Vegetal de São Paulo. Acesso em: 1 jul. 2026. [1]
Você já deve ter visto na TV aquelas imagens impressionantes de máquinas gigantes, tecnologia de ponta e o famoso slogan que virou quase um mantra nacional: ‘o agro é pop’. Essa propaganda constante criou no imaginário brasileiro uma espécie de verdade absoluta de que o agronegócio é tudo e que é um benefício universal.
Mas será que é bem assim?
O foco no marketing pode esconder um ‘Agro’ com muitas camadas e contradições, que precisamos analisar com mais atenção para entender o futuro (e o presente) do nosso país.
Primeiro, é importante saber que o ‘agro’ de hoje vai muito além da porteira da fazenda. O agronegócio moderno é um sistema complexo que une agricultura, indústria e, o mais importante, o mercado financeiro. O que muita gente não imagina, mas é crucial para entender o cenário, é que esse modelo é dominado por grandes empresas transnacionais que negociam commodities em várias áreas da economia.
A ‘financeirização’ do setor significa que o agronegócio deixou de ser apenas a produção de alimentos e passou a ser um braço do capital financeiro. Nesse esquema, grandes corporações controlam todas as etapas: desde as sementes, insumos e máquinas, até o armazenamento, a venda e a distribuição. Ao transformar alimentos e matérias-primas em produtos padronizados que podem ser negociados em mercados nacionais e internacionais, o setor é guiado não só pela produção, mas muito mais pela busca por valorização financeira.
Nesse jogo, o alimento é visto unicamente como uma commodity. Isso quer dizer que o que é produzido atende aos interesses do mercado, ou seja, das grandes empresas transnacionais que ditam os rumos da produção e distribuição global. Não é à toa que as principais culturas produzidas no Brasil são soja, açúcar (etanol), milho, café, carne bovina. Arroz e feijão, que são a base da mesa do brasileiro, ficam de fora.
Essa transformação da agricultura em um negócio financeiro acontece de várias formas: empresas do agronegócio abrindo capital na Bolsa de Valores, a criação de instrumentos financeiros para o setor (como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio – CRAs e os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais – Fiagros), e o surgimento de imobiliárias rurais.
É fundamental destacar que, enquanto o agronegócio brasileiro bate recordes de exportação, o país ainda convive com o paradoxo da fome. Mesmo com uma redução na insegurança alimentar grave (de 4,1% para 3,2% entre 2023 e 2024), cerca de 18,9 milhões de famílias ainda sofrem com algum nível de insegurança alimentar, segundo dados oficiais. Isso acontece porque o modelo atual foca na produção de commodities para exportação (como ração animal e biocombustíveis), e não em ‘comida de verdade’ para a população. O resultado é um ‘deserto verde’ de monoculturas que não alimenta quem vive aqui.

Do ponto de vista da produção e tecnologia, o agronegócio se caracteriza pelo monocultivo em larga escala e pelo uso intenso do ‘pacote tecnológico’ da chamada Revolução Verde: sementes transgênicas, máquinas pesadas e muitos agrotóxicos.
Outra marca importante do agronegócio é a concentração de terras: conforme dados do Censo Agropecuário (2017), 0,3% dos maiores imóveis rurais ocupam 25% de toda a terra agrícola. Outras análises apontam que cerca de 1% dos estabelecimentos ocupavam metade da área produtiva do país, enquanto os 77% menores imóveis ocupam outros 25% do território.
O agronegócio também está ligado à mecanização intensificada, que acaba gerando menos empregos e aumentando os conflitos por terra nas fronteiras agrícolas.
Por outro lado, a agricultura familiar é a maior empregadora no campo, responsável por 67% da mão de obra rural no Brasil. Ela se diferencia do agronegócio por focar na diversidade de culturas. A agricultura familiar produz a maior parte dos alimentos básicos para o consumo interno, como mandioca (80%), feijão, arroz e hortaliças.
Enquanto o agronegócio pode criar ‘desertos verdes’, a agricultura familiar mantém o campo vivo e prioriza a soberania alimentar e o sustento das famílias e comunidades locais. É uma estratégia de vida e economia para as famílias rurais, onde o trabalho é feito principalmente pelos próprios membros da família. Além de ser vista como essencial para proteger o meio ambiente e as fontes de água.
