INSTITUTO ECKOS LOGO

Blog

#NossoBlog

Um olhar atento ao ‘Agro Pop’

Camila Dinat 02 jun 2026

Você já deve ter visto na TV aquelas imagens impressionantes de máquinas gigantes, tecnologia de ponta e o famoso slogan que virou quase um mantra nacional: ‘o agro é pop’. Essa propaganda constante criou no imaginário brasileiro uma espécie de verdade absoluta de que o agronegócio é tudo e que é um benefício universal.

Mas será que é bem assim?

O foco no marketing pode esconder um ‘Agro’ com muitas camadas e contradições, que precisamos analisar com mais atenção para entender o futuro (e o presente) do nosso país.

Primeiro, é importante saber que o ‘agro’ de hoje vai muito além da porteira da fazenda. O agronegócio moderno é um sistema complexo que une agricultura, indústria e, o mais importante, o mercado financeiro. O que muita gente não imagina, mas é crucial para entender o cenário, é que esse modelo é dominado por grandes empresas transnacionais que negociam commodities em várias áreas da economia.

A ‘financeirização’ do setor significa que o agronegócio deixou de ser apenas a produção de alimentos e passou a ser um braço do capital financeiro. Nesse esquema, grandes corporações controlam todas as etapas: desde as sementes, insumos e máquinas, até o armazenamento, a venda e a distribuição. Ao transformar alimentos e matérias-primas em produtos padronizados que podem ser negociados em mercados nacionais e internacionais, o setor é guiado não só pela produção, mas muito mais pela busca por valorização financeira.

Nesse jogo, o alimento é visto unicamente como uma commodity. Isso quer dizer que o que é produzido atende aos interesses do mercado, ou seja, das grandes empresas transnacionais que ditam os rumos da produção e distribuição global. Não é à toa que as principais culturas produzidas no Brasil são soja, açúcar (etanol), milho, café, carne bovina. Arroz e feijão, que são a base da mesa do brasileiro, ficam de fora.

Essa transformação da agricultura em um negócio financeiro acontece de várias formas: empresas do agronegócio abrindo capital na Bolsa de Valores, a criação de instrumentos financeiros para o setor (como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio – CRAs e os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais – Fiagros), e o surgimento de imobiliárias rurais.

É fundamental destacar que, enquanto o agronegócio brasileiro bate recordes de exportação, o país ainda convive com o paradoxo da fome. Mesmo com uma redução na insegurança alimentar grave (de 4,1% para 3,2% entre 2023 e 2024), cerca de 18,9 milhões de famílias ainda sofrem com algum nível de insegurança alimentar, segundo dados oficiais. Isso acontece porque o modelo atual foca na produção de commodities para exportação (como ração animal e biocombustíveis), e não em ‘comida de verdade’ para a população. O resultado é um ‘deserto verde’ de monoculturas que não alimenta quem vive aqui.

Mas afinal, o que caracteriza o modelo do Agronegócio?

Canva Pro.

Do ponto de vista da produção e tecnologia, o agronegócio se caracteriza pelo monocultivo em larga escala e pelo uso intenso do ‘pacote tecnológico’ da chamada Revolução Verde: sementes transgênicas, máquinas pesadas e muitos agrotóxicos.

Outra marca importante do agronegócio é a concentração de terras: conforme dados do Censo Agropecuário (2017), 0,3% dos maiores imóveis rurais ocupam 25% de toda a terra agrícola. Outras análises apontam que cerca de 1% dos estabelecimentos ocupavam metade da área produtiva do país, enquanto os 77% menores imóveis ocupam outros 25% do território.

O agronegócio também está ligado à mecanização intensificada, que acaba gerando menos empregos e aumentando os conflitos por terra nas fronteiras agrícolas.

Por outro lado, a agricultura familiar é a maior empregadora no campo, responsável por 67% da mão de obra rural no Brasil. Ela se diferencia do agronegócio por focar na diversidade de culturas. A agricultura familiar produz a maior parte dos alimentos básicos para o consumo interno, como mandioca (80%), feijão, arroz e hortaliças.

Enquanto o agronegócio pode criar ‘desertos verdes’, a agricultura familiar mantém o campo vivo e prioriza a soberania alimentar e o sustento das famílias e comunidades locais. É uma estratégia de vida e economia para as famílias rurais, onde o trabalho é feito principalmente pelos próprios membros da família. Além de ser vista como essencial para proteger o meio ambiente e as fontes de água.

A Terra como ativo financeiro: especulação e acumulação via Espoliação

O lucro de um modelo de negócio no qual a terra é vista como ativo financeiro muitas vezes vem de um processo no qual o geógrafo David Harvey chama de “acumulação via espoliação”. Isso significa que a riqueza é gerada não pela produção sustentável, mas pela exploração intensa e pela pilhagem de recursos naturais (água, solo, florestas) dessa terra. A corrida global por terras, conhecida como land grabbing, que se intensificou depois da crise financeira de 2008, é um exemplo claro disso. O Brasil é um alvo preferencial por ter muitas terras e preços relativamente baixos em suas fronteiras agrícolas, destaque para áreas na Amazônia e no Cerrado, como o MATOPIBA, por exemplo.

Nesse modelo de agronegócio, a terra é tratada como uma reserva de valor. Isso quer dizer que grandes empresas transnacionais e fundos de investimento compram vastas áreas não só para plantar, mas para imobilizar capital e garantir segurança financeira diante da escassez global de terras cultiváveis.

