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Sendo paulistana, a ecoansiedade me aflige diariamente e talvez você sinta o mesmo. Os desastres climáticos estão cada vez mais previsíveis e os impactos mais universais. Porém, podemos sentí-los de formas e intensidades diferentes.
Falemos da minha cidade natal. Desconsiderando as zonas periféricas permeadas por grandes reservas e áreas de agricultura familiar, como Marsilac e Jaraguá, a central é mais densamente arborizada nos bairros ricos. Em 2021, por exemplo, o distrito do Morumbi, na zona sul, teve, em média, 15% de cobertura verde por setor censitário, enquanto o distrito da Penha, zona leste, registrou em média 6%. Considerando a densidade demográfica, a conta piora: enquanto Morumbi acumulou 3.797 habitantes por km² em 2022, a Penha chegou a 11.619 habitantes por km² no mesmo ano.
As contribuições da natureza, como sombreamento, regulação térmica, áreas de lazer e convívio comunitário e disponibilidade hídrica são muito mais diluídas na Penha e em outros distritos de paisagem semelhante. Enquanto isso, os eventos extremos de calor, frio e chuva se intensificam justamente nesses territórios.
A concentração de riquezas e de áreas verdes está diretamente associada ao racismo ambiental. Esse termo escancara o mau ordenamento urbano como política excludente e racista, que pretere ações de adaptação e mitigação climática em zonas pobres e as desconecta de outras políticas inclusivas, como as habitacionais e de mobilidade. Vivemos uma “dupla-fratura da modernidade”, como sugere o pensador Malcom Ferdinand. Há, na sociedade, uma fratura ambiental que separa o ser humano da natureza e uma fratura colonial que separa os humanos e os espaços geográficos da Terra entre colonizadores e colonizados, brancos e não-brancos.
Porém, as desigualdades ambientais não resultam apenas da exposição desigual a riscos e benefícios, mas também de processos institucionais que moldam quem participa e quem tem acesso ao poder decisório. Por isso, mesmo nos desenhos de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) para o enfrentamento às mudanças do clima, a justiça ambiental deve prevalecer como critério fundamental, e não apenas como consequência almejada.
Dado o (enorme) problema estrutural, como podemos tornar as cidades mais resilientes às mudanças do clima, sem abandonar as dimensões social e racial do debate?
Essa é uma questão complexa de se resolver, mas talvez o primeiro passo seja reconhecer que somos parte dos biomas que habitamos. Quando penso em caminhos técnicos de SbN que ajudem a alcançar tal senso de pertencimento, vejo que a restauração ecológica merece destaque. Isso porque ela demanda engajamento coletivo para seu próprio sucesso, desde a implementação até o monitoramento.
Para restaurar uma zona urbana, podemos, por exemplo, investir no método Miyawaki. A proposta é adensar ao máximo áreas vazias com espécies nativas, permitindo que o espaço se auto sustente mais rápido por meio das interações ecológicas estimuladas. A taxa de sobrevivência dos indivíduos plantados pelo método pode chegar a 79%, contra 47% nos plantios convencionais.
E quando aplicamos essa técnica em espaços marginalizados, aliada ao envolvimento comunitário? Criamos movimentos revolucionários.
Ao incluir a população local como parte desse processo, diversas oportunidades sociais são geradas para além da sensibilização ambiental, como geração de renda local, resgate de saberes tradicionais, segurança hídrica e alimentar e revitalização de áreas abandonadas.

Dois exemplos na Grande São Paulo, que têm como premissa o método Miyawaki e a participação comunitária, são marcantes para mim. As Florestas de Bolso, do botânico Ricardo Cardin, colocam grande parte da “esteira” nas mãos da própria comunidade — a abertura dos sulcos, a escolha das espécies, o plantio e a irrigação. Esse é também o caso das mini-florestas da ONG Formigas de Embaúba, que são plantadas em CEUs (Centros Educacionais Unificados) e contribuem para uma ecologização pedagógica do ensino público.
Iniciativas como essas mostram que os cidadãos são capazes de direcionar políticas públicas em seus territórios, por vezes historicamente invisibilizados, através de sua própria mobilização. As redes de cooperação são tão importantes para a resiliência social e ecológica quanto as infraestruturas.
Agora, espero que você concorde comigo: não há preservação ambiental nem resiliência climática sem justiça social, e não há justiça social sem reparação e protagonismo popular.
Referências:
BUTFOY, Louise. Testing the Miyawaki Method in Our Urban Greenspaces. Natural England Blog, [S. l.], 19 set. 2024. Disponível em: https://naturalengland.blog.gov.uk/2024/09/19/testing-the-miyawaki-method-in-our-urban-greenspaces/. Acesso em: Jul. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Panorama Censo 2022: São Paulo (SP). Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/sao-paulo/pesquisa/10101/0. Acesso em: 01 jul. 2026.
PLATAFORMA URBVERDE. In: UrbVerde: dados gratuitos para cidades mais verdes e inclusivas. São Carlos, 2023. Disponível em: https://urbverde.iau.usp.br/. Acesso em: 1 jul. 2026.
SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Mapeamento digital da cobertura vegetal do município de São Paulo: relatório final / Coordenação: Vivian Prado de Oliveira. São Paulo: SVMA, 2020. 112 p. ISBN 978-65-87274-01-0. Disponível em: Relatório do mapeamento da Cobertura Vegetal de São Paulo. Acesso em: 1 jul. 2026. [1]