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Instituto Ekos Brasil leva experiência da Bacia do Rio Doce a evento internacional em Salamanca

Instituto Ekos Brasil leva experiência da Bacia do Rio Doce a evento internacional em Salamanca

De 17 a 19 de setembro, o Instituto Ekos Brasil marcou presença no evento internacional I Jornadas Internacionales de Biodiversidad y Servicios Ecosistémicos (1ª Conferência Internacional sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, em tradução livre), realizado na Universidade de Salamanca, na Espanha. A participação aconteceu em conjunto com uma equipe de sete pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Viçosa (UFV), parceira do Instituto em projetos estratégicos na Bacia do Rio Doce.

Estiveram presentes a Ma. Fabiana Bonani, Coordenadora de Projetos de Conservação da Biodiversidade do Instituto Ekos Brasil, e a equipe de pesquisa composta por Profa. Dra. Andreza Viana Neri, Dr. Carlos Mário Galván-Cisneros, Prof. Dr. João Augusto Alves Meira Neto, Prof. Dr. Juraci Alves Oliveira, Dra. Lhoraynne Pereira Gomes e Dr. Rodrigo Gomes Gorsani.

O grupo esteve presente nas pautas que tratam da importância da ecologia das espécies para a conservação da biodiversidade e restauração dos ecossistemas, especialmente para a Bacia do Rio Doce. Nesta oportunidade Fabiana destacou o protagonismo do Instituto em iniciativas na Bacia, que unem ciência, saúde humana e ambiental, conservação, políticas públicas e parcerias público-privadas.

Durante o evento, foram apresentados resultados dos projetos “Árvores do Rio Doce” e “Campestres do Rio Doce”, que investigam espécies arbóreas e campestres raras, endêmicas e ameaçadas de extinção na Bacia. Os projetos estão sendo desenvolvidos pelo Instituto Ekos Brasil em parceria com a Universidade Federal de Viçosa, o Instituto Inhotim de Minas Gerais e a Universidade de Salamanca da Espanha, sendo gerido pelo Funbio como parte do Projeto Biodiversidade Rio Doce. Como produtos destes estudos serão feitas propostas de conservação destas espécies, guias de restauração e a publicação de diversos artigos científicos.

A participação do Instituto Ekos Brasil no encontro internacional reforça o compromisso da organização com a produção e disseminação de conhecimento científico, articulando esforços locais e globais para garantir a regeneração de ecossistemas ameaçados.

Foto: Ekos Brasil.

Ekos Brasil participa de encontros sobre conservação e protagonismo no Cerrado

Neste mês de setembro, a equipe do Instituto Ekos Brasil esteve presente em dois encontros de grande relevância em Brasília: o Encontro dos Projetos Apoiados pelo CEPF (Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos) e o XI Encontro e Feira dos Povos do Cerrado. 

Representaram o Instituto a Jéssica Fernandes (Coordenadora de Projetos de Impacto e Gestão Climática), Camila Dinat (Gerente Técnica e Novos Negócios) e Murilo Mendes (Agente Ambiental e Administrativo no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu).

Nos dias 8 e 9, a equipe participou do encontro do CEPF, ao lado de outras 35 organizações que atuam no bioma, com iniciativas que colaborem com o trabalho de conservação promovido por mulheres. O Instituto apresentou o projeto Florescer no Cerrado, que acontece na Área de Proteção Ambiental Cavernas do Peruaçu e promove a capacitação de negócios sustentáveis liderados por mulheres.

“Foi um encontro muito produtivo, onde pudemos refletir com outras organizações sobre os desafios, soluções e conquistas dos projetos desenvolvidos no bioma, além de destacar que sem mulher não tem cerrado em pé”, compartilha Murilo Mendes.

Já de 10 a 14 de setembro, foi a vez do Encontro dos Povos do Cerrado, espaço de integração de comunidades, organizações, culturas e povos que habitam o bioma. “São esses povos que fazem a conservação do bioma, que garantem o Cerrado de pé”, destacou Camila Dinat. 

Ali foram discutidas formas de desenvolvimento dos setores, como manter as populações em seus territórios, as ameaças que sofrem e também as ferramentas que têm para se manterem íntegras e donas de seu território. O evento contou com feiras de produtos locais, atividades culturais e debates sobre o papel das comunidades na conservação do bioma.

“Outro ponto importante foi que todo o evento foi alimentado com produtos da agricultura familiar livre de agrotóxicos, fornecidos pela organização Cerrado de Pé, que viabilizou a compra e preparo dos alimentos”, reforça Dinat.

Encontro dos Povos do Cerrado. Foto: equipe Ekos Brasil.
Encontro dos Povos. Foto: equipe Ekos Brasil.

Para o trio, a participação nos dois encontros reforçou o compromisso do Instituto Ekos Brasil de atuar de forma integrada com as comunidades, valorizando a liderança feminina e a diversidade de saberes como caminhos fundamentais para a regeneração e proteção do Cerrado.

Nossa história com o Peruaçu | Especial Dia do Cerrado

Desde 2017, o Instituto Ekos Brasil atua, em cooperação com o ICMBio, para transformar a APA e o  Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, com grande porção do seu território no bioma Cerrado, em um caso de sucesso de conservação da biodiversidade em colaboração com as comunidades locais e tradicionais. 

