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Por Jéssica Fernandes*
Falar de conservação ambiental hoje, para mim, é falar de pessoas.
Ao longo da minha trajetória trabalhando diretamente com Unidades de Conservação, especialmente no território do Vale do Peruaçu, essa percepção fica cada vez mais evidente : não existe conservação ambiental sem participação e protagonismo local.
Em regiões com áreas protegidas, a conservação não acontece apenas dentro dos limites definidos por decretos de criação. Ela acontece nas comunidades, por meio dos seus modos de vida e das relações construídas com o território ao longo de gerações.
Comunidades tradicionais, povos originários, agricultores familiares, extrativistas e moradores do entorno são detentores de conhecimentos tradicionais ancestrais e percebem mudanças antes mesmo dos dados oficiais. Não temo em dizer que são, muitas vezes, os verdadeiros protetores desses territórios frente às ameaças e pressões econômicas.
Mais do que tratar essas populações como beneficiárias, é preciso trazê-las para o centro da discussão, envolvê-las e empoderá-las como protagonistas que são. É nessa interseccionalidade que a conservação deixa de ser apenas proteção de áreas e passa a ser também valorização de modos de vida.
Mas, reconhecer esse protagonismo exige uma mudança de paradigma. Afinal,não é mais aceitável criar políticas ou projetos sem o envolvimento das comunidades e sem escutar suas vozes. É aqui que a articulação entre diferentes atores deixa de ser um detalhe e passa a ser uma estratégia central para o sucesso da conservação.
Posso adicionar que falar de conservação da biodiversidade, é falar também de geração de renda. Não existe conservação sem condições dignas de vida considerando, principalmente, os efeitos das mudanças do clima que atingem as populações mais vulnerabilizadas.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, mais de 2 bilhões de pessoas no mundo dependem diretamente de recursos naturais para sua subsistência. No Brasil, cadeias ligadas à sociobiodiversidade, como extrativismo, agricultura familiar e restauração ecológica têm enorme potencial de geração de renda, mas ainda enfrentam desafios relacionados ao acesso a mercado, financiamento e assistência técnica. Se essas cadeias não considerarem quem está na ponta, no chão, elas simplesmente não se sustentam.
E isso não significa reduzir a conservação a uma lógica puramente econômica. Pelo contrário, é reconhecer o papel dessas pessoas no processo de convivência com as áreas naturais, inclusive, com fontes de renda alternativas a ações degradatórias. Cadeias bem estruturadas, que valorizam produtos da sociobiodiversidade, serviços ambientais, turismo de base comunitária e iniciativas de restauração, têm grande potencial de alinhar conservação e desenvolvimento local.
Ao passo que avançamos em compromissos globais como o Acordo de Paris, ou o Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, entendemos também que o grande desafio agora está na forma como isso se materializa no território. Porque existe um desalinhamento evidente: as metas são globais, mas a execução é local e, na maioria das vezes, sem financiamento suficiente.
Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) demonstram que o mundo enfrenta um déficit anual de cerca de US$ 700 bilhões para a conservação da biodiversidade. E, quando os recursos existem, nem sempre chegam na ponta de forma justa ou estruturante.
O que significa que não adianta desenhar mecanismos financeiros sofisticados, como mercados de carbono ou grandes programas de restauração, sem reconhecer quem planta, protege, monitora, maneja e vive nessas áreas. Sem esse vínculo, a conservação passa a ser mais um processo excludente, cujos louros acabam destinados às grandes organizações, com seus “grandes feitos” realizados.
Nesse cenário, reconheço que as organizações da sociedade civil assumem um papel estratégico. Elas são capazes de atuar como pontes entre políticas, financiamento e território, conectam pessoas, fortalecem capacidades locais e viabilizam a implementação de iniciativas conjuntas que fazem sentido na prática.
Reconheço também que essa atuação precisa ser cuidadosa e constantemente revisitada, para ampliar o protagonismo local e não o substituir.
Na prática, a conservação não é só sobre proteger nossa biodiversidade ou os serviços ecossistêmicos, é sobre relações, entre as instituições, políticas, estratégias e principalmente, entre as pessoas e os territórios.
Afinal, o futuro da conservação é pessoal, coletivo e é participativo.
*Jéssica Fernandes é Coordenadora do Programa Peruaçu no Instituto Ekos Brasil, bióloga e possui mais de uma década de experiência em projetos e programas socioambientais de conservação da biodiversidade em Unidades de Conservação brasileiras.