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O Vale do Peixe Bravo, no norte de Minas Gerais, recebe esse nome em referência ao rio que nasce no lado leste da Cadeia do Espinhaço. A região abriga uma paisagem exuberante, ainda pouco alterada, e chama a atenção pela presença das cangas ferruginosas, que se estendem por cerca de 500 km². Essas características conferem ao território um valor inestimável para a conservação ambiental e cultural.
Desde 2023, o Instituto Ekos Brasil atua na região viabilizando a conservação do Vale do Peixe Bravo e, em 2025, conduzimos um amplo trabalho de campo com especialistas em arqueologia, geologia, fauna e flora, além de estudos fundiários e análises socioeconômicas e físicas. Esse esforço embasa a proposta de criação de uma Área de Proteção Ambiental e um Monumento Natural na região. Tal proposta já foi finalizada e está pronta para ser encaminhada aos órgãos competentes.
A criação de uma Unidade de Conservação é prioritária para a proteção das cangas, conhecidas pelos moradores locais como “mocororô”. Essas formações recobrem os ecossistemas ferruginosos da região e são compostas por uma matriz de granulometria fina, cujo arcabouço inclui hematita, goethita, itabirito e quartzo, conforme descrito no livro O Vale do Rio Peixe Bravo: Ilhas de Ferro no Sertão Mineiro, do Instituto Prístino.
O pesquisador Flávio Carmo explica que as cangas são como “chapas de ferro”, extremamente duras, compostas praticamente por óxidos de ferro, mas que abrigam uma das comunidades de plantas mais diversas e raras do Brasil.
“Mas por que as cangas do Peixe Bravo são ainda mais singulares do que as outras do Brasil? Porque, além de tudo isso, elas estão no semiárido, onde não há água superficial. Então, a comunidade de plantas que está lá, além de ser adaptada ao substrato, também precisa se adaptar a meses sem água”.
Flávio Carmo
o volume e a qualidade da água do Rio Peixe Bravo chamam a atenção de quem conhece a região. O pesquisador explica que isso se deve ao modo de vida das diversas comunidades tradicionais, que preservam as águas, e também ao fato de o rio nascer dentro de uma Unidade de Conservação que protege maciços blocos de quartzito, capazes de fazer água infiltrar e abastecer os aquíferos.
“Alguns quilômetros depois do nascimento do Peixe Bravo, entram em cena as rochas ferruginosas, que têm uma propriedade excepcional de recarga, no caso, as cangas. São couraças muito porosas e também bastante fraturadas. Quando chove nas áreas de canga, boa parte da água penetra e atinge os aquíferos ferruginosos. Isso ajuda a manter o aporte de água, tanto em quantidade quanto em qualidade”, detalha.

O elevado valor comercial desses recursos naturais, especialmente das cangas, no entanto, gera conflitos entre moradores, associações, organizações de conservação, governos e empresas mineradoras.
“A alta heterogeneidade ambiental (déficit hídrico, temperaturas elevadas do ar e da superfície do solo, e os fatores edáficos) é quem condiciona a especificidade desse sistema. O geossistema ferruginoso prospectado abriga 361 espécies de plantas vasculares, 21 delas ameaçadas de extinção, e um potencial faunístico ainda pouco explorado. Canga, água e comunidade é a tríplice que mais representa a biodiversidade do Peixe Bravo”, afirma Marina Pedroso, assistente ambiental do Instituto Ekos Brasil.
Além das cangas, o Vale do Peixe Bravo guarda outra singularidade: a região concentra a maior quantidade de paleotocas por hectare do Brasil — tocas escavadas pela megafauna pré-histórica — e em geossistema ferruginoso do mundo, com 21 registros, além de cerca de 40 cavernas.
“Percebe-se que o Vale do Peixe Bravo concentra diversas áreas de relevante interesse para a conservação. Entretanto, não há nenhuma área protegida, ou seja, nenhuma unidade de conservação, que representa, neste caso, a principal política de preservação, manutenção e uso sustentável do patrimônio ambiental brasileiro”.
Flávio Carmo.
Após a fase de estudos, o projeto avança agora para ações de comunicação e mobilização da população local, em parceria com o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas. Foram realizados diagnósticos para mapear lacunas, percepções ambientais e possíveis soluções para demandas socioambientais e educacionais.
“Outra ação importante neste período foi a formação de 16 jovens locais em comunicação popular. A iniciativa fortalece a própria comunidade na disseminação de informações confiáveis e na capacidade de reagir ao lobby das mineradoras”, explica Pedroso.
Como resultado, os jovens criaram um coletivo e passaram a administrar a página no Instagram Vale do Peixe Bravo (@valedopeixebravo).
Em meio às pressões econômicas e às disputas pelo uso do território, o Vale do Peixe Bravo se destaca como um exemplo emblemático dos desafios e das oportunidades da conservação no Brasil. A articulação entre ciência, comunidades locais e organizações socioambientais mostra que é possível construir caminhos para proteger ecossistemas únicos, ao mesmo tempo em que se fortalece o protagonismo local e se amplia o debate sobre o futuro sustentável da região.
Fontes: https://institutopristino.org.br/wp-content/uploads/2020/04/Vale-do-Rio-Peixe-Bravo_WEB-VF.pdf
O Rio Peixe Bravo e Sua Bacia Hidrográfica – Estratégias de Proteção. São Paulo: Instituto Ekos Brasil, 2026
Entrevista com o pesquisador Flávio Carmo.