O lucro de um modelo de negócio no qual a terra é vista como ativo financeiro muitas vezes vem de um processo no qual o geógrafo David Harvey chama de “acumulação via espoliação”. Isso significa que a riqueza é gerada não pela produção sustentável, mas pela exploração intensa e pela pilhagem de recursos naturais (água, solo, florestas) dessa terra. A corrida global por terras, conhecida como land grabbing, que se intensificou depois da crise financeira de 2008, é um exemplo claro disso. O Brasil é um alvo preferencial por ter muitas terras e preços relativamente baixos em suas fronteiras agrícolas, destaque para áreas na Amazônia e no Cerrado, como o MATOPIBA, por exemplo.
Nesse modelo de agronegócio, a terra é tratada como uma reserva de valor. Isso quer dizer que grandes empresas transnacionais e fundos de investimento compram vastas áreas não só para plantar, mas para imobilizar capital e garantir segurança financeira diante da escassez global de terras cultiváveis.
Claramente esse modelo entra em choque com as comunidades locais, pois exige a expulsão de comunidades camponesas, indígenas e quilombolas de suas terras tradicionais para dar lugar a grandes monoculturas.
Essa financeirização da terra não aconteceria sem uma forte parceria entre o grande capital do agronegócio, o sistema de crédito e o próprio Estado.
O Estado brasileiro é o principal fiador desse modelo, injetando bilhões de reais em recursos públicos (como o Plano Safra) e perdoando dívidas e crimes ambientais da agricultura empresarial. No Plano Safra 2024/2025, cerca de 84% dos recursos para crédito rural foram para o agronegócio.
Através de leis e da atuação de parlamentares, são criadas regras que facilitam a regularização de terras griladas e diminuem a proteção de territórios indígenas e ambientais, tudo para favorecer o mercado de terras.
A Agricultura Familiar, que muitas vezes é deixada de fora das políticas públicas ou recebe muito menos recursos (apenas cerca de 16% do Plano Safra via PRONAF). As demandas da agricultura familiar são frequentemente barradas pelos interesses do agronegócio no Legislativo, especialmente quando o assunto é reforma agrária e demarcação de terras.
É importante deixar claro que o ‘sucesso’ do agronegócio brasileiro não é um processo ‘natural’ ou de ‘aptidão’, mas sim de um robusto projeto de uma antiga elite oligárquica rural (sim, lembra deles? Do século XVI, XVII), aliado ao Estado e ao mercado financeiro.

A verdadeira alternativa sustentável não virá de uma ‘maquiagem verde’ do agronegócio. A resposta deve passar, necessariamente, por fortalecer alternativas já existentes. A agroecologia e a agricultura familiar apontam caminhos mais equilibrados, que conciliam produção de alimentos, conservação ambiental e justiça social.
Essas abordagens são os caminhos que realmente garantem a soberania alimentar, preservam a biodiversidade e mantêm as comunidades vivas em seus territórios. Elas propõem um modelo de sociedade focado na vida, na saúde e no bem-estar de todos, e não apenas no lucro financeiro.
A ideia deste artigo foi jogar luz sobre as camadas menos “pop” do agronegócio. Mas esse é só um recorte. Há muitos outros pontos que merecem atenção: os impactos das monoculturas, o uso intensivo de agrotóxicos e seus efeitos sobre a biodiversidade, a pressão sobre os recursos hídricos, as mudanças no uso do solo, os impactos da pecuária e o avanço do desmatamento. É um tema cheio de desdobramentos e que certamente ainda rende muitos outros artigos por aqui.
Desconstruir a ideia simplificada do “Agro Pop” não significa negar a importância do setor agrícola, mas sim abrir espaço para uma visão mais crítica e, principalmente, mais propositiva.
Porque, no fim das contas, falar de agricultura é falar de futuro, de território e de vida!
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE REFORMA AGRÁRIA (ABRA). Agronegócio e Realidade Agrária no Brasil. Edição Especial. São Paulo: ABRA, jul. 2013. 113 p.
BRASIL. Secretaria de Comunicação Social. Brasil volta ao menor patamar de fome da história. Brasília: SECOM, out. 2025. Disponível em: https://www.gov.br. Acesso em: 1 maio 2026.
BRASIL DE FATO. Governo lança Plano Safra para o agronegócio e a agricultura familiar nesta quarta-feira. 3 jul. 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br. Acesso em: 1 maio 2026.
BORSATTO, Ricardo Serra et al. Problemas agrários do litoral paranaense: abordagem histórica. Scientia Agraria, Curitiba, v. 8, n. 4, p. 421-429, 2007.