Por isso, nesse Dia do Cerrado, percorremos uma breve linha do tempo para relembrar alguns destaques da nossa história de parceria com o Vale do Peruaçu. 

A partir do Acordo de Cooperação e da criação do Programa Peruaçu, em 2017, o Instituto passou a captar e converter recursos, sem repasse financeiro direto entre as organizações, para apoio a gestão do parque e da apa, investimentos em infraestrutura de visitação, recuperação de nascentes, apoio a pesquisa e desenvolvimento de projetos socioambientais. 

Rolph Gloor in der Höhle “Arco do André” (dt.: Andreasbogen), Nationalpark Peruacú, Minas Gerais, Brasilien

Um dos marcos desse primeiro período, ainda em 2017, foi a implementação da Trilha do Arco do André, um percurso de oito quilômetros que permite aos visitantes explorar  um cenário de muita beleza, contato com o Rio Peruaçu, com o carste e matas primárias com baixa intervenção humana. Em 2018, avançamos algumas etapas para a sustentabilidade financeira dos nossos projetos no Peruaçu, com a inclusão do parque na Incubadora para a Conservação da Natureza, da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e com o lançamento do edital Pequenos Projetos, que apoiou duas iniciativas locais. Com o intuito de dar mais visibilidade ao Parque e às ações de conservação, neste ano também organizamos uma press trip com jornalistas brasileiros e estrangeiros que rendeu reportagens importantes na mídia.  

Nossa parceria seguiu em 2019 com a consolidação da estratégia de captação. Neste ano, destacamos a aprovação no programa Clear into the Future, da Dupont, onde houve a criação da Casa de Vegetação, um viveiro de espécies nativas que alimenta ações de restauração em nascentes e áreas degradadas. O objetivo é simples e ambicioso: contribuir para manter água correndo e floresta em pé, pilares da resiliência do Cerrado.

Contratamos também um estudo para analisar e propor novos modelos de negócios e de parcerias público-privadas para aproveitar as potencialidades econômicas da Unidade de Conservação. Hoje, o Peruaçu é um case de sucesso neste tipo de modelo de parceria. 

Certamente, o marco do ano de 2020 foi a consolidação da nossa parceria pelo ecoturismo. O projeto “Acelerando o Turismo Sustentável no Vale do Peruaçu” ajudou a desenvolver, fortalecer e acelerar o turismo sustentável na região. Mais de 60 pessoas e 48 iniciativas locais receberam capacitação e orientações para gerar mais renda e assim impulsionar a cultura e a conservação da biodiversidade. 

Com a chegada da Pandemia, as ações do Ekos Brasil foram canalizadas para a ajuda humanitária. Por meio de parcerias com o Instituto Rosa e Sertão foi possível comprar insumos nas cooperativas de produtores locais e distribuir 233 cestas básicas. Foram beneficiadas 932 pessoas das comunidades de Quilombo Cabanos, Aparecidinha, Candeal, Água Doce e São Domingos. Este também foi um ano em que apoiamos a compra de equipamentos de comunicação e segurança. 

Em 2021, um dos marcos foi o projeto “Conectando Histórias no Peruaçu” que usou crowdfunding com match do BNDES para formar jovens em audiovisual e ciências da natureza, multiplicando vozes locais na promoção do parque e fortalecendo o sentimento de pertencimento, peça-chave para conservar. No ano seguinte, tivemos a finalização do 1º acordo de cooperação, que abriu as portas para um novo acordo firmado em 2023, desta vez, abrangendo o território do Parque e da APA Cavernas do Peruaçu. Ainda neste ano, lançamos o projeto “Uma trilha para a sustentabilidade”, com a finalidade de fortalecer e resgatar o conhecimento tradicional indígena Xakriabá sobre plantas medicinais e a importância de viver pela conservação das florestas.

Em 2024, celebramos a inauguração da parte de penumbra da trilha da Gruta do Janelão e a realização do III Seminário Científico do Vale do Peruaçu, organizado pelo ICMBio e Instituto Ekos Brasil, e palco de pesquisas científicas realizadas no território, que destacam os impactos das mudanças climáticas no carste do Vale do Peruaçu, mostram o papel deste território para o conhecimento da história humana e que põem em relevo toda riqueza biodiversa existente no Peruaçu. 

E neste ano de 2025, vivemos a emoção de apoiar a campanha do Peruaçu como Patrimônio Mundial Natural pela Unesco e celebrar o recebimento desse título tão esperado. O ano continua, mas até o momento já inauguramos outros 3 importantes projetos: Projeto Florescer no Cerrado,  que oferece formação empreendedora para mulheres do Peruaçu; o Floresta Viva Peruaçu, uma iniciativa voltada à restauração ecológica de biomas brasileiros, que tem como objetivo restaurar 200 hectares do bioma Cerrado no Vale do Peruaçu; e o Conhecer e Prevenir, com objetivo de  estruturação e implementar ações para um manejo integrado do fogo mais efetivo. 

A história do Peruaçu continua e temos o privilégio de fazer parte de cada novo passo desta região biodiversa e fundamental para o equilíbrio natural do nosso país. Mas, sozinhos não fazemos nada: a participação dos parceiros e da comunidade é essencial para o trabalho da nossa equipe. Seguimos juntos e juntas pela preservação e conservação do Cerrado. Viva o Cerrado e viva o Peruaçu!  