Claramente esse modelo entra em choque com as comunidades locais, pois exige a expulsão de comunidades camponesas, indígenas e quilombolas de suas terras tradicionais para dar lugar a grandes monoculturas.

Um pacto de poder bancado pelo Estado

Essa financeirização da terra não aconteceria sem uma forte parceria entre o grande capital do agronegócio, o sistema de crédito e o próprio Estado.

O Estado brasileiro é o principal fiador desse modelo, injetando bilhões de reais em recursos públicos (como o Plano Safra) e perdoando dívidas e crimes ambientais da agricultura empresarial. No Plano Safra 2024/2025, cerca de 84% dos recursos para crédito rural foram para o agronegócio.

Através de leis e da atuação de parlamentares, são criadas regras que facilitam a regularização de terras griladas e diminuem a proteção de territórios indígenas e ambientais, tudo para favorecer o mercado de terras.

A Agricultura Familiar, que muitas vezes é deixada de fora das políticas públicas ou recebe muito menos recursos (apenas cerca de 16% do Plano Safra via PRONAF). As demandas da agricultura familiar são frequentemente barradas pelos interesses do agronegócio no Legislativo, especialmente quando o assunto é reforma agrária e demarcação de terras.

É importante deixar claro que o ‘sucesso’ do agronegócio brasileiro não é um processo ‘natural’ ou de ‘aptidão’, mas sim de um robusto projeto de uma antiga elite oligárquica rural (sim, lembra deles? Do século XVI, XVII), aliado ao Estado e ao mercado financeiro. 

Diante desse cenário,  qual modelo de campo e de país queremos construir?

Canva Pro.

A verdadeira alternativa sustentável não virá de uma ‘maquiagem verde’ do agronegócio. A resposta deve passar, necessariamente, por fortalecer alternativas já existentes. A agroecologia e a agricultura familiar apontam caminhos mais equilibrados, que conciliam produção de alimentos, conservação ambiental e justiça social.

Essas abordagens são os caminhos que realmente garantem a soberania alimentar, preservam a biodiversidade e mantêm as comunidades vivas em seus territórios. Elas propõem um modelo de sociedade focado na vida, na saúde e no bem-estar de todos, e não apenas no lucro financeiro.

A ideia deste artigo foi jogar luz sobre as camadas menos “pop” do agronegócio. Mas esse é só um recorte. Há muitos outros pontos que merecem atenção: os impactos das monoculturas, o uso intensivo de agrotóxicos e seus efeitos sobre a biodiversidade, a pressão sobre os recursos hídricos, as mudanças no uso do solo, os impactos da pecuária e o avanço do desmatamento. É um tema cheio de desdobramentos e que certamente ainda rende muitos outros artigos por aqui.

Desconstruir a ideia simplificada do “Agro Pop” não significa negar a importância do setor agrícola, mas sim abrir espaço para uma visão mais crítica e, principalmente, mais propositiva.

Porque, no fim das contas, falar de agricultura é falar de futuro, de território e de vida!

Referências bibliográficas:

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE REFORMA AGRÁRIA (ABRA). Agronegócio e Realidade Agrária no Brasil. Edição Especial. São Paulo: ABRA, jul. 2013. 113 p.

BRASIL. Secretaria de Comunicação Social. Brasil volta ao menor patamar de fome da história. Brasília: SECOM, out. 2025. Disponível em: https://www.gov.br. Acesso em: 1 maio 2026.

BRASIL DE FATO. Governo lança Plano Safra para o agronegócio e a agricultura familiar nesta quarta-feira. 3 jul. 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br. Acesso em: 1 maio 2026.

BORSATTO, Ricardo Serra et al. Problemas agrários do litoral paranaense: abordagem histórica. Scientia Agraria, Curitiba, v. 8, n. 4, p. 421-429, 2007.

GRACIANO, Monyele Camargo et al. A força da Bancada do Boi: a Frente Parlamentar da Agropecuária na definição da política fundiária. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, v. 31, e015, p. 1-20, 2023. DOI: 10.1590/1678-98732331e015.

GUIMARÃES, Juca. Maior concentração de terras revelada pelo Censo Agropecuário incentiva desmatamento e conflitos. Repórter Brasil, 19 nov. 2019. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br. Acesso em: 1 de maio de 2026.

HEINRICH BÖLL STIFTUNG. O aumento da concentração de terras agravará a crise ambiental no país, alertam especialistas. Rio de Janeiro: Heinrich Böll Stiftung Brasil, 2021. Disponível em: https://br.boell.org. Acesso em: 1 de maio de 2026.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Agropecuário 2017: resultados definitivos. Rio de Janeiro: IBGE, 2019.

OGLIARI, Aline. Questão agrária e o poder hegemônico do agronegócio. In: SEMINÁRIO NACIONAL SERVIÇO SOCIAL, TRABALHO E POLÍTICA SOCIAL (SENASS), 5., 2024, Florianópolis. Anais […]. Florianópolis: UFSC, 2024.

PESSOA, Vanira Matos; RIGOTTO, Raquel Maria. Agronegócio: geração de desigualdades sociais, impactos no modo de vida e novas necessidades de saúde nos trabalhadores rurais. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 21, n. 3, p. 565-578, jul./set. 2012.

Veja também