GRACIANO, Monyele Camargo et al. A força da Bancada do Boi: a Frente Parlamentar da Agropecuária na definição da política fundiária. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, v. 31, e015, p. 1-20, 2023. DOI: 10.1590/1678-98732331e015.
GUIMARÃES, Juca. Maior concentração de terras revelada pelo Censo Agropecuário incentiva desmatamento e conflitos. Repórter Brasil, 19 nov. 2019. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br. Acesso em: 1 de maio de 2026.
HEINRICH BÖLL STIFTUNG. O aumento da concentração de terras agravará a crise ambiental no país, alertam especialistas. Rio de Janeiro: Heinrich Böll Stiftung Brasil, 2021. Disponível em: https://br.boell.org. Acesso em: 1 de maio de 2026.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Agropecuário 2017: resultados definitivos. Rio de Janeiro: IBGE, 2019.
OGLIARI, Aline. Questão agrária e o poder hegemônico do agronegócio. In: SEMINÁRIO NACIONAL SERVIÇO SOCIAL, TRABALHO E POLÍTICA SOCIAL (SENASS), 5., 2024, Florianópolis. Anais […]. Florianópolis: UFSC, 2024.
PESSOA, Vanira Matos; RIGOTTO, Raquel Maria. Agronegócio: geração de desigualdades sociais, impactos no modo de vida e novas necessidades de saúde nos trabalhadores rurais. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 21, n. 3, p. 565-578, jul./set. 2012.
O Assentamento Gov. André Franco Montoro, localizado em Marabá Paulista (Pontal do Paranapanema), é o primeiro território beneficiado pelo FINACLIMA-SP. Serão 110 hectares restaurados nas Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente na região, no bioma Mata Atlântica.
Nossa proposta venceu o edital e já está em execução. A prioridade, agora, consiste em firmar e mapear parcerias locais para o fortalecimento da cadeia produtiva da restauração.
Além da restauração das áreas naturais, o projeto já iniciou com ampla participação da comunidade e lideranças locais. Os agentes de restauração serão contratados por meio da cooperativa da própria comunidade para atuar em diferentes fases de implementação e monitoramento, resultando em maior geração de renda no local e formação técnica e prática para os trabalhadores.




A primeira visita aconteceu em meados de abril, juntamente com o FUNBIO – Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, a Itesp – Fundação Instituto de Teras, e a SEMIL – Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo.
Criado pelo Governo do Estado de São Paulo, o Finaclima é um mecanismo de financiamento climático que direciona investimentos privados a projetos ambientais e climáticos.
Promover a restauração ecológica no Pontal do Paranapanema, território marcado por um dos mais intensos históricos de grilagem e desmatamento do estado de São Paulo, será, sem dúvida, muito significativo para o Ekos Brasil!
Execução: Ekos Brasil
Gestão: Funbio
Coordenação: SEMIL
Financiamento: FinaClima
Parceiro: Itesp
O Vale do Peixe Bravo, no norte de Minas Gerais, recebe esse nome em referência ao rio que nasce no lado leste da Cadeia do Espinhaço. A região abriga uma paisagem exuberante, ainda pouco alterada, e chama a atenção pela presença das cangas ferruginosas, que se estendem por cerca de 500 km². Essas características conferem ao território um valor inestimável para a conservação ambiental e cultural.
Desde 2023, o Instituto Ekos Brasil atua na região viabilizando a conservação do Vale do Peixe Bravo e, em 2025, conduzimos um amplo trabalho de campo com especialistas em arqueologia, geologia, fauna e flora, além de estudos fundiários e análises socioeconômicas e físicas. Esse esforço embasa a proposta de criação de uma Área de Proteção Ambiental e um Monumento Natural na região. Tal proposta já foi finalizada e está pronta para ser encaminhada aos órgãos competentes.
A criação de uma Unidade de Conservação é prioritária para a proteção das cangas, conhecidas pelos moradores locais como “mocororô”. Essas formações recobrem os ecossistemas ferruginosos da região e são compostas por uma matriz de granulometria fina, cujo arcabouço inclui hematita, goethita, itabirito e quartzo, conforme descrito no livro O Vale do Rio Peixe Bravo: Ilhas de Ferro no Sertão Mineiro, do Instituto Prístino.