Um crédito de carbono significa muito mais do que uma tonelada de CO₂ | Especial COP 30

COP 30 – A Amazônia é o maior bioma tropical do mundo. E, neste ano, é natural mencionar o quão simbólico será ter uma COP realizada no coração da Amazônia.

Não obstante todos os desafios com as questões logísticas, será uma oportunidade única de proporcionar à diplomacia climática um contato próximo com as pessoas e comunidades que vivem na floresta. Como bem disse o presidente da COP 30, André Aranha Correa do Lago, em uma de suas cartas:

“Lideranças vivas do cuidado, da resiliência e da regeneração”.

Dentro do ecossistema do mercado de carbono, há uma expectativa para que a COP seja um espaço propício de amadurecimento do debate sobre a integridade dos créditos de carbono. Se no início, algumas décadas atrás, a conversa frequentemente se limitava a métricas estritamente técnicas e cadastrais: a “tonelada de CO₂” como unidade quase absoluta, o CNPJ do detentor do crédito, checagens documentais básicas, etc, podemos dizer que nos últimos anos isso mudou. A pressão da sociedade, da imprensa e de dentro do próprio mercado, passou a exigir cada vez mais que cada crédito represente um impacto real, adicional, verificável e duradouro, em um ciclo de geração de riqueza que respeita as pessoas e a natureza.

Essa evolução se consolidou com a chegada de referências como os Core Carbon Principles do ICVCM, que estabelece dez princípios para identificar créditos de alta integridade, e com o VCMI, que oferece reivindicações para que as empresas participem do mercado voluntário com confiança. Padrões e metodologias reconhecidos foram pressionados a passar por revisões, especialmente em projetos florestais e esse movimento gerou atualizações e ampliou a consciência de compradores e desenvolvedores sobre a centralidade dos cobenefícios socioambientais.

Um crédito de carbono significa muito mais do que uma tonelada de CO₂ | Especial COP 30
Canva Pro.

Ou seja, o recado é: um crédito de carbono significa muito mais do que uma tonelada de CO₂. Ele deve ser um propulsor de regeneração, conservação, de desenvolvimento local, com transparência para todas as partes e governança séria.

Mas, voltando nosso olhar para a Amazônia, compreendemos que esse aprendizado ganha ainda mais importância. Quando projetos florestais nascem com as comunidades e não são apenas sobre as comunidades, são capazes de entregar benefícios que extrapolam a mitigação das mudanças climáticas. Podemos dizer, com base na experiência, que esses projetos auxiliam na regeneração dos ecossistemas ao promover a conservação da biodiversidade, a segurança territorial, possibilidade de renda digna, manutenção de saberes e modos de vida.

A ciência tem comprovado (e já falamos sobre isso aqui) que territórios indígenas e tradicionais, tendem a manter taxas menores de desmatamento e funcionam como barreiras vivas contra a perda florestal.

Por isso é simbólico receber a COP 30 na Amazônia. A conferência nos oferece a oportunidade de aprofundar o olhar para um tipo de integridade em nosso mercado que inclui as pessoas: ouvir e trabalhar junto com as comunidades do entorno, respeitar o protagonismo dos povos indígenas, valorizar a economia da floresta e, sobretudo, garantir que o financiamento climático chegue a quem protege a floresta todos os dias.

Desde 2017, o Instituto Ekos Brasil faz a gestão do Programa Compromisso com o Clima. O programa foi concebido para ser uma ponte segura entre quem compra e quem propõe projetos de créditos de carbono no mercado voluntário e já nasceu priorizando a integridade: avaliações técnicas, jurídicas, socioambientais, considerando, inclusive, aderência a normas e contextos locais. Essa é a integridade que praticamos: a que mede carbono, mas também mede confiança; a que entrega números, mas também entrega regeneração.

A força das ações locais no combate global às mudanças climáticas | Especial COP 30

Desde 1995, a COP reúne 197 países e a União Europeia, ou seja, 198 partes, com o objetivo de negociar compromissos conjuntos (e em consenso) para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. 

E negociar é uma palavra importante. Ainda que a COP seja mais popularmente conhecida como um “evento” que acontece a cada ano em um local diferente, em sua essência, uma Conferência das Partes das Nações Unidas é um ambiente de negociação entre as signatárias. Essas negociações são acompanhadas de perto por observadores como agências da ONU, organizações não governamentais, representantes do setor privado, ambientalistas, cientistas e povos tradicionais. 

No entanto, cabe ressaltar que, embora a agenda de negociações de uma COP seja sempre global, afinal, a Mudança do Clima é um desafio de todo o planeta, é na esfera local que grande parte das soluções se concretiza. Um dado importante publicado pelo ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade, mostra que 70% das emissões globais de gases de efeito estufa se concentra nas cidades e é nesses centros urbanos que precisam nascer as soluções mais eficazes. No entanto, apenas 27% dos planos climáticos nacionais (as chamadas NDCs — Contribuições Nacionalmente Determinadas) trazem forte conteúdo urbano. 

A lacuna entre as metas globais e a ação local foi tema central do evento paralelo “COP30 Urbana e Além: ação multinível e urbanização sustentável para cumprir o Acordo de Paris”, realizado durante as negociações climáticas de Bonn (SB62) em junho deste ano.

