INSTITUTO ECKOS LOGO

Blog

#NossoBlog

Quando deixamos de nos importar?

Ekos Brasil 28 set 2026

O Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, publicou uma estimativa que deveria parar o país. O “Super El Niño” em curso pode causar 451 mil mortes a mais por calor no mundo, contadas de junho de 2026, quando o fenômeno começou, até fevereiro de 2027. Só nos seis meses entre setembro e fevereiro, são cerca de 239 mil vidas.

O Brasil está entre os 50 países mais impactados e aparece nominalmente entre os mais atingidos no relatório. Aqui, a projeção é de 13.300 mortes adicionais pelo calor entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. Desse total, 8 mil devem ocorrer entre dezembro e fevereiro, no coração do nosso verão.

Michael Greenstone, um dos fundadores do laboratório, fez um alerta que me acompanhou o dia todo. Um número desse tamanho pode anestesiar. Mas cada unidade dele é um pai, uma mãe, um filho, um avô, uma vizinha, alguém indo trabalhar ou cuidando da família. Treze mil pessoas no Brasil. É mais gente do que muitos municípios brasileiros inteiros.

A morte por calor tem uma característica cruel: raramente vira manchete. Não há desabamento, não há imagem de enchente. Ela acontece dentro de casa, no ônibus lotado, no canteiro de obras, no quarto sem ventilação de uma pessoa idosa que mora sozinha. Por isso é tão fácil deixar de enxergá-la.

Um recado do futuro

Os pesquisadores chamam este El Niño de “cartão-postal do futuro”.

As temperaturas que ele traz agora são as que a mudança do clima deve tornar comuns daqui a uns 20 anos. Ou seja, estamos vivendo antecipadamente um clima para o qual ainda não nos preparamos. Essa é a má notícia. A boa é que ela vem com um aviso prévio.

Há tempo, e há o que fazer

Canva Pro.

O próprio relatório insiste nisso: como boa parte das mortes projetadas para o Brasil se concentra entre dezembro e fevereiro, ainda existe uma janela para agir. E as medidas que funcionam não são mistério. O inventário de adaptação do laboratório reúne evidências de que os alertas de calor, a busca ativa de pessoas vulneráveis pelo sistema de saúde; os centros de resfriamento e pontos de hidratação; a proteção de quem trabalha ao ar livre e o reforço da capacidade dos serviços de saúde, salvam vidas. 

Do lado do poder público, o Ministério da Saúde anunciou em junho um plano para preparar o SUS para o El Niño e para a mudança do clima, dentro do programa AdaptaSUS, com R$ 9,8 bilhões previstos até 2035. Entre as ações anunciadas estão um painel nacional de excesso de calor com alerta de até cinco dias, a ampliação da Força Nacional do SUS, um protocolo específico para proteger idosos e, no Nordeste, centros de informação em saúde e clima e “zonas de resfriamento” em postos de saúde. São passos importantes. Será que vamos conseguir  sair do anúncio e chegar à ponta, no posto de saúde do bairro, antes de dezembro?

Mas a pergunta do início não é só para o governo.

Empresas que têm equipes na construção, no campo, na logística e nas entregas podem rever jornadas, pausas e acesso à água e sombra agora, e não depois do primeiro afastamento. Quem já trabalha com riscos climáticos físicos sabe que calor extremo não é abstração: é gente, produtividade e continuidade operacional. E cada um de nós pode fazer algo mais simples e igualmente poderoso: saber quem, na nossa rua, no nosso prédio ou na nossa família, mora sozinho e vai precisar de uma ligação num dia de 40 graus.

Um cuidado com os números

São projeções, feitas a partir de modelos que relacionam temperatura e mortalidade, e os próprios pesquisadores dizem que vão atualizá-las ao longo dos próximos meses. O método completo ainda passará por revisão por pares. Isso não enfraquece o alerta. Uma estimativa com incerteza continua sendo um motivo para agir, principalmente quando as medidas de prevenção são conhecidas e relativamente baratas.

Talvez a gente não deixe de ser humano de uma vez. Talvez seja aos poucos, cada vez que um número grande passa pela tela e a gente rola para o próximo post. Este é um convite para não rolar. Ainda dá tempo.

Por Rubens Ferreira

Fontes

Veja também