O pesquisador Flávio Carmo explica que as cangas são como “chapas de ferro”, extremamente duras, compostas praticamente por óxidos de ferro, mas que abrigam uma das comunidades de plantas mais diversas e raras do Brasil.
“Mas por que as cangas do Peixe Bravo são ainda mais singulares do que as outras do Brasil? Porque, além de tudo isso, elas estão no semiárido, onde não há água superficial. Então, a comunidade de plantas que está lá, além de ser adaptada ao substrato, também precisa se adaptar a meses sem água”.
Flávio Carmo
o volume e a qualidade da água do Rio Peixe Bravo chamam a atenção de quem conhece a região. O pesquisador explica que isso se deve ao modo de vida das diversas comunidades tradicionais, que preservam as águas, e também ao fato de o rio nascer dentro de uma Unidade de Conservação que protege maciços blocos de quartzito, capazes de fazer água infiltrar e abastecer os aquíferos.
“Alguns quilômetros depois do nascimento do Peixe Bravo, entram em cena as rochas ferruginosas, que têm uma propriedade excepcional de recarga, no caso, as cangas. São couraças muito porosas e também bastante fraturadas. Quando chove nas áreas de canga, boa parte da água penetra e atinge os aquíferos ferruginosos. Isso ajuda a manter o aporte de água, tanto em quantidade quanto em qualidade”, detalha.

O elevado valor comercial desses recursos naturais, especialmente das cangas, no entanto, gera conflitos entre moradores, associações, organizações de conservação, governos e empresas mineradoras.
“A alta heterogeneidade ambiental (déficit hídrico, temperaturas elevadas do ar e da superfície do solo, e os fatores edáficos) é quem condiciona a especificidade desse sistema. O geossistema ferruginoso prospectado abriga 361 espécies de plantas vasculares, 21 delas ameaçadas de extinção, e um potencial faunístico ainda pouco explorado. Canga, água e comunidade é a tríplice que mais representa a biodiversidade do Peixe Bravo”, afirma Marina Pedroso, assistente ambiental do Instituto Ekos Brasil.
Além das cangas, o Vale do Peixe Bravo guarda outra singularidade: a região concentra a maior quantidade de paleotocas por hectare do Brasil — tocas escavadas pela megafauna pré-histórica — e em geossistema ferruginoso do mundo, com 21 registros, além de cerca de 40 cavernas.
“Percebe-se que o Vale do Peixe Bravo concentra diversas áreas de relevante interesse para a conservação. Entretanto, não há nenhuma área protegida, ou seja, nenhuma unidade de conservação, que representa, neste caso, a principal política de preservação, manutenção e uso sustentável do patrimônio ambiental brasileiro”.
Flávio Carmo.
Após a fase de estudos, o projeto avança agora para ações de comunicação e mobilização da população local, em parceria com o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas. Foram realizados diagnósticos para mapear lacunas, percepções ambientais e possíveis soluções para demandas socioambientais e educacionais.
“Outra ação importante neste período foi a formação de 16 jovens locais em comunicação popular. A iniciativa fortalece a própria comunidade na disseminação de informações confiáveis e na capacidade de reagir ao lobby das mineradoras”, explica Pedroso.
Como resultado, os jovens criaram um coletivo e passaram a administrar a página no Instagram Vale do Peixe Bravo (@valedopeixebravo).
Em meio às pressões econômicas e às disputas pelo uso do território, o Vale do Peixe Bravo se destaca como um exemplo emblemático dos desafios e das oportunidades da conservação no Brasil. A articulação entre ciência, comunidades locais e organizações socioambientais mostra que é possível construir caminhos para proteger ecossistemas únicos, ao mesmo tempo em que se fortalece o protagonismo local e se amplia o debate sobre o futuro sustentável da região.
Fontes: https://institutopristino.org.br/wp-content/uploads/2020/04/Vale-do-Rio-Peixe-Bravo_WEB-VF.pdf
O Rio Peixe Bravo e Sua Bacia Hidrográfica – Estratégias de Proteção. São Paulo: Instituto Ekos Brasil, 2026
Entrevista com o pesquisador Flávio Carmo.
Por Jéssica Fernandes*
Falar de conservação ambiental hoje, para mim, é falar de pessoas.
Ao longo da minha trajetória trabalhando diretamente com Unidades de Conservação, especialmente no território do Vale do Peruaçu, essa percepção fica cada vez mais evidente : não existe conservação ambiental sem participação e protagonismo local.