Este evento, que é parte do percurso das negociações até a COP30, destacou a importância da articulação entre governos locais e nacionais na implementação de políticas climáticas eficazes. Antonio da Costa e Silva, Assessor Internacional Chefe do Ministério das Cidades, esteve presente e afirmou que a NDC atualizada do Brasil já reflete uma abordagem mais multinível, com a escuta de vozes dos 5.570 municípios e 27 estados.  

ação local
Foto: Canva Pro

Outros países também avançam nessa direção. No Panamá, o “Compromisso com a Natureza” articula ações climáticas de forma simples e holística, incluindo contribuições de cada comunidade e município. Ruanda promove consultas nacionais, com apoio do ICLEI, para alinhar sua resposta climática ao planejamento de desenvolvimento. 

No Brasil, também temos alguns exemplos de cidades que demonstram ser possível liderar ações climáticas locais de maneira estratégica e estruturada, apesar de apenas 13 capitais e o Distrito Federal possuírem Planos de Ação Climática

Recife, por exemplo, elabora desde 2015 inventários de emissões de GEE que servem como base para estratégias de mitigação da Mudança Climática. Esse histórico fez com que a capital lançasse, ainda em 2020, o Plano Local de Ação Climática. Curitiba tem mais de 1000 Unidades de Conservação Municipais e historicamente integra soluções sustentáveis de mobilidade urbana. Já Campo Grande já foi reconhecida seis vezes como Tree City of the World pela FAO e pela Arbor Day Foundation e, de acordo com o IBGE (2022) é a cidade mais arborizada do Brasil. A capital mato-grossense é um dos destaques entre as cidades que participam do Plano Nacional de Arborização Urbana. 

São Paulo, Campinas, Contagem, dentre outras, investem em Soluções Baseadas na Natureza como jardins de chuva e corredores ecológicos.

Como vimos, o enfrentamento à Mudança do Clima depende, sim, de grandes acordos internacionais, mas é no território que esses compromissos ganham forma e impacto. Quando governos locais, nacionais, setor privado e sociedade civil trabalham juntos, os resultados são mais ambiciosos, mais realistas e mais propensos a gerar transformações efetivas. 

E a COP 30, que acontecerá em Belém em 2025, será mais uma oportunidade de reconhecer e ampliar o protagonismo das ações locais na construção de um futuro climático mais justo e sustentável.

Conheça o Programa Compromisso com o Clima.

Projetos de Blue Carbon no Brasil: qual o nosso potencial? 

Ecossistemas costeiros são gigantes do sequestro de carbono, armazenando até dez vezes mais carbono por unidade de área do que florestas terrestres

Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), o Brasil é responsável pela proteção de 7,4% da área de manguezais do mundo, com um total de 1,4 milhão de hectares de manguezais ao longo da faixa costeira, dos quais cerca de 90% são protegidos por 120 unidades de conservação. 

Diante desse cenário, não à toa nosso país apresenta um potencial estratégico para os chamados projetos de carbono azul, ou Blue Carbon, que envolvem a conservação e restauração de ecossistemas costeiros como manguezais, pradarias marinhas e marismas salinas com foco na mitigação das mudanças climáticas. 

Além de capturar carbono, esses projetos promovem a proteção da biodiversidade, fortalecem a resiliência costeira contra erosão e eventos climáticos extremos e geram impactos sociais positivos, como oportunidades de trabalho e renda para comunidades tradicionais e costeiras. 

Nos últimos anos, o mercado voluntário de créditos de carbono azul tem ganhado fôlego no Brasil. Agora, com o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) em fase de implementação, crescem  iniciativas potenciais para atrair investimentos nacionais e internacionais. 

Mas, o que impede esse potencial de ser ainda maior? 

Apesar do grande potencial, a implementação de projetos Blue Carbon no Brasil enfrenta desafios significativos. 

O Atlas dos Manguezais do Brasil destaca, por exemplo, que 25% do ecossistema de manguezais já pode ter se perdido devido, principalmente, ao cultivo de camarões em cativeiro para fins comerciais (carcinicultura), além de outras práticas que utilizam essas áreas para atividades inadequadas. 

Ao contrário das florestas amazônicas, a pressão de desmatamento em manguezais pode ser menor ou menos documentada, dificultando a comprovação da adicionalidade, requisito essencial para projetos de carbono que buscam gerar créditos..

O mercado brasileiro também carece de regulamentações claras, metodologias padronizadas e incentivos econômicos que impulsionem projetos Blue Carbon. Há também os desafios técnicos e científicos de monitoramento dos projetos para comprovação da integridade e o foco histórico em projetos florestais. Outro ponto crítico é o engajamento das comunidades locais, fundamental para o sucesso dos projetos, mas que exige tempo e articulação social. 

Mais um entrave está nas metodologias complexas para medir e certificar o carbono armazenado em manguezais e outros ecossistemas costeiros. A falta de padrões rigorosos e confiáveis para avaliação e verificação dos créditos é um problema global, que também afeta o Brasil, gerando ceticismo e dificultando o acesso a financiamentos e investidores.

Posição privilegiada para gerar carbono azul 

Mesmo assim, o Brasil está em uma posição privilegiada para liderar a agenda global de blue carbon, dada a extensão e relevância de nossos ecossistemas costeiros. Com avanços regulatórios recentes e crescente interesse do mercado voluntário de carbono, há oportunidades reais para superar os desafios e consolidar projetos que integrem conservação ambiental, desenvolvimento econômico e justiça social. 

Um estudo da ONG Guardiões do Mar, intitulado “Oceano sem Mistérios: carbono azul dos manguezais” estima o potencial financeiro de R$ 49 bilhões em crédito de carbono com projetos Blue Carbon.

Em uma tentativa de reforçar a importância desses ecossistemas, o Governo Federal, por meio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, instituiu em 2024 o Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil (ProManguezal), que define diretrizes e ações para conservar, recuperar e promover o uso sustentável desses ecossistemas costeiros, reconhecendo sua importância para captura de carbono e para as comunidades tradicionais que deles dependem.

O ProManguezal é um passo importante para superar barreiras, mas ainda é necessário avançar em sua implementação integrada para que os projetos de carbono azul possam se desenvolver efetivamente no país.

Nota adicional

A Verra, uma das principais certificadoras de créditos de carbono, mantém um portfólio de metodologias que incluem abordagens para ecossistemas costeiros e manguezais que são a base do carbono azul. A organização também tem incentivado o uso de metodologias digitalizadas para facilitar a geração e verificação de créditos de carbono, o que inclui projetos relacionados ao carbono azul. 

Referências: 

https://www.conservation.org/act/share-the-facts-about-mangroves#:~:text=Os%20manguezais%20armazenam%20mais%20carbono,solu%C3%A7%C3%A3o%20para%20as%20mudan%C3%A7as%20clim%C3%A1ticas.

https://www.conservation.org/brasil/noticias/2024/06/05/conserva%C3%A7%C3%A3o-internacional-apoia-constru%C3%A7%C3%A3o-de-nova-pol%C3%ADtica-de-manguezais-do-brasil-o-promanguezal

https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/noticias/ultimas-noticias/icmbio-lanca-atlas-dos-manguezais-do-brasil

https://movimentoeconomico.com.br/estados/ceara/2025/04/28/carbono-azul-abre-novas-oportunidades-no-nordeste/

https://www.gov.br/icmbio/pt-br/centrais-de-conteudo/atlas-dos-manguezais-do-brasil-pdf

https://obsinterclima.eco.br/wp-content/uploads/2024/04/Caderno-09-2024.pdf

https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2024-10/manguezais-tem-potencial-de-gerar-r-49-bilhoes-em-credito-de-carbono

https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202406/governo-federal-lanca-programa-nacional-para-conservacao-e-uso-sustentavel-de-manguezais

SNUC chega aos 25 anos com motivos para celebrar, defende ambientalista

Por Elizabeth Oliveira, publicado originalmente em ((o))eco, em 16 de julho de 2025.

Em mais de duas décadas, a implementação dessa legislação ambiental passa por desafios, mas seu legado de proteção da natureza e dos modos de vida tradicionais é inegável

“Mais do que nunca há motivo para comemorar sim”, afirma a engenheira agrônoma Maria Cecília Wey de Brito, diretora de Relações Institucionais do Instituto Ekos Brasil, em entrevista ao ((o))eco. Como ambientalista e especialista de longa trajetória, ela participou ativamente da construção da Lei 9.985 que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), em 18 de julho de 2000, e, nesta quarta-feira (16), integrou as atividades oficiais de celebração, promovidas pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Em conversa com a reportagem, na véspera do evento, destacou que esse arcabouço legal de importância central para a proteção da biodiversidade e modos de vida tradicionais do país levou mais de dez anos em debates que agregaram uma diversidade de vozes e visões. Defendeu, ainda, que apesar de todas as limitações que têm impactado o seu processo de implementação, a força do legado do SNUC é inegável. 

((o))eco. Como você avalia esse aniversário 25 anos do SNUC em um momento de tantas pressões para enfraquecer as salvaguardas de proteção da natureza no Brasil. O país tem motivos para comemorar?

Maria Cecília Wey de Brito. Vale a pena comemorar muito esse marco. Apesar das inúmeras dificuldades enfrentadas para a sua implementação e das críticas sofridas devido a essas e outras questões, a lei se manteve intacta durante todo esse tempo. 

Que contribuições o SNUC tem conseguido trazer para a conservação da natureza no Brasil e quais foram as suas principais inovações? 

Para além da importância da proteção da biodiversidade, com avanços alcançados em termos de ampliação de ambientes legalmente protegidos, o SNUC conseguiu fortalecer a participação social no processo de instituição e gestão de unidades de conservação. Essa conquista  tem garantido uma diversidade de vozes que vai de técnicos e ambientalistas às populações tradicionais e outros segmentos. Embora os territórios tradicionais sejam espaços de resistência historicamente, se não fosse pelas garantias asseguradas por essa lei, em função de inúmeras pressões, certamente, muitas populações que hoje habitam as UCs no país já teriam sido empurradas para as periferias das cidades.

A construção da lei em si provocou embates devido às diferentes visões que buscavam influenciar o Legislativo. Tendo acompanhado esse processo, como você avalia que foi possível conciliar perspectivas dos que defendiam tanto a proteção integral como o uso sustentável da biodiversidade?