Em regiões com áreas protegidas, a conservação não acontece apenas dentro dos limites definidos por decretos de criação. Ela acontece nas comunidades, por meio dos seus modos de vida e das relações construídas com o território ao longo de gerações.
Comunidades tradicionais, povos originários, agricultores familiares, extrativistas e moradores do entorno são detentores de conhecimentos tradicionais ancestrais e percebem mudanças antes mesmo dos dados oficiais. Não temo em dizer que são, muitas vezes, os verdadeiros protetores desses territórios frente às ameaças e pressões econômicas.
Mais do que tratar essas populações como beneficiárias, é preciso trazê-las para o centro da discussão, envolvê-las e empoderá-las como protagonistas que são. É nessa interseccionalidade que a conservação deixa de ser apenas proteção de áreas e passa a ser também valorização de modos de vida.
Mas, reconhecer esse protagonismo exige uma mudança de paradigma. Afinal,não é mais aceitável criar políticas ou projetos sem o envolvimento das comunidades e sem escutar suas vozes. É aqui que a articulação entre diferentes atores deixa de ser um detalhe e passa a ser uma estratégia central para o sucesso da conservação.
Posso adicionar que falar de conservação da biodiversidade, é falar também de geração de renda. Não existe conservação sem condições dignas de vida considerando, principalmente, os efeitos das mudanças do clima que atingem as populações mais vulnerabilizadas.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, mais de 2 bilhões de pessoas no mundo dependem diretamente de recursos naturais para sua subsistência. No Brasil, cadeias ligadas à sociobiodiversidade, como extrativismo, agricultura familiar e restauração ecológica têm enorme potencial de geração de renda, mas ainda enfrentam desafios relacionados ao acesso a mercado, financiamento e assistência técnica. Se essas cadeias não considerarem quem está na ponta, no chão, elas simplesmente não se sustentam.
E isso não significa reduzir a conservação a uma lógica puramente econômica. Pelo contrário, é reconhecer o papel dessas pessoas no processo de convivência com as áreas naturais, inclusive, com fontes de renda alternativas a ações degradatórias. Cadeias bem estruturadas, que valorizam produtos da sociobiodiversidade, serviços ambientais, turismo de base comunitária e iniciativas de restauração, têm grande potencial de alinhar conservação e desenvolvimento local.
Ao passo que avançamos em compromissos globais como o Acordo de Paris, ou o Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, entendemos também que o grande desafio agora está na forma como isso se materializa no território. Porque existe um desalinhamento evidente: as metas são globais, mas a execução é local e, na maioria das vezes, sem financiamento suficiente.
Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) demonstram que o mundo enfrenta um déficit anual de cerca de US$ 700 bilhões para a conservação da biodiversidade. E, quando os recursos existem, nem sempre chegam na ponta de forma justa ou estruturante.
O que significa que não adianta desenhar mecanismos financeiros sofisticados, como mercados de carbono ou grandes programas de restauração, sem reconhecer quem planta, protege, monitora, maneja e vive nessas áreas. Sem esse vínculo, a conservação passa a ser mais um processo excludente, cujos louros acabam destinados às grandes organizações, com seus “grandes feitos” realizados.
Nesse cenário, reconheço que as organizações da sociedade civil assumem um papel estratégico. Elas são capazes de atuar como pontes entre políticas, financiamento e território, conectam pessoas, fortalecem capacidades locais e viabilizam a implementação de iniciativas conjuntas que fazem sentido na prática.
Reconheço também que essa atuação precisa ser cuidadosa e constantemente revisitada, para ampliar o protagonismo local e não o substituir.
Na prática, a conservação não é só sobre proteger nossa biodiversidade ou os serviços ecossistêmicos, é sobre relações, entre as instituições, políticas, estratégias e principalmente, entre as pessoas e os territórios.
Afinal, o futuro da conservação é pessoal, coletivo e é participativo.
*Jéssica Fernandes é Coordenadora do Programa Peruaçu no Instituto Ekos Brasil, bióloga e possui mais de uma década de experiência em projetos e programas socioambientais de conservação da biodiversidade em Unidades de Conservação brasileiras.
O Instituto Ekos Brasil celebra a assinatura do decreto de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Córregos dos Vales do Norte de Minas. Essa é a consolidação de uma conquista histórica dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado, os quais acompanhamos há tantos anos. A assinatura aconteceu no dia 22 de março, durante a COP 15, em Campo Grande (MS).