Participando de várias reuniões e debates na época de construção dessa lei, eu me lembro que existia sim essa divisão de percepções. Era forte ainda o olhar mais direcionado à proteção das paisagens, da vegetação e de outros elementos naturais. No entanto, muitos avanços foram alcançados em termos de conciliação devido às batalhas que foram travadas por Chico Mendes e outras lideranças. Essas personalidades do movimento socioambientalista, incluindo a atual ministra Marina Silva, perceberam a importância de assegurar a presença das populações tradicionais em territórios protegidos legalmente, onde suas culturas pudessem se manter. Houve muita luta política para defender a ideia de que essas populações protegem a natureza com seus modos de vida. Dessa forma, os deputados federais Fabio Feldman e Fernando Gabeira, que foram relatores do SNUC, conseguiram acomodar debates internos e depois externos, ao incluir como categorias inovadoras as Reservas Extrativistas (Resex) e as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) na proposta de lei do SNUC.   

Em termos de perspectivas de futuro, quais são as suas expectativas, considerando todas as pressões que continuam havendo para fragilização da legislação ambiental, não sendo diferente com a lei do SNUC. Que alertas você daria para a sociedade brasileira?

Os embates devem continuar existindo para o afrouxamento da legislação ambiental, considerando o Congresso como está hoje e o que devemos ter após as próximas eleições. Além disso, temos visto muita resistência dos governos estaduais em relação às Unidades de Conservação. Mas precisamos refletir que o SNUC é uma lei que regulamenta diretrizes da Constituição que obrigam todos os entes [federais, estaduais e municipais] a criarem áreas protegidas. Não se pode parar processos quando os governos não querem. Independentemente de posição política, é preciso desconstruir essa ideia de muitos que seguem contrários à proteção da natureza e dos modos de vida de populações tradicionais.

Apesar de todos os entraves que envolvem a proteção da natureza e da sociobiodiversidade no Brasil, de forma geral, você se considera otimista em relação ao futuro dessas agendas?

Sim, eu me sinto otimista. Principalmente, por ter observado e participado de grandes transformações no país ao longo desse tempo.  Melhorou muito a capacidade de atuação da sociedade civil brasileira em defesa das lutas coletivas, incluindo as agendas socioambientais. Temos muita construção e um legado enorme. Temos condições de fazer cada vez melhores escolhas diante de disputas que continuarão existindo. Recursos financeiros nunca tivemos o suficiente, mas se houver, certamente daremos um salto, considerando tudo o que já fizemos até aqui, mesmo diante de tantas limitações.

O que você considera como soluções possíveis para alcançar mais avanços no processo de implementação do SNUC?

Eu considero que o governo pode e deve trabalhar mais em parceria com a sociedade, valorizando essa alternativa como solução possível. No Instituto Ekos temos exemplos de parcerias muito bem-sucedidas. Uma delas é um Acordo de Cooperação com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para apoio à gestão do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu (MG) e da APA de mesmo nome, com área sobreposta a essa UC. O Parque abriga o Cânion do Peruaçu, recentemente reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Com essa unidade de conservação, desenvolvemos um trabalho com excelentes resultados há mais de 20 anos, quase o mesmo tempo de existência do SNUC. Também temos um Termo de Parceria estabelecido com o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais para fortalecimento da gestão do Parque Estadual do Rio Doce [UC afetada pelo desastre ambiental provocado, em 2015, pelo rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), empreendimento operado pela Samarco]. 

Agora Patrimônio Mundial Natural, Cânion do Peruaçu conta com apoio do Ekos Brasil desde 2003. 

Pouco depois do reconhecimento oficial do Cânion do Peruaçu, localizado no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu como Patrimônio Mundial Natural pela Unesco, o time do Instituto Ekos Brasil ainda está cheio de emoção e quase sem acreditar na grandeza desse acontecimento! 

É que para nós essa conquista tem um gostinho para lá de especial e não à toa teve gente da equipe que pulou e gritou em frente à tv na hora do anúncio como se fosse final de Copa do Mundo.  

Afinal, desde 2017 apoiamos o Parna Peruaçu em um modelo pioneiro de parceria público-privada. Junto ao ICMBio, gestor da Unidade, assinamos em 2017 um Acordo de Cooperação para apoiar e desenvolver atividades de gestão, conservação e uso público do parque, ampliamos o escopo em 2022 e, em 2023, assinamos um novo Acordo de Cooperação, abrangendo também o território da APA Cavernas do Peruaçu

Apesar do nosso 1º acordo com o ICMBio ter sido firmado em 2017, atuamos no Parque desde 2003, quando fizemos os estudos de elaboração do plano de manejo e, na sequência, o acompanhamento técnico da implementação de infraestrutura e uso público do parque. Essa relação de mais de 20 anos nos fez celebrar (e muito) a conquista do reconhecimento pela Unesco. Isso porque, mais do que ninguém, sabemos que para além de toda a riqueza de sua biodiversidade, de suas paisagens, cavernas e arqueologia, sabemos o quanto a comunidade que vive com e pelo Peruaçu merece essa conquista. 

Foto: Ekos Brasil

“Em todos esses anos, o que encontramos foi um povo do bem, cheio de gente acolhedora, batalhadora, que faz a gente se sentir em casa. Um povo que exalta a cultura sertaneja, o saber popular e o conhecimento tradicional. Tenho realmente muito orgulho do time que juntamos para apoiar o ICMBio na gestão e manutenção do Peruaçu”, destacou Jéssica Fernandes, coordenadora do Programa Peruaçu. 

Com o reconhecimento da Unesco, o Instituto Ekos Brasil espera que as comunidades que apoiam a perpetuação das áreas protegidas do Peruaçu sejam ainda mais beneficiadas pelo desenvolvimento do turismo comunitário sustentável e, claro, pela manutenção dos serviços ecossistêmicos que a natureza generosamente oferece a todas as pessoas. 