Com área de 40.834 hectares, a unidade abrange os municípios de Riacho dos Machados e Serranópolis de Minas, em região estratégica da Serra do Espinhaço, marcada por nascentes, veredas e alta relevância ecológica para a segurança hídrica e conservação da sociobiodiversidade.
Há décadas, as comunidades geraizeiras resistem à grilagem, à monocultura do eucalipto e à pressão minerária, defendendo um modo de vida baseado na agricultura familiar, no extrativismo e no uso sustentável do território.
Cabe ressaltar, que a conquista resulta de uma ampla articulação entre o Movimento Geraizeiro e uma rede sociotécnica formada por organizações como CAA-NM, Articulação Rosalino Gomes, STR de Riacho dos Machados, NIISA/Unimontes, Instituto Ekos Brasil, ICMBio, Rede Cerrado, ISPN, CNPCT, CEPCT-MG e CPT, além do apoio de parlamentares e do Ministério do Meio Ambiente.
“A atuação do Instituto Ekos neste processo está ancorada em uma trajetória de mais de 25 anos dedicados à conservação da natureza e ao fortalecimento da gestão de áreas protegidas, especialmente no norte de Minas Gerais. Nossa atuação se deu durante as mobilizações mais recentes, especialmente com apoio nas consultas públicas, etapa fundamental para viabilizar a concretização da proposta”.
Ressaltou Camila Dinat, gerente técnica e de novos negócios no Ekos Brasil.
Mais do que uma unidade de conservação, a RDS Córregos dos Vales representa segurança territorial, proteção ambiental, reconhecimento dos povos tradicionais e cuidado com o nosso Cerrado.
Criadas no âmbito da Constituição de 1988 e da Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), as Unidades de Conservação (UCs) são consideradas o principal instrumento de conservação da biodiversidade no país, responsáveis por proteger ecossistemas em diferentes biomas brasileiros. Desde a criação do sistema no ano 2000, o número de UCs no país dobrou e a área total referente foi ampliada em mais de 300%, consolidando a estratégia como um dos pilares da política ambiental brasileira.
Porém, acreditamos que, apesar de muito importante, não basta apenas ampliar o número de UCs. Uma boa gestão também garante o engajamento e a geração de renda das comunidades ao entorno e o enfrentamento de ameaças e desafios como sustentabilidade financeira e mudanças climáticas.
O Instituto Ekos Brasil acumula experiência de pelo menos uma década em parcerias para gestão e uso público de Unidades de Conservação. Seja na elaboração e revisão de Planos de Manejo, em propostas de criação de novas unidades de conservação, ou nas parcerias firmadas com a APA e o PARNA Cavernas do Peruaçu Peruaçu, ou no Parque Estadual do Rio Doce, nossa atuação desencadeou resultados consistentes ao longo dos últimos anos.
A partir dessa experiência, compartilhamos a seguir alguns indicativos a serem observados na gestão de Unidades de Conservação.
Um dos caminhos mais promissores para ampliar a capacidade de gestão das UCs é o estabelecimento de instrumentos de cooperação entre órgãos públicos e organizações da sociedade civil e/ou empresas. Dentre esses instrumentos, temos as Autorizações, as Permissões, as Concessões, o Termo de Colaboração, o Termo de Fomento, o Termo de Parceria e o Acordo de Cooperação.
Entre esses mecanismos estão os Acordos de Cooperação, termos que permitem que instituições especializadas apoiem atividades como planejamento estratégico, monitoramento ambiental, elaboração de planos de manejo, manutenção de instalações e atrativos para uso público e implementação de projetos socioambientais. São arranjos onde não há repasse de recurso entre as instituições e que têm se mostrado estratégicos para suprir lacunas operacionais, ampliar recursos técnicos e fortalecer a governança das unidades.
Além de ampliar a capacidade institucional, esses acordos permitem também a implementação de modelos de gestão colaborativa, nos quais diferentes atores compartilham responsabilidades e conhecimento para garantir a conservação e o uso sustentável dos territórios protegidos.
O Instituto Ekos Brasil possui o Acordo de Cooperação com o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade) voltado ao apoio à gestão da APA e do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e possui também o Termo de Parceria com o IEF (Instituto Estadual de Florestas, órgão gestor das UCs de Minas Gerais) voltado às ações de consolidação do Parque Estadual do Rio Doce. Essas duas parcerias têm como uma de suas áreas temáticas o Uso Público, mas também tratam de outros temas importantes para as UCs.