Programa Peruaçu 

A parceria entre Ekos Brasil e ICMBio no Parna e APA Peruaçu vem sendo considerada um modelo de sucesso internacional de conservação da biodiversidade. Ao lado de profissionais competentes e apaixonados pela sua região e de toda a comunidade, atuamos em seis frentes de ação: apoio à gestão do parque e da APA, iniciativas de apoio à ciência, promoção de negócios socioambientais, ações de educação ambiental e valorização da natureza e história da região, e o fortalecimento da governança. 

Para fazer isso tudo acontecer, criamos o Programa Peruaçu, que arrecada contribuições financeiras de empresas, organizações governamentais e não governamentais nacionais e internacionais e de pessoas físicas e as direciona aos projetos e atividades demandadas pelo Plano de Trabalho.

Toda verba arrecadada pelo Programa Peruaçu é destinada a apoiar atividades das quais a gestão do parque não tem recursos ou obrigação em investir, mas que são importantes para a continuidade .

O Programa Peruaçu não substitui os recursos advindos do governo federal, e tem como principal objetivo apoiar ou acelerar  a execução de atividades consideradas prioritárias.

Todos os recursos captados pelo Instituto Ekos são integralmente repassados ao ICMBio na forma de produtos, materiais e projetos, portanto, não há repasse de dinheiro entre as instituições. 

O que significa ser Patrimônio Mundial Natural pela Unesco 

Em decisão unânime durante a 47ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, em Paris, os Cânions do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu foi reconhecido como Patrimônio Mundial Natural. 

Em entrevista exclusiva ao Ekos Brasil, Bernardo Issa, coordenador-geral de Gestão do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, explicou que todo patrimônio que se candidata à lista da UNESCO precisa comprovar seu Valor Excepcional Universal. Isso significa que deve ter um significado cultural e/ou natural que transcenda as fronteiras nacionais e tenha relevância para as gerações presentes e futuras da humanidade.

Issa detalhou que o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu foi inscrito em dois dos quatro critérios exigidos pela UNESCO para Patrimônios Naturais: o critério VII e o VIII.

  • Critério VII: Conter fenômenos naturais superlativos ou áreas de grande beleza natural e importância estética.
  • Critério VIII: Ser um exemplo representativo de etapas importantes da história da Terra, incluindo testemunhos de vida, processos geológicos que formam características geomórficas ou fisiográficas significativas.

A beleza do Peruaçu dispensa comentários. A caverna do Janelão possui largura e altura superiores a 100 metros, o que permite a entrada de luz solar e o desenvolvimento de vegetação em suas vastas câmaras. Na dolina dos Macacos, encontra-se a maior estalactite do mundo, a “Perna da Bailarina”, com cerca de 28 metros de comprimento. Além disso, são quase 500 cavidades catalogadas e mais de 114 sítios arqueológicos que registram ocupações humanas datadas de mais de 12.000 anos A.P., muitos com arte rupestre em excelente estado de preservação. Tudo isso em uma zona de transição ecológica entre os biomas do Cerrado e da Caatinga, com bolsões de Mata Atlântica.

Parabéns, Parna Peruaçu! Temos muito orgulho de compartilhar essa conquista com o seu povo! 

Projeto de Manejo leva prevenção ao fogo para o bioma com maior área queimada acumulada

A mais recente edição do Relatório Anual do Fogo (RAF) aponta que 45% do Cerrado foi queimado pelo menos uma vez em 40 anos, sendo 43% da área queimada nacional. O bioma ainda tem  a maior média nacional de área queimada – 9,6 Mha queimados todos os anos, com extensas áreas atingidas inclusive dentro de Unidades de Conservação. 

De acordo com Vera Arruda, coordenadora técnica do MapBiomas Fogo em entrevista ao site do próprio MapBiomas, o que os pesquisadores têm observado é que a incidência de incêndios têm sido maior no período da seca, em razão, principalmente, de atividades humanas e agravada pelas mudanças climáticas. 

“Um dado especialmente preocupante é o avanço do fogo sobre as formações florestais no Cerrado, que em 2024 atingiram a maior extensão queimada dos últimos sete anos — uma mudança na dinâmica do fogo que ameaça de forma crescente a biodiversidade e a resiliência desse bioma” , comentou Arruda. 

Fonte: RAF 2025 – MapBiomas

É dentro deste contexto preocupante que o Instituto Ekos Brasil inicia um projeto com diversas ações de prevenção ao fogo na região do Mosaico Sertão Veredas – Peruaçu, no Cerrado mineiro.  

Intitulado Conhecer e Prevenir: estruturação para um Manejo Integrado do fogo mais efetivo, a iniciativa terá atuação em duas novas  Unidades de Conservação: O Parque Estadual Veredas do Peruaçu de Proteção Integral e a Reserva Estadual de Desenvolvimento Sustentável Veredas do Acari, além da atuação no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e a Área de Proteção Ambiental Cavernas do Peruaçu. 

Durante 18 meses, o Ekos Brasil irá implementar ações de prevenção ao fogo nas comunidades pertencentes aos territórios, em conjunto com as equipes gestoras das UCs seguindo as diretrizes da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (LEI Nº 14.944, DE 31 DE JULHO DE 2024).