Ao longo da nossa experiência, entendemos que outro elemento central para o futuro da gestão das UCs é a construção de canais permanentes de comunicação entre gestores públicos e as instituições parceiras.
Mais do que executar atividades pontuais, os parceiros institucionais passam a participar de processos estratégicos, contribuindo para o planejamento de longo prazo das unidades e para a definição de prioridades de conservação.
“Esses canais abertos de comunicação e um alinhamento harmonioso entre órgão público e organização parceira permite integrar à gestão da UC diferentes perspectivas, sejam elas técnicas, sociais ou econômicas. Já vimos, na prática, como esse alinhamento fortalece a governança e torna mais eficiente a tomada de decisão para as políticas de conservação”.
Ressalta Jéssica Fernandes, coordenadora do Programa Peruaçu.
A participação das comunidades locais é considerada um dos fundamentos da gestão moderna de áreas protegidas. No Brasil, essa participação ocorre principalmente por meio dos Conselhos Gestores das Unidades de Conservação, previstos no SNUC.
Esses conselhos reúnem representantes do poder público, organizações da sociedade civil, povos e comunidades tradicionais e usuários do território, funcionando como espaços de diálogo e por vezes, de deliberação sobre a gestão das unidades.
Segundo dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), cerca de 88% das unidades federais já possuem Conselhos Gestores formalizados, evidenciando o avanço da governança participativa na conservação brasileira.
“Entendemos que trazer a comunidade para os espaços de decisão não é uma questão de boa vontade. É parte essencial e inegociável para uma gestão eficiente e efetiva de uma Unidade de Conservação. Já vivemos situações em que a comunidade era contra o estabelecimento da UC por pensar que atrapalharia seus modos de vida. Quando elas se aproximam do espaço de decisão e se engajam, compreendem como uma área protegida tem enorme potencial de geração de renda e de, por exemplo, proteção à sua própria ancestralidade. Hoje, essa mesma comunidade tem o maior orgulho de sobreviver com a conservação da natureza” completa Fernandes.

Outro componente essencial da agenda de inovação na gestão das UCs é a articulação com o setor privado.
Empresas podem contribuir por meio de diferentes instrumentos, como apoio técnico, financiamento de projetos, desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis e investimentos por meio de compensações ambientais.
Essas parcerias permitem ampliar os recursos disponíveis para conservação e fomentar iniciativas de bioeconomia, turismo sustentável, valorização de produtos locais, e claro, a conservação da biodiversidade.
Ainda como parte da nossa experiência em acordos de Cooperação e Termos de Parceria em Unidades de Conservação, não podemos deixar de mencionar a importância de ações de educação ambiental como um pilar muito concreto para o sucesso da gestão de uma UC.
“Programas educativos para visitantes, escolas e comunidades ajudam a ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade local e incentivam comportamentos responsáveis em relação ao meio ambiente. Isso gera e perpetua uma cultura de conservação, evitando conflitos futuros no território possibilitando o apoio da comunidade à manutenção da UC”.
Ressalta Fernandes.
Por fim, não podemos deixar de mencionar a aplicação promissora da Inteligência Artificial como instrumento aliado à gestão das UCs.
Cresce o número de ferramentas para monitoramento ambiental dos territórios das áreas protegidas, permitindo maior controle sobre avanço de ameaças e acompanhamento dos status de conservação das espécies do bioma local.
“E a nossa expectativa é que ferramentas administrativas, financeiras, de controle de visitantes, sensores para monitoramento e manutenção de trilhas, etc, sejam cada vez mais eficientes, baratas e utilizadas em larga escala nas UCs”, finaliza Fernandes.
A gestão de Unidades de Conservação caminha, portanto, para um modelo cada vez mais colaborativo, participativo e orientado por educação e inovação.
Mais do que preservar paisagens naturais, as UCs tornam-se espaços de experimentação de novos modelos de governança socioambiental, pactuando um agir coletivo pela conservação da biodiversidade.
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*Este texto contou com o auxílio de Inteligência Artificial para maior fluidez e organização das informações.