“Olhando para estes dados e compreendendo o impacto do fogo em áreas de vegetação nativa iniciamos este projeto ainda mais comprometidos em seguir fortalecendo o território, a biodiversidade e a comunidade. Um novo desafio frente à uma antiga ameaça.”

ressaltou Francieli Kaiser, coordenadora de projetos de conservação da biodiversidade do Instituto Ekos Brasil. 

A iniciativa acontece em parceria com o Programa Copaíbas do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). 

Fonte: Projeto MapBiomas – Mapeamento das áreas queimadas no Brasil entre 1985 – 2024 – Coleção 4, acessado em 1º de julho de 2025 através do link: https://brasil.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/4/2025/06/RAF2024_24.06.2025_v2.pdf

Reserva Pinho Bravo: um exemplo a ser comemorado de conservação da Mata Atlântica

Recentemente, a ONG SOS Mata Atlântica divulgou seus dados anuais sobre o desmatamento do bioma. Chamou a atenção uma redução de 27% no desmatamento em comparação com os dados do ano anterior. Uma ótima notícia para quem procura conservar o bioma mais desmatado do país, do qual restam apenas 24% da cobertura original.

Taxa de desmatamento e tendência para a série histórica de mapeamento – Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica Período 2022-2023, Fundação SOS Mata Atlântica e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

É estimado que existam mais de 1.300 fragmentos de Mata Atlântica com mais de 1.000 hectares e que a maioria dos remanescentes tenha menos de 50 hectares. Essa enorme fragmentação é um problema para a manutenção saudável da floresta. Sem conectividade adequada entre os fragmentos, muitos processos ecológicos são perdidos e a manutenção de espécies é significativamente prejudicada.

Como imaginar uma onça-pintada por exemplo vivendo em uma região com pequenos fragmentos de floresta cercado de pastos, ou canaviais ou casas de veraneio?

Da parte da iniciativa pública, a criação das várias Unidades de Conservação (UCs) para proteção de extensões maiores de vegetação nativa é muito importante.  No caso da Mata Atlântica, alguns proprietários conservam a vegetação em suas propriedades e vários vêm constituindo Reservas Particulares do Patrimônio Natural ou outros tipos de Reservas que não fazem parte do Sistema Nacional de Unidades de Conservação.

Dos 24% remanescentes do bioma Mata Atlântica, estima-se que 80% estejam em propriedades privadas. Vemos aí a importância de iniciativas de conservação por entes privados para a conservação desse patrimônio nacional.

Um exemplo a ser comemorado é o da Reserva Pinho Bravo, uma área linda e de grande extensão na Serra da Mantiqueira, situada entre os municípios de Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí, em São Paulo. No interior dessa reserva particular existem vários tipos de paisagens — como florestas, campos de altitude, matas de araucárias, entre outros. A Reserva ajuda a conservar a vegetação nativa e a manter a conexão entre áreas protegidas próximas, como o Monumento Estadual da Pedra do Baú e o Parque Estadual Campos do Jordão. Na Reserva Pinho Bravo também estão sendo realizadas diversas pesquisas científicas e atividades de turismo sustentável, que ajudam a movimentar a economia local de forma responsável.

Um estudo ainda em andamento pelo Instituto Ekos Brasil em parceria com a Geonoma Consultoria Ambiental observou que quase dois terços da Reserva são cobertos por matas nativas em diferentes estágios de regeneração e que 80% da área é ocupada por formações nativas, ou seja, florestas (70%) e campos (10%). Muitas das espécies de plantas identificadas podem existir apenas nessa Reserva, pois ainda não foram registradas nas Unidades de Conservação ao redor. Isso indica que a flora dessas áreas ainda não foi completamente estudada — ou que a Reserva Pinho Bravo realmente protege espécies que desapareceram dessas áreas. Inclusive, há potencial para encontrar espécies raras, exclusivas da região, ou até mesmo novas para a ciência, principalmente nos chamados Campos de Altitude, que ficam em altitudes elevadas e têm vegetação bem característica, com alto grau de exclusividade e que estão protegidas na Reserva.

Leia também: Ekos e IEF adotam protocolo de monitoramento da biodiversidade no PERD aos moldes do Programa Monitora do ICMBio

Por estar localizada em uma área muito específica da Mata Atlântica, em uma das partes mais altas da região, pode-se dizer que a Reserva Pinho Bravo tem um papel muito importante dentro da rede de áreas protegidas da Serra da Mantiqueira, contribuindo para manter a variedade de ecossistemas e aumentando a capacidade da natureza de se adaptar a mudanças, inclusive  mudanças climáticas.

Enquanto celebramos a iniciativa da criação da Reserva Pinho Bravo que se mostra aderente à realidade e olha responsavelmente para as crises climáticas e de perda da biodiversidade, fazendo parte da solução dos dois maiores desafios de nossos tempos, o Senado aprovou o PL 364/2019 que flexibiliza a legislação ambiental. O PL enfraquece especialmente a conservação dos ambientes não florestados, como os Campos de Altitude que fazem parte da Mata Atlântica, patrimônio nacional. Esses campos são ecossistemas raros, muito especializados e sensíveis, então precisam de proteção urgente.

O Instituto Ekos almeja que, no futuro, possamos falar de mais exemplos como o da Reserva Pinho Bravo, que merecerão um lugar muito mais valorizado em nossa história.