Pouco conhecidas, as Zonas Úmidas comumente impressionam pela beleza e biodiversidade. Esse é o caso, por exemplo, do Parque Estadual do Rio Doce (PERD), na região do Vale do Aço de Minas Gerais, que abriga uma das Zonas Úmidas de maior importância estratégica para o Brasil. Criado em 1944, o PERD é a primeira Unidade de Conservação de Minas Gerais. Mas não só. O Parque reúne mais de 40 lagoas de água doce, formando o terceiro maior complexo lacustre do Brasil, atrás apenas do Pantanal e da Amazônia. Este sistema lacustre, aliado à grande floresta de Mata Atlântica, conferiu ao parque o título de Sítio Ramsar em 2010, reconhecendo suas zonas úmidas como prioritárias para a biodiversidade global.

O nome Ramsar vem da Convenção sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional, também conhecida como Convenção de Ramsar. É um tratado multilateral assinado em 1971 na cidade iraniana de nome homônimo. O objetivo da Convenção é promover a cooperação entre países para conservar e usar de forma racional as áreas úmidas do planeta. Um dos compromissos assumidos pelos países signatários é identificar e inscrever zonas úmidas representativas, raras ou únicas na Lista de Zonas Úmidas de Importância Internacional, conhecida como Lista Ramsar.
Atualmente a Lista Ramsar é a maior rede de áreas protegidas do planeta, com mais de 2 500 sítios espalhados por 172 países, cobrindo quase 2,5 milhões de km². A visão da Convenção, reafirmada em 2005, é “desenvolver e manter uma rede internacional de áreas úmidas importantes para a conservação da diversidade biológica global e para sustentar a vida humana por meio da manutenção de seus componentes, processos e serviços ecossistêmicos”.
O reconhecimento como sítio Ramsar faz com que a área úmida passe a ser objeto de compromissos oficiais para manter sua biodiversidade, serviços ecossistêmicos e funções ecológicas e garante prioridade na implementação de políticas públicas de conservação. Ao se tornar um Sítio Ramsar, essas áreas ganham mais atenção do governo, têm mais possibilidades de cooperação e de acesso a pesquisas e recursos financeiros e, podem, inclusive, abrir mercados para produtos com procedência ambiental certificada.
Por este reconhecimento e por outros contextos importantes, o Parque Estadual do Rio Doce, nosso exemplo aqui, pôde contar com um Termo de Parceria firmado entre o Instituto Estadual de Florestas (IEF) e o Instituto Ekos Brasil para apoio à sua consolidação, garantindo ações que vão da melhoria e conservação da infraestrutura à proteção e preservação dos recursos naturais, inclusive com a revisão do Plano de Manejo do parque.

Áreas úmidas são ecossistemas na interface entre ambientes terrestres e aquáticos, continentais ou costeiros, permanentes ou temporariamente inundados, com solos saturados e comunidades de plantas e animais adaptadas à dinâmica hídrica. Esses ecossistemas são cruciais para a regulação do ciclo da água, recarga de aquíferos, filtragem de água e estabilização de zonas costeiras.
As áreas úmidas abrigam grande parte da biodiversidade global. Estima-se que 40 % de todas as espécies vegetais e animais dependem desses habitats. Além disso, são fundamentais para controlar enchentes e secas, oferecer alimento, sustentar comunidades tradicionais e mitigar os efeitos da mudança climática.
O PERD, por exemplo, abriga a maior área contínua de Mata Atlântica preservada no estado de Minas Gerais, com uma rica biodiversidade e árvores centenárias que fazem parte de um universo de florestas altas e estratificadas. Na Unidade de Conservação é possível encontrar, por exemplo, o jequitibá, a garapa, o vinhático e a sapucaia.
É por lá que também encontramos um dos ícones da fauna brasileira, a onça-pintada. Além de bonita e imponente, a presença da onça indica a qualidade ambiental e o equilíbrio do ecossistema do PERD. Além disso, o número de espécies encontradas no parque corresponde a 50% de todas as aves registradas em Minas Gerais e 1/5 do total de espécies de aves registradas no Brasil, sendo algumas bem raras e endêmicas, como o bicudo (Sporophila maximiliani), espécie reencontrada após 80 anos sem registros em Minas Gerais.

O Brasil aderiu à Convenção de Ramsar em setembro de 1993. De lá para cá, o país inscreveu 27 sítios na Lista Ramsar. Desses, 24 correspondem a Unidades de Conservação (ou partes delas) e três são sítios Ramsar regionais, formados por Unidades de Conservação, Terras Indígenas e Áreas de Preservação Permanente.
Fontes:
https://www.ramsar.org/our-work/wetlands-international-importance